dezembro 19, 2010

Notícias Magazine: Orgulho e preconceito pendurados no… Varão.



Do cabaré para o Casino, sem passar pelo convento, nem ir para o Inferno!
A Notícias Magazine acompanhou um grupo de alunas da Academia de Pole Dance, durante várias semanas. Entre as aulas de dança no varão que frequentam e o primeiro evento nacional do género em Portugal, que se realizou no Casino da Figueira da Foz, um grupo de mulheres comuns, com uma paixão em comum, pelo varão e pelo que ele representa para elas. Saúde física, auto-estima, beleza, sensualidade e… preconceito também, sensações distintas que surgem nos olhares e constam nas palavras quase sempre que o tema é tão inesperadamente controverso como o Pole Dance.

Texto
Pedro Cativelos Coimbra do Amaral
Fotografia
Patrícia de Melo Moreira

 “Isso meninas, assim mesmo, o rabinho para cima, e o cabelo para trás… isso mesmo!”. Os espelhos, reflectem os brilhos dos varões, e as luzes a cintilar nas coxas destapadas, que se esmeram contra o ferro forçado prateado e reluzente. 

Este é um tema abordado com base na gramática do mundo em que vivemos, cheio de artigos definidos, verdades feitas, singulares e plurais, feminino porque é ele quem comanda os tempos modernos. Será?!
Preconceitos, são isso mesmo, conceitos adquiridos antes de serem conhecidos, e conjugam-se na grande maioria das vezes em que se fala em pole dance, ou em dança do varão, nos olhares de quem escuta, nos momentos que se seguem a essas palavras.
É uma dança, mas não só, é um desporto também, para além de ser sensual, todavia não demasiado explícito, ou só até ao ponto em que desperta a curiosidade, nas mais variadas formas, e se torna moda num cada vez maior número de países, dos Estados Unidos à Austrália, subindo na escala geográfica, para a Europa, onde, de há alguns anos para cá, se começou a tornar famoso, também em Portugal, com o aparecimento de algumas escolas, e com a sua adaptação a academias de fitness, numa variante mais desportiva, por exemplo.
É só experimentar lançar o tema quando inserido num grupo alargado de pessoas. Verificará a multiplicidade de opiniões, quase todas associadas ao sexo, algumas ao striptease ou a meandros sociais mais esconsos, e a outras demais variadas direcções opinativas. Mas… Uma coisa, é no entanto comum a homens e mulheres, a curiosidade. E esse porquê, que parece fácil e objectivo de ser explicado, não é assim tão óbvio afinal. É todavia simples de perceber, depois de se conhecerem as histórias de quem se apaixonou por si própria, depois de se deixar levar pelas danças que o Varão lhe reservou.

A Academia do Varão
 
“É assim, de facto. Há muita gente que vê as reportagens que já passaram nas televisões sobre as nossas aulas, e que vêm até nós porque têm curiosidade em descobrir o que é que isto tem de especial e porque é que toda a gente que já experimentou não quer outra coisa”. Andreia Pinheiro é a fundadora da academia de Pole Dance, onde é instrutora também. Aos trinta e três anos é ela também a mais conceituada praticante do nosso país, e recentemente regressou da Austrália diplomada pela Bobis Pole Studio, uma escola que hoje em dia tem mais de cem outras franchisadas por todo o hemisfério sul do planeta, e de onde saem anualmente algumas das campeãs mundiais da modalidade. “Sim, porque isto é uma modalidade, que também pode ser dança, ou mesmo só um escape ao stress! Não é nada de mau, nem tem nada a ver com o striptease… E não é que tenha nada contra isso, mas este é feito por nós, e para nós próprias, e não para alguém estar a ver. Isto é, também pode acontecer, claro, mas o objectivo principal, e a razão de qualquer uma de nós estar aqui, e se entregar a isto que é tão difícil e exigente, até em termos físicos, não é essa, com toda a certeza”, complementa.
Trabalham sempre duas a duas, durante as aulas (duas por semana) de pouco mais de uma hora, mais ou menos alinhadas pela altura de cada uma, para se ajudarem mutuamente. “Um gemini”, agora um “saca-rolhas”, “uma borboleta”. Movimentos técnicos requeridos pela instrutora Marina Meireles, num tom quase… marcial. Aos 49 anos bem escondidos pela estampa física e pelo sorriso, chegou à Academia há pouco mais de dois depois de um grave acidente de mota, que quase lhe tolheu os movimentos. Foi assim, quase como complemento da fisioterapia que achava “aborrecida” que entrou, como aluna, para a Academia de Polé Dance, então ainda a começar. 


Tomou-lhe o gosto, e o corpo aperfeiçoou-lhe as formas. Passados alguns anos, é hoje “o braço direito” de Andreia, como a própria admite, e uma confessa entusiasta da modalidade. “Mulher de quase cinquentas, com corpo de trinta, e mentalidade de vinte”. Está assim, pelas suas próprias palavras, praticamente apresentada. Classifica-se desta forma, sem tempo de consumo, nem prazo de validade. E ri, alto e bom som, tal como a música, que nem precisa de ser especial para a levar lá bem para o alto do varão, e a transformar numa estátua de mulher musculada, que faz abrir as bocas e erguer os pescoços das alunas, que normalmente ficam com o olhar suspenso, e as palavras a descaírem, sorrateiras, entre dentes… “Mas eu não consigo fazer isso… Mas, epá… Eu tenho de fazer isto!”.
E tentam. Trepam o varão, com as pernas arqueadas, ou de cabeça para baixo, com os cabelos à deriva dos movimentos lascivos da cabeça, ou ao sabor da banda sonora que acompanha as aulas, e com sensualidade provocativa no olhar, no menear das mãos sobre as ancas, e do cabelo que as parece tocar, solto, selvagem, acrobático.

As aulas

No primeiro dia, há uma certa timidez no ar. Os movimentos não saem como o previsto,
o ensaio da sensualidade transformada em movimento, não surge natural. A presença de jornalistas é inibidora, intimidatória, principalmente quando os movimentos ainda não estão mecanizados com o corpo, e o varão é escorregadio demais, para se expor assim de relance, mesmo que numa pálida imagem ao espelho. “O que aqui se passa é que temos um momento do dia só para nós, onde podemos fazer tudo aquilo de que gostamos em uma hora… Dançar, fazer desporto, estar com as amigas, cuidar de nós, fazermos figuras tristes às vezes, claro, sermos mais provocadoras, sem termos de enfrentar qualquer julgamento por isso… E depois, saímos daqui muito mais bem dispostas e felizes da vida”, explica uma das alunas.
Todas as mulheres gostam de dançar. É daqueles lugares comuns, como o Rossio, ou uma qualquer zona equivalente. Tal como dizer que todos os homens gostam de futebol. Nem todos, mas há excepções que por vezes, confirmam as regras. Outro lugar comum…
Andreia dança. Teve um filho há pouco mais de um ano, mas o corpo já dissolveu quase na totalidade as marcas da maternidade, e os músculos, todos em conjunto, movimentam-se de acordo com o que lá vai dentro, a mulher selvagem, ginasticada, pujante, poderosa, capaz de tudo pelo prazer de oferecer prazer a si própria, possante e possuidora. Por fora, sem a música, as luzes baixas, os saltos altos que lhe dão a altura de Afrodite, é diferente… O tom das palavras sai-lhe tímido até. É reservada, senhora de si na mesma, concentrada, pouco dispersa, nada dada a grandes divagações de feminilidade. “Ali (acena para o varão) não sou eu totalmente, como também não o sou aqui. Acho que há partes de mim, lugares da minha personalidade que sobressaem aqui, e outros que acontecem ali. Tudo isso faz parte do que eu sou, do que está cá dentro. Sinto-me de facto muito próxima de mim, quando estou no varão, é certo, é a minha paixão e tenho a sorte de poder ser profissional disto”.


Modalidade... na moda
Pole dance é, na definição original, uma forma de dança combinada com ginástica que, na forma como hoje é praticada, nasceu no Reino Unido, nos anos 80, apesar de só ter chegado ao nosso país há pouco menos de cinco anos.
Enquanto modalidade, é simples de começar a praticar. “Pois, a dificuldade é mesmo a de conseguir fazer”. Já existem algumas escolas em Lisboa, e um varão para praticar pode custar entre os 350 euros (o mais comum, para ter em casa), e os 2000 mil (utilizados em competição), dependendo da qualidade e do fim a que se destinem. Quase todas as alunas têm um em suas casas. É leve, desmontável, e facilmente transportável. Parece um anúncio, mas é verdade, assim como os benefícios que todas descobrem e anunciam nesta forma de dança, que se multiplicam, e a vão transformando para lá de moda, em tendência que se vai massificando.
Apesar de se olharem sem temor, sem inibições, enquanto deixam o corpo resvalar pelo varão, e pelo próprio olhar que alimenta os sentidos mais interiores, quando a música cessa, e as luzes se levantam, o preconceito reencontra no entanto o seu lugar.
Encontram-se aqui todo o tipo de mulheres, de várias idades, das mais diversificadas profissões. Mães, filhas e avós, psicólogas, hospedeiras de bordo e empresárias. Todas independentes, a maioria casadas, ou com relações emocionais ou afectivas estáveis. São no entanto poucas, aquelas que dão o nome completo sem desviar o olhar para pensar uma segunda vez, e normalmente escolhem o apelido menos identificativo, para que ninguém as reconheça para lá desta sala de dedo em riste, nem que seja apenas metafórico, no trabalho, em casa porventura, na vizinhança.
Ivone, 60 anos, médica, é um desses casos. Avisa de imediato que não quer ver utilizado um apelido que a identifique no meio profissional. “Sempre fui uma desportista, faço duatlos e meias-maratonas. Isto… foi uma brincadeira em que decidi embarcar depois de uma conversa com a minha nora. Agora já cá estou há cinco meses e ganhei-lhe o gosto! Como sou de desportos mais físicos, tenho assim o complemento da dança e da flexibilidade, e faz-me sentir de bem comigo”.
Das cerca de cinquenta alunas actualmente inscritas na Academia, que tem instalações em São João do Estoril e no centro de Lisboa, perto do Marquês do Pombal, muitas levantam a mesma questão, relacionada com o receio de como os outros as poderiam julgar se soubessem que tinham aulas de dança no varão.
Com o decorrer dos dias, o à vontade começa no entanto a surgir, mas não em todas. Vera Apolinário começou assim, mas foi mudando de opinião. Aos 32 anos é empresária, proprietária de uma empresa de caixilharia para construção civil, e de uma loja de roupa. Consegue ainda arranjar tempo para ser assistente social e vir para as aulas, duas vezes por semana. “E são poucas, que por mim, vinha cá todos os dias!”, interrompe. “Estou aqui há dois anos, sou apaixonada pelo varão porque tenho um prazer enorme em fazer desporto, ando no ginásio e isto é um complemento, se é que ainda não é mais intenso. Depois, há a dança, que adoro. Estou no terceiro nível, e quero competir, tornar-me muito boa nisto!”.
Tem as pernas longas, e uma voz profunda. É uma das mais activas de todo o grupo, a que chama de “Tropa de Elite”. “Pois e é o que somos! Já tenho cá amigas para a vida! Falamos, saímos, divertimo-nos… O que aconteceu aqui, é que uma paixão comum, fez com que nos apaixonássemos umas pelas outras, enquanto pessoas, isso é tão bom!”.
O terceiro nível é o mais avançado. Ao evento nacional de Pole Dance da Figueira, que se realizaria dentro de alguns dias, apenas iam alunas deste nível, pouco mais de dez, acompanhadas das professoras de ambas as escolas.

Eliane Tozatti, 40 anos. Brasileira de Curitiba, a viver em Portugal há 18 anos, empresária no ramo da mediação imobiliária e mãe, é outro desses casos, das que até tem orgulho em dar a cara e o nome, por algo que aprendeu a gostar de fazer. “Quando comprei o varão lá para casa (quase todas as alunas do terceiro nível têm o seu próprio varão) pensei em como iria explicar isso aos meus três filhos. Não queria nenhum mal entendido. Fui ao Youtube e mostrei-lhes imagens de alguns acrobatas, homens e mulheres que fazem ginástica utilizando um varão. Eles adoraram, e disse-lhes que era aquilo que a mãe fazia, no fundo. Eles entenderam, e apoiaram-me, claro. Pessoalmente, para mim, é um desporto sensual, é assim que o vejo! Porque me aumenta a auto-estima, a confiança, porque me faz sentir mais bonita, mesmo em casa de t´shirt e chinelos!”.
Sente-se, pela proximidade dessa ocasião única para todas elas, alguma tensão no ar, os movimentos ganham intenção e músculo, aperfeiçoam-se, trajados agora com as roupas que iram utilizar no evento, e claro, com os enormes saltos altos que fazem parte do ritual.
“Ah… as roupas”…, retoma Vera. “Ai, aí é quando começa a dança a sério! Quando nos vestimos, pomos os saltos altos, soltamos o cabelo e ele fica longo a cair nas costas…”
As aulas são agora ensaios. Recomeça o espectáculo de um grupo de mulheres em busca de si próprias, na procura de algo, que não se encontra habitualmente no dia-a-dia, nas filas de trânsito, no trabalho de escritório, na caixa do super-mercado ou num qualquer outro cenário da vida quotidiana de segunda a sexta. Um sorriso espontâneo, uma dança solta, um momento puro de libertação plena e verdadeira.

O sonho deles… e o delas

Casado com Andreia, há cerca de três anos, Paulo Correia é técnico de informática e, naquele dia, ao ensaio geral para o espectáculo.
“Conhecemo-nos através de uma amiga, que frequentava as aulas da Andreia. Antes de ter esta barriga (aponta para baixo enquanto a esfrega e lança uma gargalhada) fazia escalada, e a Andreia também. Foi assim que nos conhecemos. A escalar”. Não o varão, mas… uma parede rochosa. “Sim, de facto, e olha que a escalada é bem mais fácil!”.
O fruto do amor comum, assenta-lhe pequeno, bem no colo. Tem pouco mais de um ano, chama-se Diniz, e vai a quase todas as aulas, com a mãe que vê lá ao longe, quase no horizonte do fim da sala, a dançar, com a atenção curiosa de todas as crianças enquanto observa de olhar embevecido, a sua mãe, depois de mais uma dança. Aplaude, sempre que uma música acaba. A mãe agradece, enquanto abre os braços, e o recebe em si. Perante o momento, ele, o pai, sorri. “Não somos de facto uma família convencional… Para além de termos duas profissões quase opostas, também o são nos horários. Eu trabalho de dia, e a Andreia de noite, porque a maioria das aulas são pós-laborais, como se compreende por causa das alunas. Se isto de ter uma mulher que é pole dancer profissional é o sonho da esmagadora maioria dos homens?! (sorri de timidez e procura, subtilmente escapar à pergunta). Não, nada disso! No fundo, somos marido e mulher, e gostamos um do outro. No Casino, vou vê-la dançar pela primeira vez, num palco, e sei é que vou sentir um grande orgulho por saber que a mulher de quem gosto é feliz a fazer o que gosta. E só me sinto é ofendido quando alguns colegas, ou outras pessoas me perguntam se elas aqui andam a despir-se, ou a tirar a roupa… Mas sei que também o perguntam mais por desconhecimento, ou falta de cultura, do que por maldade. E é isso que tem de se mudar, esse preconceito em relação a esta dança, a este desporto”.

Casino real
A sala do Casino da Figueira da Foz, está lotada, completamente, de bilheteira esgotada com dias de antecedência. Durante o dia do espectáculo, que só aconteceria ao início da noite, as quatro professoras da academia, foram dando workshops às mulheres que se inscreveram. E foram centenas, a querer experimentar os ensinamentos do varão, em sessões gratuitas de uma hora. “Está concorrido, não sei é como é que vou fazer o espectáculo à noite, depois disto tudo! Mas, quem corre por gosto não cansa, e dá-me um grande orgulho poder estar aqui nesta zona a mostrar a estas mulheres que isto é uma coisa bonita que as pode tornar a elas próprias também mais bonitas, mais completas e mais felizes, o que no fundo, é para o que isto que para nós é uma paixão, serve”, explica Marina, ainda ofegante, depois de mais uma aula.
Na assistência, e já depois de abertas as portas, o ambiente é familiar, literalmente. Há muitas famílias, homens, mulheres e crianças. Muitos vieram de longe para ver as filhas, as mães, as irmãs, as namoradas, as mulheres, as amigas. Outros, vieram de mais perto, pela curiosidade do momento, e pela oportunidade da ocasião de verem algo, que nunca tinham visto.
Durante a tarde, no palco, e ainda com as cadeiras vazias, mas já com o ambiente preenchido de stress, e fumaças de cigarro, os testes de iluminação e as marcações das posições ocupavam o lento passar das horas, já depois da delicada operação de montagem dos varões, com mais de cinco metros de altura, tarefa concluída logo pela manhã.
A dimensão da sala, e da tarefa que as aguarda, acanha-as e denuncia-as no primeiro olhar que lhes escapa, logo à saída dos bastidores, e em que tudo parece demasiado grande e desconhecido. Afinal, transformam-se hoje em artistas por um dia em que experimentarão a fama do momento, simplesmente pelo facto de se entregarem por inteiro a algo de que gostam. “E há coisa mais bonita que essa?!”. Cátia Santos, psicóloga, que pratica pole dance há dois anos, desenhará com o corpo, um tango entre si e o varão. “Será ele o meu par desta noite (sorri). Nervosa?! Claro que sim, e ainda bem, é bom sinal. Viemos aqui porque todas porque gostamos disto. Não somos profissionais, nem nada que se pareça, mas apenas um grupo de mulheres que descobriu esta paixão num determinado ponto da vida, em que umas precisavam de exercício, outras de auto-estima, ou de se sentirem mais mulheres, mais apetecíveis se calhar, e outras só queriam era relaxar ao fim de um dia cheio de trabalho… É simples afinal, o que nos traz aqui, e o que nos faz querer mostrar isto, já que a oportunidade surgiu, a todas aquelas pessoas que se diz que vão estar por cá esta à noite”.
E estão mesmo. Maquilhadas, vestidas, tensas, amigas do momento, que as unirá ainda mais, num grito de voz aguda, que lançam antes de pisarem o palco e encarnarem o seu papel principal.
Perto das onze da noite, a música começa finalmente a subir de tom, na exacta medida em que as palavras se tornam imperceptíveis, enquanto a luz se deita, e os olhares da assistência se levantam. Depois, um corpo, e outros, erguendo-se no etéreo, os músculos modificam-se, as carnes a tornam-se quentes, roçando o varão, hirto, e pálido perante tamanha entrega. “Também pode ser sexual, claro, como tudo na vida o pode ser. Mas o objectivo aqui, é, para além da dança, obviamente estimular a sensualidade dentro de cada uma de nós, que existe por vezes adormecida em tanta gente, demasiada, e que faz falta que saia cá para fora”.
Andreia é a primeira a surgir no palco, acompanhada de Marina. Dá o mote, transforma-se, transporta a sala consigo, e consegue-o, como gosta.
Quase duas horas de espectáculo depois, aplausos e admiração, pela beleza de cada uma, pela coreografia encenada na música posta em movimento que vem de dentro. Regressam para um último reconhecimento do público. Talvez tenha sido a última vez que muitas delas sobem a um palco, para fazerem algo que as faz sentirem-se bonitas, e admiradas. Talvez não. “Mas não será a última, isso é que não, que subiremos a um varão!”.
Não se chegam a ouvir assobios nem piropos, e os comentários mantêm-se em lume brando e em tom reservado. “Talvez as coisas estejam a mudar”.
A festa, faz-se agora nos camarins. “Correu bem. Ganhámos um dia de vida, foi bonito. É a nossa noite, meninas!”.
E foi.

dezembro 13, 2010

Notícias Sábado: Fernando Nobre



“Ficar de braços cruzados, não é uma atitude que seja própria do meu carácter!” 




O homem que “um dia” sonhou com um mundo melhor, criou a Assistência Médica Internacional para continuar a sonhar, e foi para os confins da Terra para o poder concretizar, quer agora também, mudar Portugal.
Haverão pessoas a quem o nome, define a personalidade, por uma ou outra razão do destino, por sorte, vá-se lá saber porquê. Fernando, Nobre, de apelido, será uma delas, assim o conta o seu trajecto de vida, o seu papel no mundo, dessa forma o recordam as suas acções de vida.
Médico do mundo, escritor, sonhador, realista… Conhecedor, como poucos, das maleitas do planeta, procurou curá-las, repará-las, minorá-las, ao longo dos anos, numa luta “devastadoramente desigual”, com sacrifício, entrega, paixão. “Desiludido? Não, porque não há tempo para isso, enquanto morrem pessoas de fome neste momento”.
Aos 58 anos, Fernando Nobre, abraça, inesperadamente, uma outra causa. As motivações não lhe advêm de um grande terramoto, da explosiva erupção de um vulcão, de uma devastadora guerra civil. Não há mortos nem feridos, nem crianças subnutridas de barriga dilatada pela fome, antes, “um povo triste e resignado com os políticos que teve ao longo dos últimos anos”, e ao qual se propõe, sempre com a palavra “humildade”, em sentido expresso e sentido, “a ajudar a devolver-lhe a esperança, em si próprios, no seu destino, e no país”.

Texto
Pedro Cativelos Coimbra do Amaral
Fotografia
Patrícia de Melo Moreira

É um homem conhecido de todos, pelo seu papel de médico, de fundador da AMI, de alguém que dedicou a sua vida a causas verdadeiramente maiores. Não o esperava entrevistar enquanto alguém que se intromete na luta política, nem tão bem como candidato à Presidência da República…
Foi uma opção pessoal, de consciência! Embora possa parecer fora do tempo, o que lhe vou dizer, também o faço por patriotismo…

Porque utilizou a expressão “fora do tempo”?
Porque hoje em dia, no nosso país, quem utiliza a palavra Pátria, quem canta o hino nacional, quem se emociona quando o ouve, quase que parece um reaccionário, e para mim não é assim, porque eu fui educado nesses valores intemporais.

Regressando às razões da sua candidatura…
Em termos de política nacional, eu não pertenço a nenhum partido político, e o cargo de Presidente da República deve ter a ver com isso, deve ser algo aberto aos cidadãos apartidários. O último ano e meio, levou-me a reflectir muito sobre o estado do país, e em relação ao papel que eu poderia ter nas mudanças que acredito serem necessárias. Eu escrevi que o Presidente, no respeito integral da constituição, tem capacidade de incentivar, intervir e alentar um povo que quanto a mim está deprimido e desmotivado. E eu, se fui alguma coisa ao longo da minha vida, fui isso mesmo! Tenho uma visão abrangente do mundo, conheço bem a situação social do país, tenho, com toda a humildade, uma mundi-vivência, uma multi-culturalidade, uma multi-racialidade, uma lusitanidade, que podem ser úteis nestes combates. Entendo ser este o meu dever para com o meu país!

Falou-me em depressão dos portugueses, maleita que por vezes se associa a uma tendência, digamos que congénita do próprio povo…Pressente-se hoje, uma desilusão, um pessimismo generalizado, porventura também associado ao papel dos políticos, entende-o assim, também?
Quando leio os textos do Guerra Junqueiro, do Ramalho Ortigão…

…Parece que nada mudou, os estereótipos adequam-se na perfeição àquele, e ao nosso tempo?
Sim, de facto! Estamos de novo na geração dos desiludidos, dos vencidos da vida que se ficam nos cabos das tormentas, sem esperança. Custa-me tomar por perdida esta geração, e não é assim, não o deve ser, nem está! A situação económica, a situação social, até uma certa perda de valores, faz com que observe o cargo do Presidente da Republica, como algo que é fundamental nos tempos que vivemos, e o que se tem de pedir a alguém que ocupe esse cargo, é um esforço colossal para que todas estas pontas, voltem a estar unidas.

Não tem receio de perder um pouco daquela aura que o seu nome e a sua obra suscita dentro de todos os que o conhecem?
Esse é o grande risco que decidi assumir sabe?! Mas acho que o país a isso me impele, e eu acredito nisso! Tenho um projecto para Portugal, até um projecto moral, mas de facto seria mais fácil para mim manter-me no trajecto que vinha percorrendo. Irei prossegui-lo se não chegar à Presidência, com a mesma garra, paixão e amor. Agora é evidente, que me pus à chuva, e vou-me molhar, mas estou preparado para tudo. Espero é que esta luta que se avizinha, seja acima de tudo um debate de ideias e projectos para o futuro do nosso país, e não se limite a ataques pessoais.



Em relação a esses ataques… Chegaram a por em causa a sua nacionalidade, uma vez que nasceu em Luanda, houve depois algumas interpretações de declarações suas, tomadas enquanto “indirectas” para Manuel Alegre…
Mas eu não sou dessas coisas, até me senti mal com isso e lamento que se façam essas considerações a meu respeito… Numa das entrevistas, deu-se a entender que me tinha referido a Manuel Alegre com interpretações sobre o que tinha querido dizer… Mas não é nada disso! Ele tem todo o meu respeito, e como lhe dizia, não entro por aí! E é precisamente contra isso que quero lutar, porque política, não é isso, são ideias, são debates, é estarmos juntos, nas nossas diferenças, para chegar e levar o país para um lugar melhor. Quanto a ser português… Isso é uma ofensa, um insulto que me fazem, e que me toca, profundamente… E espero que não se volte a falar nisso!

Qual é o seu sonho para Portugal?
Quero ver de novo um país, em que somos líderes, não como já fomos noutros tempos, mas em certos nichos, como o das energias renováveis, por exemplo. E depois, fazer reerguer um povo que tem qualidades ímpares, afirmativo, combativo, criativo, empreendedor e crente nas suas potencialidades e capacidades. Choca-me, quando se fala em união com Espanha, quando se intenta um país Ibérico, como se a nossa História, os nossos antepassados não tivessem existido... Depois, uma Justiça célere, igual para todos. E escutar as pessoas, sempre, porque o povo não é nenhuma carneirada que só vai às urnas de quatro em quatro anos, e Portugal só tem a ganhar em ouvir as suas gentes mais vezes. É isso que farei quando for Presidente, irei percorrer o país de lés a lés, ouvir as pessoas, novos e velhos, do interior e do litoral, ricos e pobres!

Há muitos políticos que o fazem, apenas em campanha…
Eu sei, e esse é o problema, porque levou as pessoas a acharem-se instrumentalizadas por eles. Fá-lo-ei, porque acredito ser essa, a melhor forma de as servir, ao longo do mandato. Sabe, eu ainda há uns dias falava num congresso para economistas, e dizia que deveríamos falar frontalmente às pessoas, dizer-lhes a nossa verdade, concretamente, para não deixar dúvidas, em português entendível para todos! Isso é outro dos grandes problemas dos actores da nossa política.

A questão política, e num sistema balizado por esquerda e direita, e por partidos inseridos no centro desse paradigma é algo de que parece querer desenquadrar-se… Porquê?
Esse dilema ideológico, quanto a mim, está a ser ultrapassado pela realidade, e isso constata-se, um pouco por todo o mundo. No contexto global, surge um novo paradigma das relações humanas, das ideologias, que fogem um pouco da esquerda, da direita e se orientam em relação a outro tipo de valores humanos, as noções de dever que todos devemos ter, dos direitos que devemos cumprir, a honra, o bem-estar do próximo… Eu tenho amigos em todos os quadrantes políticos, consigo ver qualidades, boas ideias, em todas as ideologias. Não me tentem empurrar para o campo dos partidos porque eu não vou! Só vou para onde quero ir, e não serei prisioneiro de nenhum partido, porque o que me motiva para isto, é o país, são as pessoas, é a causa, e não as lutas partidárias.

Preconiza então uma nova, pelo menos em Portugal, versão da política, sem esquerda nem direita, recuando um pouco à génese do que deveria ser o combate político, o bem comum?
Costuma dizer-se que a medicina é a profissão mais recompensadora do mundo, porque cura as pessoas… Mas eu, sempre retorqui dizendo que a gestão da rés publica, a gestão dos destinos de um povo, de uma nação, essa sim, é a actividade com mais responsabilidade, com mais importância, a mais nobre de todas as acções desempenhadas pelo Homem. É também por isso que quero fazê-lo, porque acho que se foram deixando esquecer estas coisas, estes valores humanísticos profundos, essenciais. Levarei comigo para a Presidência da República esse espírito, e pode ter a certeza de que não irei amarrado a partidos, não me enfeudo a nenhum deles. Sou antes de mais, isso sim, um democrata com profundas preocupações sociais. Se isso faz de mim um social-democrata ou um socialista, pessoalmente não me interessa!

O seu programa político, é muito mais sobre causas, do que sobre questões concretas…
Mas tudo o que lhe disse até agora, são factos, ideias concretas! Nunca fui bailarina, não irei mudar, nem agora que sou candidato, nem depois de ganhar as eleições, porque sou claro, e falo e falarei sempre olhos nos olhos com as pessoas, num português entendível para todos porque linguagens herméticas é que não sei ter, apesar de ter estudos para isso, porque, apesar de tudo, sou um operacional. Quem diz que nunca me ouviu uma ideia política, é porque não sabe o que faço, não leu o que escrevi ao longo dos anos… Se o fizessem, saberiam no que acredito, o que preconizo, que no fundo, é o que tenho dito. É nesta visão que as pessoas votarão, e se a querem seguir, votem em mim, se não querem, não votem

Considera-se um idealista, Dr. Fernando Nobre?
Como lhe dizia, sempre me senti melhor no terreno… As razões disso, existem, claro que sim. Neste caso, da minha candidatura à Presidência da República, acaba por haver uma certa coerência, com aquilo que sempre fiz na minha vida. Quando cheguei a Portugal há quase trinta anos, já era administrador dos Médicos Sem Fronteiras, na Bélgica onde vivia há vinte. Deixei tudo para trás, e vim para cá, sem grandes condições, para abrir a AMI, que não passava de um mero sonho na altura. E agora, creio que me está a acontecer o mesmo, em nome de um projecto, porque para mim, era muito mais confortável, ficar em casa, a dizer mal do país, do Governo, do Presidente… E eu não sou assim, como pessoa. Se puder fazer alguma coisa para melhorar a situação, qualquer que ela seja, fá-lo-ei, sempre! Falei com muita gente que me alertou para isto, muitas até me aconselharam a não avançar, a minha própria mulher até… Mas ficar de braços cruzados, não é uma atitude que seja própria do meu carácter!

E tudo isto, é para ir até ao fim, ou pondera a hipótese de desistência?
Evidente que é irreversível esta decisão. Só quem não me conhece é que pensa que eu ando nisto a tactear. Não o faço em nada, não o faria aqui! Não preciso do protagonismo, e ao fim e ao cabo, com toda a humildade, já era uma figura respeitada da vida pública. Tenho coragem, tenho determinação, já me caíram balas de morteiro ao lado, já escapei de tiroteios, já vi morrer muita gente… Não tenho grandes medos na vida, e quando me meto em alguma coisa, vou sempre até ao fim!

E em caso de vitória, a AMI, como ficaria?
A moeda tem sempre duas faces. Tenho quatro filhos biológicos, e a AMI, é o meu quinto, que corresponde a um ideal. Da mesma maneira que acompanharei a sociedade em geral, estarei sempre atento a esse meu outro filho… Ainda nestes últimos dias me reuni com todos os meus colaboradores, e todos estão terminantemente (e vinca bem a palavra) proibidos disso, de se imiscuírem, eles, ou a instituição, neste meu combate, nesta minha luta, que é estritamente pessoal! A AMI não vai participar neste meu combate, está proibida por mim de o fazer.

Diz sempre, “quando for Presidente”… Sabendo que é um homem de convicções inabaláveis, são essa vontade, esse espírito, razões que o levam a ser tão peremptório nessa afirmação?
Não tenha dúvidas! Sei que não existem vitórias pré-anunciadas, mas tenho essa convicção, para além de tudo o resto, também pelas pessoas que me apoiam, pessoas de todas as áreas políticas, económicas, sociais, e que também elas estão insatisfeitas com o rumo do país. Deixo-lhe esta certeza, a de que não me vão conseguir demover, nem arregimentar… E eu não vou cair, mesmo que me façam todo o tipo de ataques!

O que o leva, na essência, a travar os combates que travou, a sacrificar-se, como o fez, até em questões familiares, ao longo dos anos?!
Daqui a dois mil anos já cá não estarei, mas hoje, estou cá, e tenho de fazer alguma coisa por isto, na medida do que posso, sei, de tudo o que já vivi! Estou aqui para dar o peito às balas, e quero morrer de olhos bem abertos, virados para um mundo que espero que seja melhor, do que quando cá entrei.


Destaques

Cavaco Silva.
 “Tenho dele uma imagem de seriedade e dignidade, mas nesta altura precisamos de um presidente disposto a um esforço colossal”

Manuel Alegre.
“Tenho respeito por ele. Mas até agora, sou o único candidato assumido, ao que sei!”

Durão Barroso
“Achava-o capaz, e competente para o país, mas mudei de opinião depois de ter abandonado o cargo, senti-me traído enquanto cidadão! Nunca aceitei, não aceito nem nunca vou aceitar que a pessoa que objectivamente apoiei para ser Primeiro-Ministro do meu País o tenha abandonado como o fez”

Face Oculta.
“Sou um cidadão que tem lido o que sai nos jornais, o que nem sempre é a verdade e podem ser apenas meias verdades. Acho é que o senhor primeiro-ministro, que é uma pessoa muito frontal - tem de dizer ao País tudo aquilo que pensa. Se fosse Presidente, chamaria o procurador-geral e o presidente do Supremo Tribunal de Justiça e ter-lhes-ia falado bem olhos nos olhos”



Perfil

O homem que vê esperança, onde os outros só observam desespero
Aos 58 anos, Fernando Nobre é o rosto da Assistência Médica Internacional, organização que fundou há 25 anos e à qual actualmente preside.

Nasceu em Luanda, em 1951, e aí viveu durante os primeiros 12 anos de vida, descendente de uma família com diferentes origens “portuguesa, do lado do meu pai, holandesa, brasileira e francesa, do lado da minha mãe”, explica,
A mudança do pai, um industrial de profissão, para a actual República Democrática do Congo (antigo Zaire), obrigou a família a transferir-se para Kinshasa. “Devido à instabilidade do país, aos 15 anos o meu pai enviou-me para Bruxelas para lá continuar os meus estudos e tornar-me médico de profissão, o que seria complicado de fazer, em África, onde estávamos”. No entanto, o apelo “da terra vermelha” que ainda hoje traz sempre consigo, num pequeno frasco, era forte, “de sangue”, e continuava a passar as férias de Verão no Zaire.
Dos 15 aos 35 anos, cursou medicina, formou-se, doutorou-se. “Concluí a escalada, em termos de formação, até ao final”, com uma especialização em cirurgia-geral e, mais tarde, quando percebeu que o rumo a seguir o afastaria das universidades (haveria mais tarde de lá regressar, mas como professor), especializou-se em urologia.
Em 1977, “um dos momentos definidores” da sua vida, quando se torna membro dos Médicos Sem Fronteiras, tendo actuado em várias missões e participado na criação e administração da secção belga dos MSF.
Fernando Nobre era então o primeiro, (e único até à data), médico português a integrar este movimento médico internacional. “A raiz da AMI, encontra-se precisamente nessa fase da minha vida, num simples acaso”, releva. “Numa das missões em que estávamos, no Chade, em 1983, uma equipa de reportagem estrangeira, fotografou-me, identificando-me como médico português dos MSF. Em Portugal, aperceberam-se disso, e foi assim que a televisão portuguesa me encontrou. O José Barata Feyo, que na altura tinha um programa de reportagens na RTP, foi comigo numa das missões, e a dada altura pergunta-me se não pensava fazer aquele trabalho, mas em Portugal. Nunca tinha pensado nisso, de facto, e foi aquela pergunta que me fez começar a imaginar essa hipótese. O meu trabalho começou assim a ser conhecido cá, e essa reportagem feita na altura, a repercussão que veio a ter, motivou-me então para a criação de uma instituição semelhante, que seria a primeira, no nosso país”.
Assim que o espaço do seu destino começa a ser ocupado, numa escala crescente, por esse “sonho”, como lhe chama, abandona tudo, o seu passado recente, o seu trabalho nos MSF, toda uma vida “bem estabelecida”, e vem para Portugal.
No entanto, entre 1985, quando chega, até 87, momento em que embarca para a primeira missão, com destino à Guiné, três anos de muitas dificuldades, de “quase desistência”, de muita perseverança, num trajecto que não esperava tão difícil, tão preenchido de obstáculos, que lhe pareciam ameaçar os desígnios e toldar-lhe a clareza da sua visão. “Depois de feita a escritura da associação, começo a trabalhar nisso. Mas tinha chegado cá, sem nada… Passei tempos difíceis, esses primeiros largos meses ainda, foram bastante complicados de facto. Tive de abrir um consultório para poder subsistir, em Lagos, mas não tinha contactos, não tinha pacientes… A pouco e pouco, vou então conseguindo, vou-me organizando, sempre sem me afastar da ideia que me tinha trazido até cá, que era a fundação da AMI. Só tinha a minha experiência, a reportagem da RTP, e a minha vontade, nada mais. Mas as coisas foram acontecendo, fui-me dedicando, primeiro um dia da semana, depois dois dias… Passado uns anos, acabei por deixar o consultório, e ocupar-me só da AMI. O principio já estava, faltava agora… tudo o resto”.
E o “resto”, como lhe chama, chegaria em forma de ajuda, e de salvação. A sua, e a de tantos outros espalhados pelo mundo. Depois da Guiné, São Tomé, Moçambique, Angola… Primeiras missões às quais se seguiram as da Jordânia, Roménia, Ruanda, Timor Leste em 1999, destinos marcantes, entre tantos outros, de uma vida longa já, que não consegue contabilizar outras tantas vidas, a quem devolveu a esperança, e que tornou também ela, mais duradouras. “Já estive em quase 150 países… Vi o pior a que se pode chegar enquanto ser humano, o desrespeito pela vida, pelo sofrimento, mas também presenciei o melhor que podemos fazer nessa condição. Isso deixa-me mais rico como homem, mas também me torna mais pessimista enquanto pessoa, porque o estado do mundo, as alterações do clima, não deixam antever um futuro muito promissor, temo”.
A AMI está hoje presente em cerca de 35 países, com projectos sociais implementados em cerca de quinze deles. Gere depois, em Portugal, oito centros sociais (sete centros Porta Amiga e um abrigo para os sem abrigo) e suporta uma estrutura de cerca de 60 pessoas, plataforma humana suficientemente grande para administrar, mas não tão grande assim que seja capaz de curar, de uma vez, todos males do mundo. “Sei que isso nunca irá acontecer, mas não podemos desistir”.
Apesar dos perigos que encontra nos cenários mais catastróficos por onde distribui a esperança em forma de cuidados médicos, ele que já passou por várias vezes, e literalmente, “ao lado da morte”, persevera, e não deixa contudo o terreno, assumindo-se totalmente enquanto operacional. “Numa dessas missões, tive de me operar a mim próprio, a uma apendicite… Sem anestesia, nem nada… Foi complicado, mas morreria se não o fizesse! Sou, acima de tudo, um médico, e isso nunca deixarei de ser”.
Passa, com uma regularidade que se arrasta por décadas já, mais de metade do ano, fora de casa, longe de casa, dos amigos e da família, da mulher, e dos quatro filhos. “Sempre que acontece alguma catástrofe, sempre que existem situações em que a vida humana se encontra massivamente em risco, vamos para lá na medida das nossas possibilidades, como ainda há pouco tempo aconteceu no Chade, ou no Haiti. A análise e o sentir que tenho do mundo, todas essas experiências, são um privilégio que reconheço com enorme satisfação. Mas sei que perdi muito do que aconteceu com a minha família, o crescimento dos meus filhos… Falo sempre com eles, quando chego a um destino, mas sei que terei passado um pouco ao lado da vida familiar, e lamento isso. Mas sei que o percebem, que me entendem, e que de certa forma se orgulham de mim, como eu me orgulho de os ter na minha vida”.
Depois de tudo o que fez, do que falta ainda fazer, o médico do mundo, olha para dentro si, e o silêncio toma conta do seu discurso, durante segundos, enquanto deixa cair o olhar. Gosta do silêncio, aprecia-o aliás. Quanto mais envelheço, mais sei que tomei as decisões certas, e que escolhi bem o meu caminho”.

Focus: Clara de Sousa


                                                                                                                                “Sou uma mulher muito positiva”

Jornalista por “vocação”, ou por ocasião de um destino que não programa, e gosta de deixar acontecer, ao sabor de um e outro acaso que se sucedem… “Pouco premeditados”, como gosta de dizer, de viver, solta, ao sabor do momento, “mas sempre bem preparada para ele”. Depois, as paixões várias, pela profissão, pela família, pelas motorizadas, pela cozinha até, no desvelar de um outro lado surpreendente, traços pouco conhecidos de um retrato fiel da mulher que dista para lá da voz personalizada, do olhar seguro, da espontaneidade contida. Das fortalezas múltiplas às fraquezas “humanas” que admite sem complexos, relega-as no entanto, em espera, à porta do estúdio, sempre que a luz vermelha se acende, e a informação começa, na janela que passa o mundo em notícia.


Texto
Pedro Cativelos
Fotografia
Patrícia de Melo Moreira





Como se caracteriza enquanto mulher, para lá da profissional, que é conhecida de todos?
Tenho uma característica forte, nunca olho muito para a frente, não sou de traçar grandes objectivos, deixo as coisas irem acontecendo com o tempo. Costumo dizer que nunca me coloquei perante o destino! A minha preocupação é o presente, para fazer bem o que tenho de fazer hoje. Quanto ao amanhã, será melhor, se o dia de hoje, correr bem, depois, logo se vê…

Estando diariamente, e há vários anos a apresentar o Jornal da Noite, da SIC, não tem saudades de sair do estúdio?
Fiz muita reportagem em rádio, depois na televisão… A rua não me faz muita falta! Gosto muito de fazer entrevistas, grandes debates políticos, não tenho muita necessidade de ar fresco, essa fase de aprendizagem, de ganhar calo, já a passei. Mas também digo que em jornalismo não há nada que não goste de fazer!

Tem alguém que gostasse de entrevistar…uma espécie de entrevistado utópico, digamos assim?
Todos temos… Lembro-me que tinha um sim, há uns anos, que era o Xanana Gusmão!

Normalmente as expectativas criadas não correspondem à concretização real, não concorda?
Isso é uma rasteira… (sorri) Mas sobre a dimensão humana não fiquei nada desiludida, pelo contrário!



Aparenta sempre uma segurança, quase suprema…
A segurança profissional é baseada numa única coisa, na devida preparação. Mas sim, é uma característica muito minha! Nervosa quase nunca estou, posso é ficar irritada principalmente com figuras da política, quando se entram em subterfúgios e se tenta escapar à frontalidade! Mas há formas de contrariar isso, embora nem sempre se consiga. Mas é normal, a política é um jogo, e devemos saber jogá-lo, de acordo com as regras da nossa profissão, e sabendo que por vezes, o interesse de quem temos à frente, é muito diferente do nosso, e do espectador.

Como é que é a sua rotina habitual?
A de uma pessoa normal que trabalha, vai para casa… Isto claro, quando não acontece nenhum facto de relevo, que nos altera a rotina toda! Mas seria terrível se isto fosse uma profissão das nove às cinco!

E como vê a profissão, hoje em dia?
Acho que é isso, uma profissão, e não uma actividade, como lhe chamam muito ultimamente, problema que começa nas universidades, na falta de formação que existe! Mas no meio, em si, penso que deve haver lugar para tudo, sem complexos, para um acidente, para uma criança que foi tirada à mãe, para o Cristiano Ronaldo, para o que for notícia! As pessoas devem ter o livre arbítrio de verem o que querem, serem consumidores de informação, sim, porque não?! Um consumidor é alguém que tem liberdade de opção, e isso não é mau, muito pelo contrário!

Mas o que me parece que se passa hoje, creio que tem a ver com a diversidade da opção… Não estará toda a informação a divergir para uma mesma tendência?
Concordo, mas ao nível da programação, não ao nível da informação, aí acho que há diversidade para todos os gostos e tendências. Agora é claro que está tudo em evolução, as linguagens alteram-se… Se pensar que há quinze anos nem sequer se utilizavam telemóveis quase… Por aqui vê-se a rapidez com que as coisas funcionam hoje em dia, a informação, a forma como é feita, a sua essência mudou profundamente, e isso mudou-nos a também a nós, primeiro como pessoas, depois enquanto jornalistas. Dificilmente voltaremos a ver noticiários como há vinte anos, nem no ritmo, nem na apresentação, ou no cenário

Voltando um pouco atrás na sua vida… Podia ter sido professora de inglês, mas preferiu o jornalismo. Porquê?
Acho que nem se colocou um dilema sabe?! Naturalmente a minha experiência diária na rádio fazia muito mais sentido do que o curso superior que estava a tirar. O único dilema que de facto tive na altura foi decidir se desistia do curso ou não! E com vinte anos é muito fácil tomarmos más opções, mas felizmente optei pelo que considero ser o mais certo.

Ainda se lembra do seu primeiro noticiário?
Lembro-me como se fosse hoje… Estávamos todos muito ansiosos, a redacção, na Avenida de Berna, estava cheia de colegas de outras televisões, rádios e jornais. Lembro-me que a repórter da SIC me levou um ramo de flores a desejar boa sorte. Os meus directores preferiram não arriscar nessa noite de 20 de Fevereiro de 1993, sobretudo porque receavam que ocorresse algum problema técnico, e decidiram gravar o noticiário meia hora antes.

Como encara o facto de ser a única jornalista portuguesa que foi pivô dos três principais canais portugueses?!
Encaro esse percurso com naturalidade, como lhe dizia. Não é nenhuma bandeira que abane de vez em quando para me vangloriar ou que faça com que me sinta mais do que os outros. Foram fases da minha vida profissional que surgiram como reconhecimento pelo meu trabalho, e sempre sem grandes planeamentos de carreira, de futuro.
Sem dúvida que o facto de ter trabalhado nos principais noticiários dos três canais me deu acesso a diferentes métodos de trabalho, diferentes abordagens de alinhamento e diferentes opções editoriais. Enriqueceu-me muito, pessoal e profissionalmente!

Como vê o aparecimento dos outros canais de notícias, no seguimento da criação da SIC Notícias?
Acho sinceramente que a SIC Noticias é a melhor, até por uma questão de maturidade do próprio canal, enquanto a TVI24 é ainda uma mescla, que leva oito anos de atraso em relação a nós, que já funcionamos enquanto uma máquina em movimento. Já a RTPN acho que está a evoluir bastante!



Sente algum tipo de nostalgia, quando recorda os seus primeiros tempos de SIC Notícias?
Tenho, claro que sim, porque era um novo canal, novos métodos, uma ideia inovadora em Portugal, construída com base em gente nova, ambiciosa, que queria trabalhar com qualidade. Mas foi uma fase de um ritmo frenético, cheguei a ficar disléxica, imagine… Eram três horas de emissão diária, estava de rastos!

Onde é que estaria, daqui a dez anos?
Não tenho esse hábito, como lhe dizia, de antecipar o futuro! Mas… abrir um restaurante, parece-me bem! (dá uma gargalhada)

Num qualquer paraíso tropical, à beira mar plantado calculo…
Não, eu não gosto de praia, é aborrecida! Fico uma hora na praia e tenho de me ir embora, sabe?! A praia para mim, mesmo com amigos e com um bom livro, não dá, a água é gelada, há muita gente, muita areia, muito sol, pouca sombra… (sorri)
Sou mais de campo, de um grande pinhal, apesar de não conseguir estar muito tempo longe da civilização…

Precisa de ter sempre acesso à “civilização”, como lhe chama?
Tenho sempre o telefone ligado, mas não é por questões profissionais, mas sim porque gosto de estar, mesmo ausente, ao alcance de quem precisar de mim!

Foi bastante criticada quando participou num reality show, por, ao ser jornalista, participar num programa com esse formato. Acabou por se tornar também mais exposta à imprensa cor-de-rosa… Lidou bem com isso?
Não me expôs, porque já o estava! Apresentava o Jornal da Noite já na altura, e essa exposição mais mediática até se tinha iniciado à época do meu divórcio, e mesmo isso também só aconteceu porque o Francisco (Penim) era o director desta casa. Se fosse um ´Zé Ninguém`, não se tinha falado em nada. Mas quanto à Família Superstar, voltaria a fazê-la, sem dúvida!

Mesmo apesar de tudo o que se disse na altura?
O Mário (Crespo) costuma dizer, e com razão que a nossa classe se deve preocupar mais em ser séria, do que em se levar a sério. Essa coisa dos senhores jornalistas que não partem um prato, que são muito sérios… Por favor! A questão aqui, é que a minha presença no programa, não muda, ou não deve mudar em nada, o respeito que eu mereço dos telespectadores! O meu único limite é o ridículo. Fora isso, acho que o preconceito não está previsto no código deontológico dos jornalistas. Não gosto da palavra figura pública, mas sou alguém que é reconhecida publicamente, e isso acaba por poder dar lógica a uma participação esporádica num formato como aqueles.

Mas pensou em tudo isso, na altura?
Claro que sim, mas não olho para mim de forma redutora… Acho que devo e posso fazer outras coisas, sem que isso me diminua profissionalmente! Cheguei a vencer uma noite de fados académica, punha discos na rádio… Disse-lhe estas coisas, porque fazem parte de mim, apesar de estarem distantes no tempo, mas contudo constituírem-se como partes do que sou. Estamos num país onde me parece que até se pode fazer tudo, desde que não se saiba, e eu conheço muito boa gente muito bem colocado profissionalmente, que tem esquemas, subterfúgios, esses sim bastante graves!

Então?
Eu vejo jornalistas com esquemas com marcas de carros, outros a irem a lançamentos de marcas, ou com relações muito estranhas com o poder político, e está tudo bem, ninguém diz nada! E depois vai condenar-se a minha participação naquele programa?! Mas contra o preconceito, eu posso bem. Se consegui ou não, espero que sim. Agora a Clara que faz todos os dias as notícias, continua a fazê-lo com um sentido de responsabilidade cada vez maior.

Como lida com esse facto de ser figura pública, de que falava há pouco?
Lido bem, é um fenómeno que vem de estar em casa das pessoas todos os dias. Olham para mim como se me conhecessem, mas nós apenas vemos a câmara à frente, o que é estranho... Mas acabamos por nos habituarmos a conhecermos muito menos gente, do que aquela que nos conhece a nós.

E as revistas sociais, incomodam-na?
Se me perguntar se fico incomodada com as mentiras que se escreveram em relação a mim e à minha família, e ao interesse desproporcionado em relação a mim, desde o meu divórcio, digo que sim, claro. Ninguém gosta que se inventem coisas sobre a sua vida. Por vezes tinha vontade de ter umas reacções mais… proporcionadas! (sorri) Penso que devia haver um outro sentido de responsabilidade, para que não entremos numa sociedade Big Brother que acha que se pode ir até à cama das pessoas!

Fale-me dessa sua paixão pela Vespa. Não a imaginava a andar por aí de motorizada…
Então porquê?! E em primeiro lugar, a Vespa não é uma motorizada, é ´A` motorizada, representa uma atitude de prazer! É uma paixão que tenho desde miúda, comecei com a do meu pai, e sempre fui tendo uma. Sabe que até há bem pouco tempo vinha trabalhar na minha Vespa, e não há fim-de-semana em que esteja bom tempo em que não vá dar umas voltas pela serra de Sintra, sentir a brisa na cara, e olhar a paisagem, é tão bom!





Tem outros hobby que não dispenses, para além da Vespa?
Sim, claro… A jardinagem, a bricolage e a cozinha, que talvez seja o maior de todos, o cúmulo da libertação das ´neuras` que todos temos… Acalma-me por vezes aquela vontade de querer estar sempre a par de tudo, de ir à Internet, ao mail ou ao telefone. São pequenos escapes essenciais para manter a força de querer continuar…

Não me diga que também é uma aficionada da Bimby…
(Solta uma gargalhada) Tenho uma, mas não ocupa o lugar central na minha cozinha, gosto de meter as mãos na massa! Sabe, aprendi a olhar a minha mãe, e a felicidade que ela criava através da comida, das relações que se estabelecem na cozinha, as conversas, os amigos, aquele olhar, os aromas, coisas tão verdadeiras…

Jornalista de topo, profissional de mão cheia, mulher de múltiplos ofícios… E como mãe, como se vê?

As minhas origens familiares são muito pobres, os meus avós passaram por grandes dificuldades a seguir ao 25 de Abril. Via a minha avó, a minha mãe durante esses períodos a nunca apresentarem qualquer sinal de queixume, em tempos que eram realmente muito difíceis! Foram exemplo para mim, do que querer, do que procurar, do que valorizar, e relegar para segundo plano. E com os meus filhos tento passar-lhes isso também, procuro que eles não tenham tudo o que querem, que dêem valor ao que têm, que dispensem o supérfluo e pensem naqueles que não o podem ter.

A sua voz distingue-a…
Engraçado isso… Foi amadurecendo sabe, por vezes reconhecem-me melhor pela voz, que pelo rosto! Noutras ocasiões, acham-me mais simpática que na televisão, o que mudou um pouco depois da Família Superstar, em que notei que as pessoas na rua se começaram a aproximar mais de mim… Isto apesar de nunca me ter achado fria a apresentar as notícias, simplesmente encaro-as com seriedade.

E como lida com essa aproximação?
Com alguma timidez, e com um obrigado!

Não a tinha como uma mulher tímida…
E não sou, mas sou humilde! (sorri)

E romântica?
Sou, claro que sim, sou uma mulher muito positiva. Para mim, só faz sentido estar numa relação se for para construir um projecto de vida, se houver alguma perspectiva de futuro. Sou casada com um homem alguns anos mais novo do que eu… Há quem se questione sobre isso, eu própria o fiz, mas o que sei, é que na vida, com o passar do tempo, dos anos, começamos a perceber certas coisas, as mais importantes de uma forma muito mais rápida, mais simples, do que quando somos mais novos, em que nos dispersamos mais. E olhe que não sou nada impulsiva!

E é de facto assim, tão segura de si mesma como aparenta ser?
Sou uma pessoa, tenho momentos bons, e maus, mas considero-me uma mulher forte,
que como toda a gente, tem alguns momentos de fraqueza!

Nunca lhe disseram que essa segurança, pode ser algo intimidatória?
(sorri) Acaba por ser uma boa forma de selecção das pessoas que me rodeiam!

agosto 03, 2010

Máscaras Improváveis - Pública : Nuno da Câmara Pereira

O Rei do Bairro 


Fadista, engenheiro agrónomo, líder de um partido monárquico, piloto de ultra-leves e mais algumas coisas que estarão por descobrir, até por ele próprio...

Texto
Pedro Cativelos
Fotografia
Patrícia de Melo Moreira
Produção
Rúben de Melo Moreira


Conceito. Transformar algo sério, em qualquer coisa de leve, suavizar, uma luta de adultos como a que se desencadeou entre o Partido Popular Monárquico e a Casa de Bragança, pelo verdadeiro direito à posse do trono português, em algo com que todas as crianças sonham. Reis, rainhas, e disputas pelo trono, contos de encantar, que no mundo dos “grandes” são causas reais, assuntos de Estado, coisas reais, que não se contam em histórias desenhadas, apenas em documentos e manuais de história com letras pesadas e palavras demasiado compridas que os mais pequenos ainda não aprenderam. “Esta é a obra de que mais me orgulho”.
Na Associação Socorro e Amparo, em Carnide, Lisboa, Nuno da Câmara Pereira cumpre há década e meia, um outro papel, desconhecido da maioria das pessoas, o de director de uma instituição de cariz social que acolhe cerca de cem crianças, das mais variadas proveniências. O cenário está assim montado, o movimento, o som, e as restantes dimensões são-lhe atribuídas pelos mais pequenos. Desenham-lhe uma coroa em papel, e outros rascunhos que ostentam com a nobreza das grandes obras. “Fui eu que fiz”. Os traços que não levam a mais do que a esboços livres de imaginação solta, multiplicam-se à velocidade que os lápis de cera se vão desgastando no papel. Os desenhos, colados a fita-cola, farão o manto real, que cobrirá o rei desta história.
“Olhe que em trinta anos de carreira, nunca fiz nada de tão maluco como isto! Sabe que o meu filho é que se costuma vestir com estas roupas, ténis brilhantes, calças largas… Quem diria que também eu iria por este caminho”.

Auto-retrato. Sentado na poltrona de veludo escarlate, trono real de ocasião, enquanto a maquilhagem lhe vai aprimorando os traços do rosto, releva ele próprio, as matrizes de quem é, visto por dentro. “Sou um arlequim de mil caras… Sou uma contradição, sou inconstante, próprio e impróprio, sou alguém recto, íntegro e honesto! E não quero ser anjo nenhum, que não sou, quero viver sim, o meu estado de alma”.
A câmara começa a disparar, captando fragmentos se um momento que se torna único e indivisível. A luz semicerra-se. O som das gargalhadas esvoaçantes pela sala mistura-se com o fascínio dos olhares que se levantam e entrecruzam, em busca dos milhares de fragmentos de maquilhagem dourada que sopra para a atmosfera, e que aterram sobre as cabeças curiosas e inquietas, cuja imaginação transforma de imediato no fascínio do outro puro. “É ouro, é ouro”, exclamam os miúdos enquanto o rodeiam, em busca do segredo do pó amarelo, arruinando o alinhamento da imagem, reconstruindo um outro, bastante mais cativante. Imagens para a posteridade, como rei de brincar que se prepara para contar uma história de encantar, que não tem medo de brincar também ele com os assuntos, por mais sérios que o sejam. “Desde pequeno que lido com este tema da monarquia, é algo que me diz muito. Creio que estávamos melhor servidos nesse sistema, seríamos um melhor país. Não encomendo discursos a ninguém, mas também levo a vida com leveza, sem me levar demasiado a sério, é esse o segredo para mim, por isso é que consigo fazer tantas coisas ao mesmo tempo”.
Máscaras improváveis. “Eu não uso máscara nenhuma, sou sempre eu próprio! O que sou, é versátil na forma de me trajar para os outros, mas só visto aquilo que me diz respeito… Não sou nenhum feijão de duas caras”.
Política, engenharia, pilotagem de ultra-leves, acção social, e fado, claro… Vestes diversas e improváveis então, com que se apresenta perante si, perante os outros. “Não é difícil, desde que haja dedicação, organização e sacrifício. Se tenho tempo para ainda ser rei? Nunca me afirmei como pretendente ao trono, apesar de saber que tinha direito a isso. Vejo-me mais como o condestável Nuno Álvares Pereira que deu o trono ao Mestre de Avis… Depois, bem, sigo com a minha vida com a noção de dever cumprido e descubro mais qualquer coisa que goste de fazer”.

Máscaras Improváveis - Pública : Helena Isabel

Linhas de Vida


Actriz de mil feições expressivas, mulher de muitas outras, em linhagens que lhe percorrem o carácter, e lhe deixam o rosto jovem e o sorriso limpo, quase adolescente ainda, como quando a vemos na televisão, ou na memória.

Texto
Pedro Cativelos
Fotografia
Patrícia de Melo Moreira
Produção
Rúben de Melo Moreira



Conceito. Desconstruir, para fazer reerguer os traços mais discretos de uma personalidade que permanece em silêncio, mesmo que defronte as grandes plateias, da televisão, ou do teatro, por onde se move, há largos anos.
Fios de cobre estáticos, adormecidos, sob um céu claro, carregado de cinzentos frios e húmidos, e um ambiente industrial, cru, quase desértico de vida humana, linhas de vida, que chocam de frente com o olhar, com a tonalidade das palavras. Contrastes e desafios. “Fazer algo de diferente assim, estranho, porque nunca o tinha feito, mas sinto-me bem. Sou uma mulher assim, não gosto de estar parada, sou enérgica, faço várias coisas ao mesmo tempo, e adoro coisas novas que me desafiem e me libertem partes de mim, que normalmente não saem cá para fora”.
Para além de actriz, desempenhou papéis vários, foi figurinista para várias peças de teatro, é compositora de adereços e acessórios há já largos anos, técnica que apura, para dissolver o stress e aconchegar o espírito no cair dos dias de gravações mais intensos. Transportar esse universo interior para uma composição que a envolva, em termos de estética, é um complemento do desafio lançado, aceite com um sorriso apoenas, simples.

Auto-retrato. “É complicado fazê-lo, traçá-lo assim tão de repente e em poucas palavras… É sempre difícil vermo-nos de fora, de forma imparcial, completamente verdadeira. Tenho um lado intuitivo muito marcado, muito activo, que fui ´domesticando` com o passar do tempo, à medida que a vida foi passando por mim. Assim, simultaneamente, fui adquirindo uma consciência selectiva, baseada na razão. Por outras palavras, guio-me pela intuição, mas sempre com os pés muito bem assentes no chão!”.
Instantes, maquilhados com pó de memórias, de momentos que sobrevivem para lá do segundo que se segue, e já passou, antes do próximo que se avizinha, e já partiu, para não mais regressar. Alguns disparos, outras imagens que perduram, num ambiente que se vai tornando mais intimista, mais pequeno. “Sou assim em tudo, não me deixo levar à primeira pelo meu instinto, apesar de ele, no final acabar quase sempre por prevalecer. É um exercício engraçado este, o de reflectirmos entretanto, para no final acabarmos por fazer aquilo que inicialmente pretendíamos... Sabe que no dia em que perder esta capacidade de me entusiasmar, de me apaixonar com a novidade, penso que vou ficar velhinha e acabar enquanto pessoa!”.
Os anos passam, medidos à distância de um ecrã, ou de uma plateia, pelas personagens que vai edificando, e pelas quais a vamos reconhecendo. Umas partem com ela, outras residem em nós durante mais algum tempo, apuradas na memória. “A vida que escolhi, é turbulenta, exige muito de nós, a vários níveis. Enquanto actriz, prefiro comédia, divirto-me, sou mais livre, mas enquanto espectadora, não sou muito deste género, gosto de coisas mais pesadas emocionalmente. Ainda hoje, e já que falamos disto, guardo a Cilinha, de `O Tal Canal` como a personagem que me deu mais gozo fazer, porque ali podia acontecer tudo, caírem cenários, choverem coisas do tecto, sei lá, era hilariante e deixou-me por isso, grandes recordações que vão perdurar para toda a minha carreira”.



Máscaras Improváveis. “São algo com que nós, actores, temos de saber colocar, e retirar, de uma maneira por vezes tão superficial, ou mais profunda noutros casos. Mas eu convivo bem com isso até, porque estou de bem com a vida, não guardo nada em mim que não tenha deitado lá para fora, ou arrumado muito bem cá dentro. A amargura, sabe, reflecte-se na cara das pessoas, e eu sei que devo viver o presente da forma mais intensa possível, para não ter tempo de me esquecer dessa capacidade que me impulsiona, de me apaixonar pelas coisas que a vida me traz, de surpresa, como é bom”.

Máscaras Improváveis - Pública : Joana Vasconcelos


A Valquíria



Compositora de imagens, manipuladora de espaços, criadora de formas sublimes em construções erigidas para os sentidos.


Texto
Pedro Cativelos
Fotografia
Patrícia de Melo Moreira
Produção
Ruben de Melo Moreira


Conceito. Reconstruir a obra, partindo da personagem que dela emana, ou em termos diferentes, procurar significados, pequenos brilhos, eternos instantes, nas tonalidades da voz, na composição das cores berrantes de que gosta, no tom final das formas artísticas que lhe saem da imaginação, em direcção a um mundo que a começa a reconhecer enquanto artista que deve ser seguida e admirada com a devida atenção. Fazer da mulher, dela própria, uma obra, a mais fidedigna e autêntica, a mais completa e abrangente por isso mesmo então. “Ou não, apesar da intenção ser boa! Tudo o que se vê aqui (no seu atelier) provém de um conceito, de uma ideia base, que não surge de uma epifania, num segundo de genialidade, nada disso. As peças que construo têm por base sim uma mensagem que quero transmitir, e que obedecem apenas ao momento em que as penso, e a nada mais, porque hoje não há limites nem restrições para a arte, não há barreiras, nada, pode fazer-se tudo, por qualquer razão, boa ou má, e o resto, tem a ver com o gosto de quem presencia e interage com os trabalhos”. A frase prolonga-se, à medida que as palavras se sucedem, batendo e rebatendo, com maior ou menor frontalidade em palavras que lhe surgem do discurso, como que sublinhadas na imaginação de quem ouve. Liberdade… Sem limites…Inexistência de barreiras… Mensagem.
Joana Vasconcelos distingue-se no meio artístico português, e cada vez mais no espaço central dos mercados da Arte verdadeiramente grande, onde começa a ser reconhecida, pelo modo aparentemente inocente, arrojado, lúcido e louco, como joga com a banalidade dos objectos utilizados no quotidiano, influenciada por perspectivas que conduzem as peças pelo design, atravessam a arquitectura, pelas proporções, pela funcionalidade, pela ocupação arbitrária do espaço, sinónimos que surgem, suaves no pensamento, quando se visitam as obras expostas no seu atelier, situado em Alcântara, com o Tejo velho, e os navios mercantes na janela. “Bem português, como gosto, como sou”.
Auto-retrato. A maquilhagem carregada, mais clara no centro, sobrecarregada na aureola do rosto, como que construindo uma moldura, onde o olhar atravessa o silêncio da falta de palavras, e fala por si só. E os vinis amarrotados que a decoram, vestes sobressaltadas por debaixo de uma armadura, pesada, da peruca de corte francesa, todo um conjunto inspirado livremente nas Valquírias, uma das suas obras mais marcantes, quadro completo ao qual dá vida e movimento, completando-lhe o instante. Luzes, câmara, actuação. “As Valquírias são peças influenciadas por histórias mitológicas, deusas que traziam vida aos guerreiros do seu tempo… É com base nos diversos ecos desses episódios que as construí, apesar de esteticamente fugirem a essa lógica, da interpretação ser livre, a minha e de quem a vir. É aliás disso que gosto, que vejam o que faço e que quase toda a gente tenha uma interpretação diferente! Talvez seja assim que me reflicta enquanto pessoa, pelo menos através das minhas obras, ficam a conhecer-se alguns instantes de mim, algumas ideias, opiniões. Não a mim totalmente, e isso agrada-me!”.
O espaço acentua-se, diminui, retrai-se com o passar do tempo, torna-se mais cómodo, acolhedor, como as peças que desenha nas ideias. “Vamos lá criar novas perspectivas!”.
Máscaras Improváveis. “Como pessoa, assim como artista, podemos ter várias faces, à medida que vamos experienciando, vivendo. Umas podem ser mais prováveis do que outras, mas o que é certo é que nos vão mudando, e é assim que evoluímos, o que se reflecte no dia-a-dia, na obra, em tudo…”.
Tempo para invadir o ´outro lado`, ultrapassar os limites, quebrar as barreiras, atingir a liberdade criativa. A toda a composição, a adição de dois polvos acabados de comprar, tingidos de dourado no momento, sem como nem porquê, simplesmente porque a ideia parece arrojada o suficiente para lhe assentar bem, no corpo, e nas ideias, completa definitivamente um cenário. “Cada vez que faço algo, começo naquele momento, como se nada houvesse para trás. Vale tudo a partir daí, tudo é possível, viável, porque é assim que o imagino, é dessa forma que me vejo. Não penso demasiado em consequências, nem no futuro, e o que sei, é que no dia em que deixar de ter alguma coisa para dizer, sigo em frente, e prossigo o meu caminho sem olhar para trás, e com a consciência de que se tudo acabasse agora, hoje, já teria valido a pena… Mas ainda quero mais, muito mais”.