agosto 22, 2008

Pública: Um dia com... Helena Ramos




Dias pintados de fresco

Palcos televisivos, teatrais, sensações impressas no diário de quem quer sempre mais, continuando a ser quem gosta, quem é.

Texto
Pedro Cativelos
Fotografia
Patrícia de Melo Moreira


Óculos escuros, penteado cuidado, palavras no lugar devido, como sempre habituou quem a viu nos ecrãs da RTP durante os últimos trinta anos, quem ainda a vê e reconhece, na primeira aparência. Helena Ramos é no entanto mais do que isso, atravessa as fronteiras da estética televisiva, da postura de estúdio com a facilidade de um gesto em forma de sorriso, como “mulher normal” que diz que é, várias vezes ao longo do dia, “mas cheia de vontade de viver, e de se deixar levar pela vida”.
Hora de passeio do pequeno Afonsinho D´Aveiro, o seu cão, cego de nascença. Manhã cedo ainda. “Abandonaram-no por causa disso mesmo, mas tenho-o comigo há dez anos”. Segue-a por toda a parte, ao som dos seus passos. Gosta de animais e de pessoas que gostam deles. “Mal vai um país que trata mal os velhos, as crianças e os animais... Se calhar, o nosso, não cuida bem de nenhum deles, é um sinal preocupante”.
No jardim da urbanização onde habita, em Telheiras, senta-se, pressente os primeiros raios de sol de um dia, que vai ser longo e preenchido, momentos antes, do habitual café da manhã, na Fatia Doce, mesmo ali, ao lado da porta de sua casa. “Bom dia, é o costume”.

Memórias presentes
Natural de Vale de Cambra, Aveiro, onde nasceu há 54 anos, Helena Ramos é um dos rostos mais conhecidos da televisão pública. Apresenta actualmente o “Cartaz de Memórias” na RTP Memória, mas passou ao longo da carreira por inúmeros formatos, horários, conteúdos e... gerações. Das primeiras emissões como locutora de continuidade, aos programas de entrevista mais recentes, Helena acabou por nunca estar ausente, sem no entanto ter alguma vez estado presente de mais. Sorri, sem baixar o olhar. “Não sou daquelas que se estão sempre a queixar, nada disso, tenho por norma ser agradecida por aquilo que tenho, e que me vai acontecendo sem estar a procurar demasiado. Acredito nisso, em deixar-me ir e logo se vê”.
Dos vários papéis que lhe couberam ao longo da vida e da carreira, ressalta a paixão especial pelos estudos que nunca deixou de perseguir. “Sim já fiz muita coisa... participei como professora em ateliers de televisão na Universidade Autónoma de Lisboa, antes já o tinha feito no Instituto Piaget... Mas tirei o mestrado em comunicação organizacional na Católica e um MBA em gestão de empresas”. Pausa... Sorri, percebendo a admiração causada, e sem perder tempo a explicar. “E porque não?! Não tenciono gerir nenhuma empresa, mas o conhecimento não ocupa lugar, como se costuma dizer não é?!”
Talvez seja este um dos retratos mais fiéis dos efeitos da distância que a separam hoje da menina que aos 23 anos entrou para a televisão do estado vinda da província, e que trinta anos depois já experimentou muito da vida. “Lembro-me de ter visto um anúncio e de ter concorrido. Realizei provas de improviso, entrevista, leitura de textos,,,. Concorriam mais de duas mil pessoas, mas só treze foram seleccionadas. Não tinha “cunha”, vinha de fora, não conhecia ninguém.... Eu fui prestar provas de chinelas, daquelas modernas e rasas que se usavam na altura e fiquei”, recorda. Depois, o lado pessoal, de quem não ”gosta” muito de estar parada. “Vim para Lisboa para a Universidade Clássica, tirar Germânicas... Foi um choque na altura, vinha do interior, mas sempre tinha tido o sonho, desde os seis anos, quando visitei a cidade pela primeira vez, de vir para Lisboa. Lembro-me que quando ia na Avenida da Liberdade com a minha mãe, lhe disse, com a minha voz de criança, ´Esta é a minha cidade`”. O seu olhar, afasta-se, por momentos. Regressa. “Resumindo, entrei na televisão, casei-me, divorciei-me, nunca consegui ter filhos, como desejava... A grande lição da minha vida? Se calhar que estou bem é sozinha, até porque aprendi que não sou muito fácil de aturar, nem tenho muita paciência para aturar os outros”, deixa que lança com humor, apesar de permanecer séria, na conversa. Pretendentes, foram muitos ao longo da carreira, presume-se, mas nem esta achega a torna próxima do embaraço. “Recebi muitas flores, muitas declarações de facto. A maioria educadas, nunca tive grandes problemas com isso, apesar de também não passar muito tempo a pensar o que viam em mim. Dizia-lhes para seguirem a sua vida”. Hoje em dia? “A gravidade é uma coisa terrível...”, sorri.





Apresentadora, actriz...

Hora de almoço. A conversa sobe de tom, como todas as palavras em redor de uma refeição em hora própria, mesmo que em Lisboa em pleno Agosto. Nas Portas Verdes, restaurante de Carnide onde costuma almoçar quando tem um pouco mais de tempo, o terraço florido de buganvílias e ilustrado com parras fartas em uva americana, “como a quinta dos pais em Sever do Vouga”, reclamam à sua intimidade, um pouco mais de si mesma. “Talvez por isso, goste de vir aqui”, explica. Conhece toda a gente pelos nomes. Tratam-na por doutora, como acontece normalmente a todas as figuras públicas quando frequentam lugares... públicos.
“Se pudesse largava tudo agora e ia para actriz, até porque acho que ainda ninguém reparou que posso ser espectacular”, diz, por entre um sorriso sério e uma intenção dirigida a quem quer que acredite. Mas... e a televisão, onde tem sido uma presença assídua, desde os anos setenta? “Abri a RTP Memória, foi interessante no início. Agora estou um pouco cansada, tenho pensado em outros rumos, e os palcos sempre me atraíram”. Os porquês, conta-os, mesmo que alguns os deixe permanecer reservados, a si própria. “Estou numa fase estranha da minha vida, cheia de mudanças... Normalmente surgem coisas boas e más nestas alturas...”. Um suspiro profundo. “Bem, mas serena, como sempre”.
Um copo de vinho, um cigarro “que estamos na esplanada”, e uma sobremesa que apetece, mas que não se torna mais essencial que os amargos de boa provisórios de uma dieta “começada há pouco tempo. A gravidade outra vez”, lança em tom de gracejo.


Quadros feitos
As pinturas, permanecem nos traços mais reservados da aparência pública de Helena Ramos. “Comecei há alguns anos, e ganhei-lhe o gosto”.
As paredes de sua casa são preenchidas por janelas emolduradas, umas pequenas, outras maiores, a óleo, pastel e carvão. “Tenho uma paixão por pintura, nunca o tinha feito na vida, não tinha qualquer noção para além da literária e de quem observa apenas... Decidi então ir aprender”, explica, enquanto segura a sua primeira obra, uma natureza morta embrulhada por um caixilho enorme, que lhe dá vontade de rir. “Está uma porcaria, mas arranjei a maior moldura que consegui para parecer uma grande obra de arte”, humoriza entre uma gargalhada e um olhar orgulhoso e disfarçado.
Costa da Caparica. Atelier de Francis Vaz, nome artístico de um pintor nascido em Portugal, de nacionalidade francesa. “Sim, a Helena tem jeito para pintar”, recorda, enquanto lhe vai dando instruções sobre como tornar o branco mais pardo, e os verdes mais resplandecentes. Dedica-se agora a um retrato da sua mãe, ainda criança, que um dia, “quando estiver concluído”, lhe irá oferecer. “Há alguns meses que ando com isto, ainda não acertei”. A bata, os dedos cheios de tinta nos contornos dos desenhos em tela, as plantas ao fundo, distorcidas na transparência dos frascos de óleo, os pincéis demolhados na paleta, pousada perto da janela, com o mar em plano presente de fundo... Detalhes de um ambiente propício ao “exercício solitário da pintura”, explica Francis. “É isso que me agrada aqui, a calma, o facto de ser relaxante, criativo ao mesmo tempo... De tudo vir de dentro, sem pressa, ou pressão”. Não retira o olhar do quadro que lhe preenche os sábados de manhã, nas aulas, e os serões, normalmente passados em sua casa, até porque não gosta de sair muito à noite. “Já tive as minhas noitadas loucas, agora já passou”. Um penúltimo sorriso. “Sabe, gosto de me ir deitar em paz com aquilo que faço, sem assuntos pendentes... Talvez por isso acorde sempre bem disposta e com uma vontade enorme de começar tudo uma outra vez”.

Pública: Um dia com... Marta Crawford

Ter ou não ter... tabus

Preliminares, consultas, palavras soltas e sorrisos, “num dia de cada vez”, o segredo terapêutico para uma relação, qualquer que ela seja, com os outros, e consigo própria.


Texto
Pedro Cativelos
Fotografia
Patrícia de Melo Moreira


“Olha a doutora da televisão”. Sorri. Está habituada a ser personagem conhecida de vários públicos, mesmo afastada dos horários nocturnos dos ecrãs, onde há alguns anos apareceu, com o êxito de audiências que foi, ABSexo. “Olá...”, responde com outro sorriso. Marta Crawford, lida bem com isso e com muitas outras coisas que fazem “confusão a gente de mais”.
Na esplanada do Deli Delux, na Bica do Sapato, o rio corre lânguido, tranquilo, e sereno, como o silêncio de um restaurante sempre que ainda não é hora de almoço. “Gosto de vir aqui, depois das consultas da manhã. Bebo um copo de vinho, penso... Não gosto muito de almoçar sozinha, gosto de conversar, aproveitar o momento. Mas também gosto de tascas”, lança, como quem não quer deixar escapar o gosto pelo requinte, saboreado das mais diversas formas. “Depende do momento, como tudo não é?!”.


Com e sem farda

Uma salada leve, como os assuntos que vão tomando a tona da conversa. Parece ser essa, aliás, uma das suas formas de lidar com todas as questões. “Simplificar, não minimizar”. Ao longe, um navio da marinha brasileira, aporta ao cais. Fardas, fetiches e simbologias literárias, mundanas e reais. Um sorriso primeiro, depois a abordagem clínica da questão. “As fardas são normalmente símbolos de autoridade, hierarquia, com um estatuto social associado... Nem todas as mulheres têm esse fascínio pelo `Oficial e Cavalheiro`, do qual aliás, gosto bastante”, deixa escapar, com humor.
Licenciada em Psicologia Clínica pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Marta Crawford especializou-se depois em Sexologia Clínica pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia onde chegou a dar aulas. Terapeuta Sexual acreditada pela Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica, não se vê, “de longe”, como a famosa Dra. Ruth Remédios, personagem humorística imortalizada por Herman José, muito antes sequer de chegar aos ecrãs da TVI onde apareceu e se descobriu, para além do que estava à espera. “Foi uma boa experiência essa. Lembro-me de no primeiro dia, após as gravações ter ido às compras e de me interpelarem. Não estava à espera dessa reacção, para ser sincera, nem tinha pensado bem nas consequências de começar a aparecer na televisão. Desde aí, sinto que as pessoas se identificam comigo, sabem que não as vou criticar ou julgar, não tenho o hábito de ser paternalista! Ganhei-lhe o gosto, e espero em breve regressar, com um formato um pouco diferente daquele, está para breve, espero”.
Até há três anos, pertenceu à equipa de aconselhamento e encaminhamento telefónico da linha SOS Dificuldades Sexuais, trabalhou no Instituto de Emprego e Formação Profissional e colaborou no acompanhamento psicológico de utentes do Serviço de Psicoterapia Comportamental do Hospital Júlio de Matos na consulta de sexologia, “uma experiência muito enriquecedora”.
Para lá das acções de formação e de actualização nas áreas de sexologia e de terapia familiar, apresenta ainda regularmente comunicações em congressos e seminários relacionados com sexologia. Escuta bastante mais do que fala. “Defeito profissional! Levanto-me normalmente pelas oito horas da manhã, levo o João (um dos dois filhos) ao colégio e depois vou ao ginásio”. Dá uma gargalhada, daquelas que prenunciam uma boa intenção, nem sempre cumprida. “Bem... Não sou muito dessas coisas...mas como sempre tive tendência a ser forte, tem de ser!”.


No consultório com...

Na Alameda, em frente ao jardim, e com o Instituto Superior Técnico ao cimo da rua, o seu consultório. “Chegámos. É aqui que costumo passar grande parte dos meus dias”.
No entra e sai próprio de uma clínica no centro de Lisboa, casos da vida, de muitas delas, dos frutos proibidos pela falta de amor, à desinspiração provocada pela sucessão de dias com suores frios de trabalho a mais e momentos de prazer... a menos. “O amor nem é o mais importante sabe, porque se pode amar e não se ter uma relação sexual satisfatória. E o contrário também. Chegam-me muitas pessoas que acham que nunca vão encontrar o amor... Digo-lhes que pode ter várias formas, o que é preciso e esse é um grande problema hoje em dia, é tempo para as cultivar! Para mim o que é o amor? Todos encontramos alguém que nos faz sentir bem... mas gosto de todas as boas sensações que possa encontrar, como quando se bebe um bom vinho, quando comemos um chocolate, ou damos um mergulho no mar...”.
Dos dramas que já ouviu contar, que ajudou a sarar, a maioria permanecem nos ficheiros clínicos arrumados ao computador. Outros, no entanto, ultrapassam o disco rígido e ficam marcados na sua personalidade, para lá dos limites da sala e da profissão. “Não me impressiono com tanta facilidade assim, mas é impossível não haverem situações que nos fiquem na memória e que depois não acabemos por levar para casa. Acontece-me isso por vezes, é humano e há casos em que apetece ir lá ter com o marido e dizer-lhe das boas!”
Senta-se no cadeirão confortável da sala onde se nota a ausência de um elemento cenográfico que sempre se aguarda, neste tipo de espaços, o famoso sofá dos pacientes. “Isso é nos psicanalistas”, lança numa gargalhada. Coloca os óculos de massa, e o ar profissional. “Hora de consulta, até já”.


Teoria e prática

Para quem domina os recantos da psique humana, as arestas da sexualidade, os medos comuns, a interpelação dos próprios receios, com objectividade clínica é por vezes, e como lhe chama, um “desafio”, nem sempre conquistado à partida. Na Marta, para lá da sexóloga, moram as dúvidas e as respostas, comuns a todos. “Como em tudo, há uma grande diferença entre a teoria e a prática. Costuma dizer-se que ´em casa de ferreiro, espeto de pau`, mas posso dizer que sou feliz, nos mais variados aspectos apesar de também ter os meus problemas”.
Foge habitualmente, e sem o pretender de forma intencional, ao perfil típico do terapeuta sexual como se poderia imaginar. Imagem cuidada, ainda jovem, sem recorrer em demasia a conceitos técnicos apropriados de literatura especializada “Se ser ou não ser bonita... ajuda?! Só tive uma vez um caso de uma pessoa se ter ido embora por eu ser mulher! Também pode complicar por vezes, mas a postura profissional serve para isso mesmo. Se ser feminista representa a defesa de um principio de igualdade e de não supremacia de ninguém, então assumo-o!”. Sorri.
Guarda habitualmente os finais de tarde para passear pela Avenida de Roma, sentar-se na esplanada da Mexicana a beber um café e a contemplar o dia que passou, e o amanhã que há de vir. A igreja por perto, no meio da praça, evoca os retratos de como vai o Sexo, na Cidade que lhe aparecem-lhe nas consultas, na rua, no email. Tenta responder-lhes “sempre” que pode. “Recebo muita correspondência das mais variadas formas, é verdade. Como acho que os portugueses vêm hoje o sexo? Ainda é um dogma e isso não é bom! Penso que se calhar o maior problema hoje em dia tem a ver com a falta de desejo sexual, a falta de vontade, porventura em resultado da falta de tempo, do stress diário... e hoje começa até a aparecer um novo fenómeno, porque existem cada vez mais homens com este problema”.
Para além da personagem clínica, da figura pública, Marta Crawford gosta de se reservar para si, e para quem pertence ao seu mundo de afectos. “Tenho um espaço privado muito meu, não gosto de ser observada... Criei até uma série de fobias desde que comecei a aparecer na televisão”, humoriza. Mais a sério... “Pessoalmente, procuro sempre alcançar e manter o estado de felicidade, a satisfação plena em todas as situações. Aos olhos dos outros, as nossas vidas são sempre perfeitas, mas há perdas, etapas difíceis que temos de cumprir. Consigo lidar com isso, mas tenho também um lado mais negativo que aceito como algo que me faz apreciar devidamente a felicidade quando ela aparece”.
Depois do lançamento do seu segundo livro, “Sexo com Prazer”, prepara agora um terceiro. A noite é o seu lugar preferido para as palavras escritas. “Sempre tive diários, desde pequena, escrevia até em código... Sempre preferi escrever com o silêncio do fim do dia, é até um pouco solitário esse exercício, mas que me sabe bem e me equilibra antes de ir dormir e de começar um novo dia”.

Pública: Um dia com... José Cid

Dias de palcos diferentes

Vive na vida como nas canções, algumas são fáceis de gostar e escutar, outras permanecem histórias desconhecidas. Mas são todas verdadeiras e à imagem dos seus dias, só se podiam passar com ele.


Texto
Pedro Cativelos
Fotografia
Patrícia de Melo Moreira



É natural da Chamusca, no Ribatejo mas é por aqui, na pequena aldeia de Mogofores, no meio da vegetação mais densa da zona centro do país, onde se encontra no Verão. Estão escancarados os grandes portões da sua propriedade, numa localidade que se habituou a ele, desde que ainda pequeno jogava à bola de trapos com os amigos, no pátio dos Salesianos, ali à distância da vista e das lembranças. Quando se pergunta onde é a sua casa, todos sabem apontar o caminho, acompanhando a indicação gestual com um sorriso fraterno de quem já está habituado a ouvir a mesma questão, e a entregar a mesma resposta. “Por ali”.
No jardim da entrada há cavalos à solta e um certo rebuliço contrastante com a atmosfera bucólica do lugar, um cenário que não acaba por ser de todo inesperado. “Bom dia...”. As apresentações ficam-se por aqui quando José Cid se apercebe que “está tudo de pantanas” e começa a correr atrás dos seus cavalos que se soltaram. A primeira meia hora deste dia diferente é passada a tentar colocá-los de volta nas cavalariças, mas eles parecem não ter muita vontade de cumprir a sua vontade... “Começámos bem hã”, diz com um sorriso transpirado e empoeirado depois de cumprida a espinhosa tarefa.
José Cid nunca foi muito obediente à formalidade, continua a não o ser e parece até que tudo à sua volta, acaba assim por fazer um certo sentido, não aparente. “Durante muitos anos estive fora do meio do espectáculo, dos artistas, nunca fui bem aceite em certos meios... Tinha apenas as pessoas comigo. Quanto a mim, sempre fui assim, não me preocupo muito com o que pensam”.


Dia cheio

Começou mais tarde o seu dia, hoje. Tem concerto marcado para mais logo, nas festas da Maia, onde vai apresentar o mesmo espectáculo que há alguns meses inundou o Campo Pequeno de uma plateia que o aclamou durante três horas, e do qual ficou o registo agora lançado em DVD, no mercado. “No Verão é assim, temos espectáculo de dois em dois dias, é cansativo mas não para mim que ainda estou aqui um atleta, com um bocado de barriga é certo, mas pronto para a luta”, graceja.
Durante o almoço, o telefone vai tocando ao som de uma versão sua de “Topo de Gama”, dos Clã. Amigos, familiares, ex-mulheres. Gosta de conversar e tem opinião fundamentada sobre tudo, ou quase. Sobre a qualidade da azulejaria do lugar, sobre os fãs, sobre o corte de cabelo do neto, sobre a sua música, a de outros artistas portugueses e estrangeiros, sobre o país em geral. “Isto não anda bom. Não sou anti republicano, agradam-me certas coisas da monarquias mas isto parece uma república de bananas. A ministra da cultura não é culta, a da educação não percebe nada de professores, o anterior da Saúde queria tirar-nos o direito a ela... Não é sistema de que goste porque os políticos são quase todos iguais com a excepção do Manuel Alegre... Digo-lhe que se tivesse aceite o meu apoio tinha ganho!”. José Cid é assim, gosta de dizer o que pensa, sem pensar muito nas consequências daquilo que diz. “Para quê?! A maioria dos artistas portugueses hoje em dia são educados demais, têm medo de mostrar as suas ideias livremente porque também sobrevivem à custa do sistema que está instalado e lhes dá dinheiro a ganhar. Eu não preciso disso, sei que as pessoas gostam de mim e isso chega-me. Apesar de gostar muito do meu país, o meu problema foi ter nascido em Portugal sabes?! Já tocava piano e cantava antes do Elton John aparecer, sei que sou muito melhor que ele! Alguém imagina os Rolling Stones a nascerem em Almada? Ou o Júlio Iglésias que não canta nada coitado, a nascer em Penafiel? É óbvio que não teriam tido a mesma carreira”.
Um café, um outro, e água natural, para não embaraçar a voz que o mantém ainda, e lhe adia a reforma. “Nunca me vou andar a arrastar pelos palcos e enquanto me aguentar assim, vou andar por cá”.

Do picadeiro para o estúdio
Aos 65 anos, José Cid, parece que não sente o tempo passar. “Nunca tive grandes vícios. Não bebo, não fumo nem uso drogas e mesmo assim tive uma vida animada. Divirto-me comigo próprio e não só”, humoriza, com o sorriso que lhe é característico e que deixa escapar no fim das frases, vezes sem conta ao longo do dia.
Para lá da música, participa ainda em competições equestres, outra das suas paixões antigas. “Sim, ainda nos próximos dias tenho algumas participações marcadas, é uma coisa que me faz feliz”, conta enquanto trata dos seus animais e os prepara para um passeio de fim de tarde, pelo picadeiro da sua propriedade centenária. “Sinto-me bem cá mas, no Inverno, tenho de voltar para a minha terra por causa da poluição e do frio característicos desta região”. É também aqui que tem o seu estúdio. Sobe-se a escadaria de madeira antiga, passam-se os retratos a óleo emoldurados, emoções de outros tempos em forma de elementos decorativos. “Memórias”. No último andar, alguns instrumentos antigos preanunciam ser este, um lugar de música. Abre aporta. “Sim, desde o Cai Neve em Nova Yorque que gravo tudo aqui, toda a minha obra está ligada a este sitio”, explica, enquanto observa algumas recordações que os amigos que por ali passaram, lhe foram deixando nas paredes de cortiça, e na memória. Sente-se o silêncio, por momentos. Um piano, as mesas de mistura, os microfones. Faz-se música do inesperado, em temas com a sua voz, ainda desconhecidos. “Tenho os próximos quatro álbuns já gravados”, surpreende. “Como? Já estão! Se vou cantar durante mais dez anos, não sei, mas estes já estão prontos para sair, mesmo que não esteja por cá”.

Dia de concerto
Coordena toda a equipa de produção dos seus espectáculos. Sucedem-se as chamadas telefónicas. Combina pontos de encontro com os outros músicos, agenda horários, trata de todos os pormenores com a mesma simplicidade com que come uma laranja colhida no jardim, em frente à piscina que cede aos miúdos da aldeia durante o Verão.
A Maia está em festa. José Cid e a sua “big band”, como lhe chama, são os convidados para encerrar as festividades. A tarde cai, num manto colorido pelas cores das festas típicas que se multiplicam pelo país durante os meses de Verão. Está sozinho ao piano, deixa-se ir, enquanto se fazem os testes de som em melodias desencontradas. No relvado, em frente ao palco, começam a juntar-se algumas pessoas. Sentam-se e cantam baixinho as canções que já sabem de cor. “Acho que já está tudo em ordem”, diz para si. “Sei que tenho canções que ficaram na memória das pessoas deste país, de norte a sul, velhos e novos, ricos e pobres. Tenho outras que ninguém conhece. Por exemplo na década de noventa toda a gente pensa que desapareci quando no fundo andava a fazer coisas de qualidade que ainda hoje ninguém conhece, é pena mas não renego a carreira que tenho, as coisas boas e más que fui fazendo”.
Hora de jantar, faltam poucas horas para o início do seu espectáculo. Refugia-se no carro estacionado nas costas do palco, por detrás dos óculos escuros que lhe compõem a imagem pública, por debaixo de um chapéu que o deixa disfarçado e descansado enquanto cumpre o ritual antigo de dormir a sesta antes de entrar em cena. “Faço-o sempre, aproveito para descansar e por as ideias em ordem para poder estar bem mais logo”.
O verde claro do parque começa a desaparecer com a luz do sol, ocupado agora pelas cores garridas das vestimentas estivais que preenchem o recinto até onde a vista permite alcançar. Mudam-se as roupas e as conversas com os companheiros de palco, sente-se a tensão, sensação hoje em dia já bastante familiar. “Sim, apesar de já ter muitos anos disto”, diz com um sorriso, enquanto os músicos começam a preparar a sua entrada. Inicia a escalada dos degraus, quando ao seu nome, se seguem os primeiros aplausos da noite. Levanta os braços, pousa-os sobre o seu piano. “Cai neve...”,começa a tocar, apesar de ser Verão, na Maia, como diz, para agrado de quem lhe canta os êxitos do princípio ao fim. As próximas duas horas serão de boa disposição. “Acho que é isso que gosto de ser, bem disposto”.
Acaba com “O Dia em que o Rei fez anos” e abandona o palco, com o fogo de artificio que está preparado para encerrar as festividades. Assina autógrafos, tira fotografias, vai olhando o céu cheio de cores. “Dia longo este, mas bom não foi?”. Entra no carro, em direcção ao regresso a casa porque “amanhã, começa tudo outra vez”.

Pública: Um dia com... Clara Pinto Correia




Os outros caminhos do dia a dia

Caminha em passos descalços, entre o mundo dos outros, e o seu, composto de laboratórios, palavras e figuras de estilo reais que lhe preenchem o olhar sempre que acorda de manhã.



Texto
Pedro Cativelos
Fotografia
Patrícia de Melo Moreira


“Olá, como vão?”. Universidade Lusófona de Lisboa no Campo grande. É manhã cedo ainda, dia de apresentação da tese de licenciatura do Bruno Costa Gomes, um dos seus alunos. A professora catedrática, coordenadora do curso de Biologia e do mestrado de Biologia do Desenvolvimento mantém-se próxima do grupo de alunos que aguarda, ansioso, pela prova final, distante da formalidade do traje, e dos requerimentos habituais da circunstância. “Gosto de estar perto dos jovens, de saber que no final do curso, quando estão preparados para ir fazer a sua vida, levam alguma coisa daqui, uma certa base para encarar um mundo que não é nada fácil. Adoro estudar, descobrir coisas novas... Poder depois passar isso a alguém, poder ensinar, é o melhor que há! O maior conselho que lhes costumo dar? Já o sabe de cor e repito-o desde primeiro dia... Não tenham medo”.
Clara é uma mulher diferente e gosta disso. Desafia as convenções sociais, invoca os porquês, não lhe importam os comos, desde que se sinta um sorriso pelo caminho, mesmo com a consciência liberta para a aceitação de finais nem sempre felizes. “Cresci assim, era o patinho feio que de repente despontou sem se perceber bem como... Talvez isso tenha influenciado a minha personalidade, me tenha ensinado a saber defender-me e a enfrentar o futuro”.
A sua cadela, a Bolota, acompanha-a para todo o lado e já é famosa, junto de alunos e colegas professores. Deitada aos seus pés, não parece muito interessada na tese que está a ser apresentada, ao contrario da dona, que ouve atentamente a explicação final, de cinco anos de curso, com um ligeiro brilho de orgulho no olhar.
A atribuição da nota. “Dezanove valores, parabéns”. A tenção desanuvia e cede o espaço a sorrisos, abraços, agradecimentos cúmplices e um “até breve” que se guarda sempre por perto.


Lugares incomuns

Escritora de quase meia centena de livros versando os mais variados temas e formas literárias, do romance histórico como “A Primeira Luz da Madrugada”, “o meu melhor que me levou 37 anos de trabalho de pesquisa” à literatura infantil, contando e regressando pelo caminho à forma científica, Clara foi sendo, ainda é, cronista, bióloga, viajante e tudo o mais que lhe “apetecer” pelo caminho. Aos 48 anos, e depois de se ter licenciado em Biologia pela Universidade de Lisboa, e concluído o doutoramento pela Universidade do Porto, prossegue ainda uma carreira universitária e de investigação no domínio da Embriologia no Instituto Gulbenkian de Ciência e nos Estados Unidos da América, na Universidade de Harvard. “Fui para biologia porque em pequena tinha o sonho de ser Park Ranger, numa reserva em África. Ainda hoje sonho com isso, em voltar para lá para ter paz interior e nunca acordar cansada... É o único continente em que gostava de acabar os meus dias, acho que um dia isso irá acontecer, quero isso para mim”.
Nasceu em Lisboa, na Alfredo da Costa, passou a infância em Luanda, cresceu como jornalista na redacção de “O Jornal”. Foi aprendendo a viajar e a conhecer o mundo para lá do que está à vista do horizonte. Algumas dessas histórias conta-as no seu mais recente livro, “Os Outros Caminhos do Mundo”, editado pela Oficina do Livro. “O que mais aprecio nas viagens, muito mais que a simples descrição dos locais, dos roteiros, são as pessoas. Agrada-me o lado escondido das coisas, o que não é para os turistas, a riqueza humana, a diversidade dos homens e das mulheres, os pequenos detalhes do seu quotidiano, como interagimos com essa realidades, enquanto viajantes... É todo este universo que realmente me fascina na viagem e é isso que sempre procurei contar”.

Mundo, casa e destino
Hora de almoço. No Bairro Alto, perto de sua casa, a refeição ligeira puxa pelas palavras, e desata os nós da conversa. Livros, romances, viagens que fez e que tem para cumprir, destinos múltiplos de quem ainda não sabe o que é o futuro, mesmo quando o observa ao microscópio. “A escrita para mim é como uma alimentação, é a forma como respiro e me pacifico, quando me sinto tranquila, protegida e acompanhada. Não tomo notas, vou deixando os esboços na minha cabeça até aparecer o título. Às vezes demora anos, mas só assim, nesse momento é que sei que está pronto”.
Dias perfeitos? “Estar de férias em Colares, ir para a praia furar ondas, batalhar com a água fria e voltar a casa, amaciar a pele com creme hidratante, sentar-me a escrever. Dá-me um prazer absoluto”. Um café, um outro com o Bairro a entardecer, sereno, para lá das vidraças do “Les Mauvais Garçons”.
Quanto aos dias comuns, a sua cadência que lhe guia os sentidos e lhe traça os vincos da personalidade na marcha diária das horas que passam. “Irrita-me esperar, levo-me pouco a sério e exerço sobre mim e sobre tudo o que me rodeia um sentido de humor cáustico que ajuda a relativizar as coisas, tanto as más como as boas. É um bom exercício”, lança com uma gargalhada.
Faz o caminho até sua casa descalça, sem razão aparente que não seja a de “ser uma boa sensação, depois de um dia cheio”.

Sensações
Em casa. “Costumo ouvir cânticos e sonoridades que escapem ao meu entendimento, composições melódicas sem voz que me transportem para alem do ocidente e me façam viajar... Televisão?!”. Sorri. “Gosto de ver filmes, mais no cinema até, algumas séries, mas não vejo muita de facto. Sabes que com esta experiência recente na TVI, onde entrei por uma questão de curiosidade, descobri um mundo novo para mim, cheio de gente que não esperava encontrar, um Portugal diferente com gente que faz tudo para aparecer... Ainda hei-de escrever um livro sobre esse tipo de pessoas”.
As memórias de locais longínquos pontuam o seu espaço. Tapetes do oriente, estatuetas africanas, odores miscigenados em cores berrantes, lembranças que trouxe consigo e fazem agora parte integrante de si própria, de quem sempre quis ser.
“Mesmo que tivesse namorado e lhe fosse muito fiel, nunca resistiria ao Mick Jagger”. A frase, inesperada, é complementada com um sorriso cúmplice, pleno de inocência e pecado, contrastes que se percebem na sua expressão, que fazem parte dela. “Sabes que me costumam tratar como uma miúda mas tenho quase 50 anos! Acho que isso até é bom sinal, de que me mantenho jovem de espírito e resisti às amarguras da vida. Já tive quase de tudo, há pouca coisa que não tenha experimentado, não tive uma vida fácil...”. Silêncio.
Sentada na sala da sua casa, com vista para as ruelas estreitas do bairro, a luz da tarde inunda-lhe o olhar, de perfil, que permanece de fora da conversa, a imaginar outros cenários, em busca da palavra certa, para a emoção que escolheu tomar conta do momento. “Penso muitas vezes em sair de Portugal, mas também sei que este pais é bom para criar filhos, e tem algumas coisas boas. Acho que está tudo um pouco estagnado, não sei até que ponto serei feliz aqui. Não sei porquê, mas sinto que ao longo dos anos tem havido muita gente que simplesmente me detesta”. Uma pausa de silêncio, brevemente interrompida. “Magoa-me isso, que façam juízos de valor a meu respeito sem me conhecerem”.
O livro, o mais recente aguarda-a no computador ainda em formato de rascunho principiante. “Está na hora de regressar para ele”. Um leve sorriso, até breve.

Pública: Um dia com... Margarida Rebelo Pinto


Dias escritos em ritmos diferentes

Quando está a escrever não sai de casa, consome todo o seu tempo entre a imaginação e as palavras. Depois, vêm as promoções, as entrevistas, as campanhas de marketing ou, a outra face de uma outra Margarida, que também lhe dá “muito gozo”.


Texto
Pedro Cativelos
Fotografia
Patrícia de Melo Moreira


Oficina do Livro, Algés. Quando a porta do elevador se abre lentamente, não demoram a fazer-se notar, os painéis de cartão promocionais com a sua cara, com o seu nome. Margarida, best-seller, não há coincidências... Há livros seus encaixotados e prontos a serem enviados para hipermercados, quiosques e Fnac´s de todo o país. É a máquina da escritora portuguesa que mais vende, e onde ela própria participa, “sempre” em equipa, como gosta de referir. “Depois de acabado o livro, os dois meses seguintes são passados aqui, na revisão, na preparação da capa, na definição da campanha de marketing, com os distribuidores... Escrever é a organização do caos interior, é o que gosto de fazer! Mas também me agrada estar presente na outra parte do processo, até porque tenho experiência em algumas dessas áreas, sei o que as pessoas querem. Além disso sinto-me bem com toda esta equipa, conheço todos eles desde que a editora abriu há oito anos, somos amigos, e passo aqui muitas vezes o dia inteiro”.


Português Suave
Margarida Rebelo Pinto licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas na Universidade Clássica. Depois de uma passagem pela área da publicidade como copywriter, prosseguiu com a escrita, então nas páginas do Independente, depois no Sete”, na Marie Claire, ou no Diário de Notícias. Passou também pela RTP, onde foi chefiada pelo hoje ´rival` do mercado livreiro, José Rodrigues dos Santos. “Gosto muito dele, aliás sempre me disse que tinha jeito para escrever e que devia fazê-lo profissionalmente. O nosso mercado é pequeno para essas rivalidade. Já com o Miguel Sousa Tavares também quiseram arranjar uma polémica, quando gosto imenso dele! Acho que ele está para o romance de época como eu estou para o romance urbano”.
Em 1999, fá-lo e materializa um dos seus sonhos. "Sei Lá", o primeiro romance, é um estrondo comercial, fenómeno que se repetiria no seguinte como, em quase todos os que têm a sua assinatura, a sua marca. Hoje, perto do milhão de livros vendidos, olha para trás, com outro à vontade. “O primeiro é o mais ingénuo de todos... Só com O Diário da Tua Ausência percebi que era isto, que tinha achado o caminho, que me tinha encontrado a mim e me senti confortável para continuar”.
Na sala onde costuma aproveitar para aperfeiçoar os textos, escritos no computador que a acompanha para todo o lado, durante os nove meses anteriores, o mar para lá das vidraças, e o bonsai em cima da mesa prenunciam-se como os sinais mais evidentes de toda a tranquilidade de que precisa. “Sou uma viciada em trabalho, sabe?”, expressão que utiliza várias vezes, ao longo do correr do dia.
Um ano depois de ter sofrido um AVC, regressa aos escaparates e, como quase sempre desde que começou a escrever, ocupou logo na primeira semana, o lugar cimeiro dos tops de vendas do mercado livreiro. De norte a sul do país, as mesas de cabeceira voltam a encher-se com as suas palavras e ideias sobre as relações entre as pessoas.
“Lembro-me que esse período foi complicado mas nunca pensei em morrer. Repare, não fumo nem bebo, levo uma vida saudável, gostava de fazer desporto e de repente dizem-me que tenho uma artéria bloqueada e que têm de me operar ao coração...O que me passou pela cabeça? Os projectos que tinha de concretizar, as histórias que tinha ainda para contar”. Sorri, como quem não quer destapar as marcas, que o tempo ainda não soube cicatrizar. “Claro que sim... Lembro-me que tudo isto aconteceu pouco tempo depois de ter escrito A Rapariga que perdeu o Coração... Engraçado não é. Não há mesmo coincidências?”, deixa escapar, com uma gargalhada.


Dias úteis
Não costuma escrever à noite, prefere a luz dos dias, a mesma que lhe iluminou o caminho para o mais ambicioso de todos os seus livros, até agora. Português Suave, lançado há duas semanas no mercado. “Sou ambiciosa, não escondo isso, nem tenho vergonha de o assumir. Normalmente todos os anos tenho dois objectivos profissionais e um pessoal. Este ano, dois já estão, falta um terceiro, que é a internacionalização, mas estou a trabalhar nisso! Se não podia arranjar objectivos mais comuns? Quais, feliz já eu sou, e eu preciso desta adrenalina”. A palavra utilizada, contrasta na etimologia, com o nome do seu mais recente livro. “A brandura... Aí está se calhar a pior ´qualidade` dos portugueses... Quis chegar aí, precisamente”. Na varanda que dá para o Tejo, com o olhar distante buscando o horizonte, chama-lhe... desafio. “Quis dar este passo, escrever um romance com consciência narrativa diacrónica, em que retratasse três gerações diferentes indo mais aos aspectos sociológicos e históricos de cada época, sem nunca deixar de ter as histórias de amor e as intrigas familiares que me interessam tanto. Ver o que mudou afinal e acho que não mudou assim tanto onde é mais importante, no íntimo de cada um, nos comportamentos e nas reacções que continuam fechadas, desconfiadas. O pior defeito de muita gente continua a ser a mesquinhez e a inveja, as coisas que mais detesto em qualquer ser humano”.

Passear, ler e escrever
Margarida aprecia certas rotinas, “apenas quando elas são boas e nunca durante demasiado tempo. Quase todos os meses tenho de fazer uma viagem, para respirar e sentir que o mundo é um lugar tão grande afinal”. Por cá, tem sitio para almoçar quando está pela Oficina, “onde já sabem a sopa que gosto e o que me agrada”, caminhos para passear, livros para ler, Moleskines, vários, para preencher de rabiscos e ideias soltas que a interpelam sem licença, no dia a dia, talvez, como diz, “o segredo” para saber dizer o que as pessoas querem sentir. “Faço-o muito, estou sempre atenta às conversas que se desenrolam à minha volta. Ando na rua, converso com toda a gente, tenho muitos amigos... Muitas dessas coisas acabam por dar origem a personagens, acrescentar-lhes conteúdo, ou apenas um pequeno traço de realidade que as distinga”. Nos rabiscos feitos à mão, os esboços do futuro próximo da sua vida profissional, traçados já. “Tenho aqui por exemplo mais cinco livros já pensados que irão preencher os próximos sete anos da minha vida”, graceja.
Um café, um doce “que está a apetecer”, e um passeio pelos livros da sua vida e pelos escritores que lhe avivam os tempos mortos. De Hesse, passando por Pessoa, Lobo Antunes e “tantos outros”, deixa escapar, enquanto folheia a edição inglesa da Mensagem.
Toca o telefone. Uma constante ao longo do dia, ainda para mais em época de promoção. Dispõe o sorriso e a simpatia, para quem está do outro lado, desliga e volta a atender, recebe e troca mensagens. Não lhe agradam aliás as “adulterações” linguísticas das SMS. “Não sou nada dessas coisas de fazer abreviaturas e usar capas”, humoriza, enquanto guarda o telefone na sacola de Verão, onde, entre a toalha e a leitura de praia para a qual acaba por “nunca arranjar tempo”, começa a tocar novamente.
Quando a tarde se começa a fazer sentir nos relógios, chega o tempo do habitual passeio à beira mar. “Desde que tive o problema no ano passado que não posso fazer grandes esforços, por isso ando imenso, entre Paço D´arcos e Cascais, mas também aqui, por Belém, uma zona que gosto muito, pelo rio, pela calma”.
Na esplanada da Piazza di Mare, as pessoas observam-na, quando chega. Falam baixo, quase em sussurro, como é comum acontecer quando alguma figura pública se aproxima. “Se me faz confusão? Claro que não, e abordam-me imenso. Tenho pessoas que me vieram dizer que lhes salvei a vida, ou que os ajudei a resolver os seus problemas pessoais. Isso para mim é que é o verdadeiro sucesso! Como lido com ele? Ligo à minha mãe, converso com ela, aproveito o tempo com o meu filho... Se eu não fosse feliz como mãe, enquanto mulher e como filha nunca seria verdadeiramente completa".

julho 15, 2008

Notícias Sábado: Despidos de Preconceitos


No retrato cru de um Portugal onde os preconceitos ainda não se despem com tanta facilidade assim, o nudismo é muitas vezes associado à sexualidade e à promiscuidade. Apesar dos levantamentos populares na Póvoa do Varzim ou dos problemas na praia da Bela Vista na Costa da Caparica, o naturismo continua a ser vivido por quem procura apenas estar mais perto da Natureza e está mesmo a expandir-se, de norte a sul do país, em praias e parques de campismo onde os “têxteis” estão proibidos de entrar.



Texto
Pedro Cativelos
Fotografia
Patrícia de Melo Moreira



Mar, sol, areia... natureza viva composta por dois corpos desnudos caminhando pela brisa em direcção à rebentação calma de um final de tarde em por do sol. Será esta a imagem mais real que qualquer naturista deseja idilicamente perfilhar, mas nem sempre é esse o cenário real encontrado.
Praia do Meco, talvez o mais conhecido lugar naturista de Portugal. São mais os que estão vestidos, que os que não levam roupa. Vestidos, é uma forma de dizer. Os fios dentais desnudam quase na totalidade, as sungas deixam entender e os toplesses permanecem no meio caminho, entre um jogo de raquetes e o lançamento dos frisbies. Tem de se percorrer quase um quilómetro de areal para se encontrarem alguns nudistas por ali. Há homens, mulheres, novos e velhos, gordos e magros, de tudo. Levam chapéu de sol, usam creme protector, levantam-se e descem ao mar com os filhos, com os amigos, e regressam às toalhas para ler o jornal ou a revista e comer uma sandes de queijo e fiambre embrulhada em folha de papel prata. Ao longo dos anos habituaram-se aos olhares na sua direcção, aos mirones furtivos, disfarçados entre as dunas, às fotografias surripiadas em telemóveis descaracterizados. “Engraçado como existe um preconceito tão grande com a única coisa que todos temos, que é o nosso corpo. Quando se vai para o duche também se vai nu, todos nascemos despidos, os animais não usam roupa... Logo isto não deveria ser uma novidade para ninguém”. Mas parece de facto ser, até mesmo na mais famosa de todas as praias naturistas. “Sim, qualquer dia temos de andar ainda mais lá para o fundo, para estarmos à vontade... É o que se tem mas apesar de tudo, e para quem gosta disto é libertador poder vir para aqui”, explica Jorge Sousa, um operador turístico de Lisboa que descobriu o naturismo aos 18 anos, numa outra praia naturista oficial, em Tavira e que até hoje, nunca mais deixou de sentir o gosto de andar em pêlo. “Em casa ando sempre nu com a minha mulher e quando podemos vimos para o Meco aproveitar a natureza, sentir o vento e o mar com muito maior liberdade... Há lá coisa melhor que isto?”.

No mapa do Portugal a nu, o sul do país apresenta muito mais opções para os naturistas se poderem expressar livremente. Todas as cinco praias naturistas oficiais existentes em Portugal se encontram entre Lisboa e o Algarve. A das Adegas, em Odeceixe, é mesmo a única que tem nadador salvador. Na região há ainda uma pequena pousada naturista, em Silves, e um parque de campismo misto, em Aljezur. Enquanto o Parque da Quinta dos Carriços, tem uma zona para naturistas e outra área para pessoas vestidas, o Monte Barão, em Santiago do Cacém, já no Alentejo, é integralmente dedicado aos nudistas. Alguns quilómetros em direcção à linha costeira e, aproveitando os acessos dificultados pelas escarpas e pela ausência de turistas de fim de semana, ao longo de toda a Costa Alentejana há também inúmeras praias desertas onde, muitas vezes, se encontram nudistas de ocasião.
Para Norte, apenas praias toleradas e a Quinta das Oliveiras, um parque de campismo exclusivamente destinado aos adeptos deste movimento. De comum, todos têm duas coisas, defendem e dependem do conceito de nudismo, e todos os proprietários são estrangeiros.
Oliveira do Hospital, sopé da Serra da Estrela. Porventura pelo clima, ou pela distância da praia mais próxima, seria um dos locais onde não se esperaria encontrar uma colónia nudista. No caminho, perguntando pela localidade de Travanca de Lagos, freguesia onde fica a Quinta das Oliveiras, ninguém a conhece. Se perguntar pelo parque dos nudistas, as coisas mudam de figura, e um sorriso malandro faz-se logo acompanhar de um dedo indicando a direcção.
O portão está fechado, e os muros são altos para evitar os olhares indiscretos de quem anda à caça de uma visão escancarada. O dono é um holandês que se apresenta como Sérgio, a tradução para português do seu verdadeiro nome, Siets Bijker, que deixou a sua Arnhem para vir para Portugal e em Abril de 2002, abrir o primeiro parque de campismo naturista do país. “Sim, apaixonei-me por este sitio, que é perfeito para o que queríamos”. De então para cá, “as coisas têm estado a andar, de principio as pessoas não aceitaram muito bem a ideia, tivemos alguns problemas, mas agora está tudo pacífico”, explica. Na verdade, quase seis anos depois da abertura do parque, o sentimento das pessoas alterou-se em relação aos convidados estrangeiros que vieram para ficar. Depois da polémica inicial que ameaçou até a abertura do parque, António Santos, presidente da junta reconhece hoje ter-se tratado este até de "um bom investimento para a freguesia porque trouxe pessoas para cá", assinala.
Siets construiu quase todo o parque com as suas próprias mãos. O bar, a piscina, os balneários e os arruamentos decorados com videiras. Faz o próprio vinho, produz azeite, aproveita a luz solar para aquecimento de águas. Não é homem de muitas palavras, nem prima pela simpatia fácil. Permanece desconfiado durante a visita ao “seu” parque. Fala na maioria das vezes em holandês, porque quase todos os campistas que ali aparecem provêm do seu país. “Sim, mas há alguns ingleses e começam a aparecer muitos portugueses também, porque me parece que, apesar de serem ainda um povo um pouco conservador, se calhar devido à influência da igreja no vosso país, começam a estar mais abertos para este conceito”. Numa das tendas encontramos um português. Ele, vestido, a ler um livro e a aproveitar o sol de fim de tarde, enquanto a companheira descansa. Não quis dar o nome, nem aceitou fotografias. “Percebam-me que trabalho em Lisboa e não posso aparecer assim”. Prossegue a visita. “Sabe que aqui temos certos cuidados, com o ruído, com o próprio tipo de turismo que as pessoas procuram. Oferecemos uma saída da rotina diária, do stress, por isso nos despimos. Aqui não há doutores, nem engenheiros, não há profissões. Quando se tira a roupa ficamos todos iguais, e perdem-se muitos dos preconceitos que existem na sociedade contemporânea”.

Naturismo é uma forma de viver em harmonia com a Natureza caracterizada pela prática da nudez colectiva, “com o propósito de favorecer a auto-estima, o respeito pelos outros e pelo meio ambiente”. Na definição da Federação Naturista Internacional, a procura do bem estar resultante da partilha do corpo com os elementos naturais alia-se à prática do nudismo enquanto uma das suas vertentes, como explica Rui Martins, presidente da Federação Nacional de Naturismo. “É uma tendência que se está a massificar no nosso país, e um mercado que pode movimentar muito dinheiro. Em Espanha por exemplo há 400 praias onde se pode fazer nudismo, em Portugal há cinco! Em França existem campings a sério, onde nem é preciso sair de lá. Poderemos chegar aí, temos muitos naturistas estrangeiros a quererem vir para cá mas não temos infra-estruturas para eles”.
Presidente da FPN há pouco mais de um ano, Rui Martins faz nudismo desde muito jovem ainda. “Desde os 16 anos, hoje tenho 48! Comecei em Vila Nova de Milfontes, que na altura era diferente, não tem nada a ver com o que é agora... De vez em quando é que aparecia a GNR e tínhamos de fugir dali porque a lei era diferente”, conta com humor.
Hoje já não é proibido fazer nudismo, e desde que isso não implique com o pudor do próximo, é possível andar nu em qualquer lado. “Sim, mas nós não temos esse espírito, não queremos ofender ninguém. Se quem estiver ao meu lado não estiver à vontade, levanto-me e vou para outro sitio”.
Com a criação da FPN em 1977, há 31 anos, os naturistas sempre procuraram o reconhecimento do Naturismo na Lei, como garantia da defesa de um estilo e prática de vida, usualmente confundido com manifestações exibicionistas atentatórias da moral colectiva. Dos pioneiros do Meco, que a transformaram nos anos sessenta na primeira praia naturista portuguesa, alguns praticantes chegaram até a enfrentar a barra do tribunal por atentado à moral pública, até aos dias de hoje, “muito mudou na ideia que as pessoas fazem de nós. No entanto, ainda há alguns meses tivemos problemas na praia da Estela, na Póvoa do Varzim, em que houveram milícias populares contra os nudistas. Depois, as praias naturistas são selvagens, como se nós também o fossemos, não têm apoios de praia, nem nadadores salvadores e isso tem de mudar”.
O porquê, encontra-o na “fácil associação entre estar nu e ter relações sexuais, o que leva a que muitos olhem para tudo isto como um ambiente de promiscuidade, troca de casais e por aí fora. Para lhe dar um exemplo, andamos com um problema na praia da Bela Vista, na Costa da Caparica conotada um pouco com o engate e a homossexualidade. Não temos nada contra isso, obviamente, o problema, é que já temos poucos espaços para andarmos à vontade e estas atitudes acabam por denegrir todos os outros nudistas que só querem ter um pouco de espaço para si e para estarem mais perto da natureza”.
Apesar de não existirem estatísticas oficiais fundamentadas, estima-se que existam em Portugal cerca de dez mil nudistas, de forma regular ou pontual, embora apenas cerca de 1300 estejam associados na Federação. “Temos essa noção pelas pessoas que aparecem nos eventos que promovemos durante o Inverno, nos jantares, nos passeios, na piscina da Penha de França (a FPN tem um protocolo com a Câmara de Lisboa que prevê a utilização da piscina municipal pelos nudistas, uma vez por mês). O progresso também ajuda à evolução mental das pessoas, principalmente dos mais jovens, apesar de na Federação termos pessoas de todas as faixas etárias, de todos os estratos sociais”.

“Bem vindos”. Monte Barão, a poucos quilómetros de Santiago do Cacém. O primeiro sorriso, e as palavras em português com sotaque de Amesterdão, fazem-se acompanhar de uma toalha colorida que flutua com o vento e que deixa perceber o que se irá encontrar para lá do portão. À primeira vista, toda a gente anda nua por ali. “Bem, quase toda a gente”, graceja Jeff, apontando para nós. “Estejam à vontade”, sorri, num convite que se iria multiplicar ao longo do dia.
O lema deste parque naturista é mesmo esse. “Um abraço a todos os que nos visitem, a hospitalidade, o sorriso, a liberdade”, explica Laura, uma holandesa descendente de italianos que se expressa num português quase perfeito. “Sim, a ascendência latina ajuda. Se os meus pais também fazem nudismo? Já cá vieram, mas não!”. Jeff, sorri, até porque desde pequeno que foi habituado a andar nu, uma tradição da sua família. “Eles já cá vieram e adoraram! Poderem fazer aquilo que gostam, ainda por cima no parque do filho, ficaram todos contentes”.
Depois de decidirem abandonar a cidade onde cresceram e se conheceram, procuraram Portugal, pela escassa oferta que existia neste sector, “e que fazia do país, um bom lugar para começar o negócio. Começámos pela Câmara de Santiago que sempre nos recebeu muito bem, assim como os vizinhos que nos dizem que o parque é a alma desta terra! Ao fim de dois anos, encontrámos o terreno e começámos a construir tudo isto, que aos poucos se vai assemelhando com aquilo com que sempre sonhámos porque não nos sentíamos felizes com a vida cinzenta que levávamos lá”.
O monte Barão ainda está a evoluir desde a abertura, há três anos atrás. Nos sete hectares de terreno de azinheiras, sobreiros e pinheiros, cresceram bungalows, algumas tendas e roulotes, uma piscina inaugurada há três semanas, um bar de madeira, balneários e um curral, com porcos, galinhas e cabras. Prepara-se agora o primeiro campo de golfe naturista do país que, estará pronto no próximo ano. “Queremos cá trazer o Tiger Woods”, dizem por graça, enquanto vão edificando outros projectos com o olhar e os gestos à medida que nos apresentam o espaço, “a nossa casa”, dizem orgulhosos.
Por aqui, tudo foi feito por Jeff, Laura e alguns hóspedes que foram ficando, como Gill e Andrew, um casal de ingleses de Sussex, que depois de se reformarem, decidiram vir para Portugal à procura de um lugar para poder viver a reforma de forma... natural. Sentam-se na mesa da esplanada do jardim, ele com uma cerveja na mão, ela apenas sem roupa. “Apaixonámo-nos por isto, estávamos fartos de barulho, carros, confusão... Quando descobrimos este sitio, vendemos a nossa casa e decidimos ficar cá! Ajudamo-los na jardinagem, nas limpezas, há sempre coisas para fazer! É um sonho”. Um ano passou, de então para cá, e não antevêem data de regresso. “Para quê?”, interroga Andrew.
Laura e Jeff estão por perto. “São nossos amigos já, e isto é uma coisa que de facto andarmos despidos nos trás, mais proximidade uns dos outros, porque não há estatutos sociais ou diferenças económicas. Aqui somos todos iguais, comunicamos, sabemos os nomes de toda a gente e vivemos em harmonia. Portugueses que também já temos bastantes e estrangeiros, mesmo durante o Inverno, porque aproveitados a onda de reformados do norte da Europa que procura o sul por causa das temperaturas mais quentes”, explica Laura.
Corre calma a tarde, o tempo parece correr mais devagar, com outra cadência, mais de acordo com a paisagem que nos cerca o horizonte. Ouve-se falar português, perto da piscina. Nuno Frade e Paula Costa, vieram de Lisboa para passar aqui uma semana de férias. Quando trajados, trabalham ambos num escritório mas aproveitam os fins de semana e as férias para se “libertarem” dos “têxteis”, uma denominação comum utilizada por todos os naturistas quando se referem às roupas utilizadas no dia a dia. Fazem nudismo há já alguns anos. Paula pertence também à direcção da FPN. “É muito mais prático, anda-se muito mais à vontade, as malas são muito menos volumosas e sinceramente hoje já não consigo ir à praia com fato de banho, sinto-me desconfortável”, comenta. Nuno, partilha da mesma opinião. “O Naturismo é muito abrangente, pode ou não ter relação com movimentos ecológicos ou ambientalistas, mas cada qual define o seu caminho, de acordo com a sua personalidade. Aqui estamos nus uns com os outros e convivemos de forma natural, nada nos dividindo ou separando da verdadeira natureza humana. Já éramos namorados e depois de experimentar a primeira vez, quando ouvimos um programa na rádio sobre o tema, nunca mais quisemos outra coisa”, sorri, por entre um olhar cúmplice para a namorada.
Com eles está também Alexandre Moleiro, residente em Tavira e vice-presidente da Federação. “Temos de facto bom clima e boas condições naturais para a prática do naturismo, mas faltam é mais infra-estruturas como as que existem lá fora. Conservadorismo? Haverá sempre, acho, mas até isso é uma questão mental... Por exemplo, ninguém se queixa de atentado ao pudor quando está uma sueca na praia em topless....”.

Caixa:
Factos do nudismo

-Na Grécia antiga era comum a prática de desporto sem nenhuma peça de roupa.
-Era prática usual entre os romanos, banharem-se desnudados em banhos públicos mistos, prática corrente ainda nos países do norte da Europa.
-O naturismo moderno surgiu no início do século XX, na Alemanha. Adolf Koch, um professor de educação física propôs aos seus alunos que os exercícios fossem feitos ao ar livre e sem roupas. Para a história ficou que os seus alunos passaram a ter mais saúde e alegria o que fez com que as famílias aderissem igualmente aos exercícios, nascendo assim o conceito de nudismo, materializado em 1906, com o primeiro campo oficial para a prática do naturismo. Do conceito faz também parte a preocupação com a alimentação saudável, geralmente vegetariana, embora não seguida por todos os nudistas.
- Croácia, França, Holanda, Alemanha e Espanha são os países europeus onde se verifica um maior investimento neste tipo de turismo.
-Cem anos depois, a França é hoje considerada a capital do naturismo na Europa, com mais de 175 campings e resorts, seguindo-se a Alemanha com 155 e a Holanda com 56.
- A Associação Americana de Nudismo Recreativo estima que o sector gera anualmente entre 250 a 330 milhões de euros.
-A Federação Holandesa de Naturismo tem cerca de 40 mil associados e estima-se que metade da população de todo o país já tenha pelo menos uma vez feito nudismo.
-Há relatos dos primeiros nudistas portugueses frequentarem as praias da Costa da Caparica, desde os anos vinte do século passado.


Caixa:

Primeira intervenção de José Sócrates na Assembleia
A Lei 29/94 de 29 de Agosto, que hoje ainda se encontra em vigor foi a primeira manifestação do reconhecimento público, político e oficial da prática naturista em Portugal. Numa das suas alíneas define-a como “o conjunto das práticas de vida ao ar livre em que é utilizado o nudismo como forma de desenvolvimento da saúde física e mental dos cidadãos, através da sua plena integração na Natureza”.
Há até a curiosidade de ter sido sobre o Naturismo, a primeira posição parlamentar tomada pelo então jovem político... José Sócrates.


Legendas:
FPN – www.fpn.pt
Monte Barão – www.montenaturista.com
Quinta das Oliveiras: www.quinta-das-oliveiras.com


Notícias Sábado, Capa, Julho de 2008

julho 08, 2008

Notícias Sábado: Sempre à escuta...


O imaginário de Sherlock Holmes, Sam Spade, Dick Tracy, até Claxon, emerge sempre que se fala em detectives privados. A realidade é no entanto muito díspar da ficção, dos romances e das películas norte-americanas das décadas de trinta e quarenta. Em Portugal, não existe enquadramento legal para uma actividade onde se misturam polícias, detectives, carolas, burlões e onde muito se passa nos enredos mais ou menos claros que a Lei deixa por preencher. Dos tradicionais casos de infidelidade às mais recentes acções de investigação ao serviço de grandes empresas, conheça o fascinante mas pouco romântico mundo dos detectives privados.


Texto
Pedro Cativelos
Fotografia
Patrícia de Melo Moreira



Bons, maus e vilões. Folheia-se um jornal e lá estão eles, normalmente sem fotografia, recorrendo na maioria dos casos a ilustrações ou cartoons munidos de lupa e chapéu à Sherlock Holmes. Quando se percorre a Internet, também se encontram inúmeros sites dedicados à investigação privada não judicial ou criminal. Muitos não têm sequer morada, apenas um contacto telefónico que vai mudando, sem data marcada ou aviso prévio. Não há mulheres detectives em Portugal, e na generalidade, oferecem todo o tipo de serviços de investigação, dos inevitáveis casos de infidelidade matrimonial, ao controlo de filhos menores, mas também de buscas de pessoas desaparecidas, apuramento de provas para processos de poder paternal, levantamento de bens penhoráveis de empresas ou particulares, de idoneidade de futuros empregados, baixas fraudulentas, duplicidade de emprego... Um universo de informação que espera por ser descoberta. A oferta é variada, mais ou menos explícita em termos de linguagem, nunca demasiado, porque a falta de legislação torna demasiado fácil o resvalar para a ilegalidade.
Um dos mais conhecidos e reputados detectives privados em actividade é António Correia. Investigador há mais de 25 anos, co-fundador da Associação Nacional de Detectives Privados de Portugal, coloca semanalmente anúncios no Público, desde a sua primeira edição, e em alguns outros jornais. Oferece os seus serviços e a sua experiência sob o lema, "Investigações Com Dignidade”. “Porque em todas as actividades, ainda para mais naquelas que não estão regulamentadas, é necessária uma conduta profissional e idónea”, explica, sem querer “falar muito” por se encontrar a actividade a passar por “dias difíceis”, lamenta.
“O grande problema que enfrentamos no dia a dia é de facto esse, o de não existir uma regulamentação como existe no resto da Europa ou nos Estados Unidos, até em Espanha, onde se marca a linha entre o que se pode ou não fazer” complementa João Santos, um dos mais antigos profissionais da investigação privada em Portugal. Na casa dos quarenta anos, há mais de vinte dedicou-se à profissão de detective, depois da agência de publicidade da qual era gestor ter falido. “A ideia surgiu através de um amigo, e fui fazer um curso a Barcelona, porque cá não havia, como ainda não há, nenhum tipo de formação nesta área. Quando regressei, apercebi-me que havia potencial de mercado para me profissionalizar e assim fiz”, explica, imediatamente antes de um dos seus três telemóveis começar a tocar. Mais um dos muitos clientes que vão aparecendo por ali. “Chegamos a ter seis e sete casos por mês”; revela.
De então para cá, fez um pouco de tudo, perseguiu maridos e esposas enganadoras, descobriu factos onde haviam apenas desconfianças, “auxiliou” empresas e escritórios de advogados, mas não entra nunca em grandes pormenores, “por sigilo profissional”, justifica. “Esse tipo de clientes, os dos casos amorosos, continuam a aparecer, mas bastante menos. Com a chegada das multinacionais, começaram a aparecer outro tipo de trabalhos e nós funcionamos cada vez mais com grandes empresas”.
Lidera hoje uma equipa de oito investigadores profissionais na Agência de Investigação Josan, com escritório em Benfica. Os diplomas das inúmeras formações que foi fazendo ao longo das últimas duas décadas compõem as paredes brancas da sala e conferem seriedade às suas palavras. Malas metalizadas com código de segurança e alguns cabos desarrumados em cima de uma das mesas, deixam lugar à curiosidade, mas não passam de sinais quase invisíveis dos adereços que se esperariam encontrar nestas ocasiões. “Essa coisa das escutas e das câmaras não é bem assim, não se faz à balda nem isto é uma agência americana para estar tudo aqui à mostra, até porque é ilegal e não costumamos utilizar esse tipo de equipamentos! Sou hoje um detective mais de secretária, ou de bancada digamos assim. O meu trabalho é muito de coordenação do pessoal, de distribuir tarefas e serviços e lidar com os clientes. Se tenho saudades da rua? Continuo a andar por aí, mas menos”.
João Santos é hoje o vice-presidente da ANDPP. Observador, atento de todos os pormenores, mantém a postura enigmática de quem conhece o bom e o mau da vida. “Temos de ser sérios nesta profissão, é fácil enganar alguém e o que não falta aí são intrujões que se encontram com as pessoas em bombas de gasolina, aproveitam-se do seu desespero e pedem-lhes dinheiro adiantado para depois desaparecerem. Temos cerca de quarenta associados, mas fora devem andar à volta dos cem porque muitos aparecem e desaparecem. O que pode a associação fazer? O que temos feito, falar com o Governo para regulamentar isto tudo, para enquadrar a nossa profissão para podermos trabalhar sem pisar o risco, como por vezes acontece. Por exemplo, se eu necessitar de consultar ficheiros civis ou estatais, tal como saber se o indivíduo tem cadastro, ou onde trabalha ou reside, tenho muitas dificuldades no acesso à informação, porque não há legislação e isso complica o nosso trabalho”. Quanto a formas de ultrapassar essas barreiras? A resposta, fica no silêncio, apenas garante que “nunca” ultrapassa a lei.
De sorriso quase sempre escondido da conversa, só o esboça quando se fala em James Bond, de mulheres insinuantes e de uma visão um pouco romântica que ainda permanece no imaginário colectivo, do detective quebra corações que se envolve com as clientes e tem uma vida faustosa de luxúria e prazeres carnais. “Isso são filmes! A realidade é que isto é um trabalho e as pessoas que aqui vêm normalmente não estão numa boa fase da sua vida e querem resultados, e quanto mais depressa possível”.

Casos de Polícia. Não existe qualquer curso superior em Portugal, pelo menos oficial para se aprender a ser detective privado. Alguns dos profissionais “do mercado” são antigos polícias. Fala-se de outros, ainda no activo, uma realidade que no entanto ninguém afirma oficialmente, mas que se vai confirmando nas entrelinhas. “Comenta-se isso de facto, mas eu não conheço nenhum! Se é errado? Estar a aproveitar conhecimentos adquiridos ao serviço do Estado em beneficio próprio, é inqualificável”. Paulo Pereira Cristóvão tornou-se conhecido do grande público depois de ter abandonado a Polícia Judiciária ao fim de 17 anos de serviço, e de há pouco mais de um ano ter escrito o best seller (cerca de 95 mil exemplares vendidos), “A Estrela de Joana”, que conta a história da criança algarvia assassinada pela mãe e pelo tio.
Depois de deixar a PJ, Paulo abriu uma agência de consultoria e investigação empresarial, a Primus Lexis. “Tinha a noção de que em Portugal havia mercado para o tipo de trabalho que fazemos aqui e por outro lado, não havia profissionais que o pudessem fazer dentro da lei, com conhecimento das normas. Por isso, somos a única empresa do género, neste ramo e não temos nada a ver com esse mundo obscuro e amador dos detectives privados”.
Apesar da lista de clientes ser, em termos de identidades, reservada ao conhecimento geral, assume que trabalha quase exclusivamente na área jurídico-financeira. “Trabalhamos com grandes empresas, com escritórios de advogados, com empresários. Podemos ajudar uma empresa a controlar um conjunto de funcionários que se aproveitam de falhas na segurança interna para desviar equipamentos, como uma instituição bancária que tem um director de departamento que arranja clientes falsos para desviar dinheiro. Até a verificação de backgrounds curriculares, aquando da contratação de funcionários ou coisas tão simples como ajudar um jogador de futebol a arranjar o melhor carro ao mais baixo preço, fornecendo-lhe apenas a informação de onde o pode adquirir. O espectro é alargado, em termos dos serviços de que dispomos para os nossos clientes e ainda há muito por fazer”.
Para além da amplitude de oferta, parecem também crescer a bom ritmo, os lucros de uma empresa fundada há pouco mais de um ano. “Crescemos cerca de 30% ao mês. Se está a correr bem?! Excelente!”. Sorri. Das cerca de 16 pessoas que trabalham habitualmente no escritório da Almirante Reis, nem todos são ex-polícias. “Temos colaboradores formados em psicologia, direito, e claro, antigos polícias, assumidamente! Porque a nossa filosofia é exactamente essa. A melhor, e única, fonte de conhecimento de técnicas de investigação é feita pelo Estado, não há cursos privados nesta área, logo, estamos de longe mais bem preparados para lidar com o processo de investigação que qualquer outra pessoa que não tenha passado por este caminho”. Quanto aos detectives privados, não poderia ser mais explícito. “Isto não é a brincar, é muito sério, temos muitos clientes, lidamos com quantias avultadas, temos responsabilidades, passamos facturas, pagamos um balúrdio de IVA de três em três meses. E nem quero ser associado a essa malta que aí anda, muitos deles a enganar deliberadamente as pessoas, outros a fazê-lo pela pobre qualidade do seu trabalho. E depois, por outra razão... Nós não fazemos nada ilegal, até porque trabalhamos como se faz na polícia! Repare, não me interessa nada estar a colocar uma escuta, ou uma câmara oculta, se isso depois não é admitido em Tribunal por ter sido obtido de forma ilegal”.
Na sala onde guarda algumas das recordações dos seus tempos passados da Direcção Central de Combate ao Banditismo, que vai lembrando com “nostalgia” em passagens da conversa, algumas cartas de agradecimento pelos serviços prestados, fotografias, memórias que lhe pertencem, afixadas pelas paredes. “Não tenho saudades nenhumas da PJ, estava exausto daquilo, da forma como as coisas funcionavam, da burocracia, do baixo salário e acima de tudo, da muita falta de apreço por parte dos superiores que se foi instalando nos últimos anos. Quando saí disse para mim que nunca mais queria trabalhar para um patrão. Continuo a ter muito trabalho, para além disto sou presidente da Associação Portuguesa de Crianças Desaparecidas, tenho a televisão, estou a escrever um novo livro... Mas gosto do que faço, apesar de estar bastante mais no escritório que na rua por ser bastante conhecido já, a investigação é o que sei fazer, é a minha vida”.

Sabor a pecado. Mário Costa é talvez o detective privado mais conhecido no mercado. Fora dele também. Aparece na televisão, dá a cara, não impõe açaimes na fala, nas palavras, no que diz e no que não deixa por esclarecer. Corresponde porventura ao perfil mais esperado de um detective privado, como as pessoas normalmente os imaginam. Empolgante nos episódios que descreve, conhecedor das relações humanas, especialista em investigar o pecado. “O fruto proibido...”. Num quinto andar no Bairro do Bosque, na Amadora, tudo parece agitar o imaginário em torno das películas de detectives que se viam antigamente. Só se nota a falta da secretária loira de ar lascivo, roçando a lima nas unhas escarlate, num escritório que também não é a preto e branco. No entanto, a gabardina pendurada num dos cantos da sala não deixa o espaço órfão da visão cinematográfica.
Micro-câmaras em maços de tabaco, gravadores de lapela, localizadores GPS, máquinas fotográficas digitais, até ratos para computador equipados com escuta e óculos escuros espelhados para mirar de costas, sem dar nas vistas. Há cerca de um mês foi “visitado” pela PSP, e foram-lhe apreendidos muitos destes itens. “Parte deles já me foram devolvidos, penso que tem a ver com a minha ex-mulher, mas creio que não vai dar em nada, até porque ter um gravador ou uma câmara não é crime. O que costumo fazer, para não infringir a lei é instruir os meus clientes a utilizar este tipo de equipamentos, sou apenas um consultor”.
A vertente passional do seu trabalho, aproximou-o ao longo dos anos do que de melhor e pior ostentam as várias faces da personalidade humana. Começou jovem, no Algarve, na imprensa regional, que lhe criou “o bichinho da cusquice, da investigação”, conta.
Depois, veio para Lisboa ainda adolescente. “Trabalhava na Lisnave durante o dia, investigava para o Correio da Manhã e para outros jornais à noite. Sabiam que me desenrascava bem, que conhecia muita gente, que conseguia o que precisavam. Depois dava ao jornalista para ele escrever”.
Mais tarde fundou uma empresa de fotografias de casamentos. “Chegava a ter três no mesmo dia, ganhei dinheiro, aprendi muito sobre as pessoas, sobre o que elas querem ouvir, como se dão, ou fingem dar-se”. A paixão pela fotografia ficou-lhe, a paciência é que se acabou. “Aquilo acabou por cansar e comecei aos poucos, de início por carolice, a dedicar-me à investigação. Mas trabalho apenas em Família, em lhes dar a verdade sobre as suas desconfianças, fazendo a investigação que a polícia não faz, a das relações entre as pessoas”. Sobre o seu envolvimento com o SIS que chegou a ser tornado público há alguns anos, recusa falar, mas vai deixando algumas pistas, sem destino certo.
Com mais ou menos trabalho, “o negócio do corno”, como lhe chama, pode não ser o mais velho do mundo, mas afigura-se pelo menos, como um dos que por mais tempo irão perdurar. “As pessoas cada vez são mais infiéis, a sociedade ajuda a isso. Ainda por cima, antigamente eram mais os homens, hoje está generalizado. Tenho clientes divorciadas, sabidas, sofridas, que querem saber quem é o namorado novo que até parece perfeito, homens que cá vêm para saber porque razão a esposa anda tão estranha em casa, ou até um novo conceito de alpinistas sociais, rapazes que andam nos ginásios que se vão pôr à porta de urbanizações ricas à espera de ver passar os grandes carrões, tiram-lhes as matrículas e depois vêm cá para saberem tudo sobre aquelas mulheres para entrarem na vida delas e lhes sacarem dinheiro”.
Quanto a preços, é claro. “Normalmente cobro cinco horas, no mínimo, mas há trabalhos que demoram duas, três semanas. A partir de 50 euros à hora começo a trabalhar, mas tudo depende dos clientes, do tipo de serviço, dos meios que terão de estar envolvidos, da quantidade de homens que tenho de chamar para a operação. Ainda assim não faço tudo o que me pedem porque tenho consciência da Lei. Funciono no fio da navalha, mas tento não me cortar”, ironiza.
Por isso, e apesar da generalização das infidelidades que constata no seu dia a dia profissional, Mário Costa assume ser mais procurado por homens, do que por mulheres, a maioria de perfil social médio alto. “É natural que grande parte das pessoas que me procuram pertençam a classes sociais mais elevadas, até porque o dinheiro é o mais poderoso de todos os afrodisíacos e com ele vem muita podridão. Mas nós homens somos muito mais desconfiados e inseguros do que elas, que são mais espertas. Por vezes um homem não funciona com a cabeça, enquanto que as mulheres, na generalidade, conseguem conciliar o coração, a razão e a sexualidade”. O detective tipifica ainda o retrato típico do enganador, do sedutor, “do malandro”. “Os vendedores são os piores sabe?! Não imagina a quantidade de médicas que aqui vêm por causa do delegado de propaganda médica! Normalmente são casados, têm várias amantes, andam bem vestidos... Sabem vender o produto, aparecem no consultório, envolvem-se e passado algum tempo, quando se fartam, desaparecem”.
Ao longo dos anos lidou com inúmeras situações limite, sentiu emoções fortes, partilhou a dor de muitos dos seus clientes. “Este trabalho tem muito de psicologia. Grande parte das pessoas que entram aqui não precisam de um detective porque já sabem toda a verdade, mas por vezes não a querem ver, têm medo de perder os filhos, a casa, o poder de compra. Muitos homens entram a chorar porque dizem que estão a ser traídos, mas esquecem-se que já as traíram não sei quantas vezes. Outros entram cheios de raiva e tenho de os acalmar! Já me apareceram pais que queriam mandar matar os namorados das filhas, ou aquela mulher que quer fazer desaparecer o marido sem deixar rasto para lhe ficar com o seguro! Como vê, tenho muitas vezes de perceber a mente destas pessoas, acalmar-lhes a raiva e fazê-las perceber que não devem ir por aí. Já tratei de casos de muita gente conhecida, da alta sociedade, de jogadores de futebol que, por passarem tanto tempo fora sentem necessidade de controlar o que se passa nas suas casas... Aparece-me aqui de tudo, mas não aceito todos os trabalhos porque é importante perceber em quem devo confiar também”.
Trabalha normalmente em três, “quatro no máximo”, investigações por mês. “Chega para me manter bem economicamente e não arriscar muito”. A alma do negócio, ou o verdadeiro segredo para nunca dar nas vistas ou ser detectado nas vigilâncias? “Manter a distância e andar sempre de costas para o visado pela investigação”, revela. “Ir pela certa! Já tive alguns apertos, mas privilegio a segurança. Como não há formação nem básica, nem média e muito menos superior ou profissional em Portugal, aprende-se fazendo, com os erros e com os sucessos”.



Caixa:
Com funciona em Espanha

A profissão de detective privado não se encontra em Portugal regulamentada por nenhum regime jurídico. Os detectives regem-se pelas leis penal e civil, como qualquer outro cidadão. Com o tempo acabou por se estabelecer tacitamente uma linha divisória entre a investigação criminal que fica para as várias forças de polícia e a investigação privada, que sobra para os detectives.
Em Espanha, esta divisão de competências é contemplada na Lei. A actividade de investigação privada, regulamentada desde a década de cinquenta, define a fronteira das competências de privados e forças de segurança do Governo. Existem ainda diversas licenciaturas em Técnicas de Investigação regidas por universidades públicas e privadas, e leccionadas por antigos agentes de forças de segurança. Nos últimos anos, em Portugal, algumas instituições de ensino superior portuguesas tentaram inaugurar cursos idênticos, mas o Ministério da Administração Interna nunca autorizou a participação de elementos das várias forças de segurança nos projectos de curso que até hoje, acabaram por não avançar.

Capa Notícias Sábado, Junho de 2008

Pública: Um dia com... Paulo de Carvalho

Dias diferentes, canções de sempre



Passeia sempre com o Tejo por perto, o “símbolo” de uma Lisboa que canta, que o “encanta” desde sempre. Depois, o homem para lá da música, simples, directo, sem receios de ser “inconveniente” no palco diário da vida real.


Texto
Pedro Cativelos
Fotografia
Patrícia de Melo Moreira


Alcântara. A azáfama habitual dos restaurantes à hora de almoço. Faltam lugares para estacionar, o horário parece sempre apertado demais, o calor já tem gosto a Verão, num corrupio onde não há filas à porta porque o sinal azul permite o fumo tabagista, e mais uns segundos de ar climatizado. “Olá, como estão?”. O sorriso imediato, o trato na segunda pessoa, as primeira impressões demarcadas no singular, por Paulo de Carvalho.
Começou mais tarde o seu dia, hoje, por causa do espectáculo de beneficência em que irá participar, ao final do dia, no Casino. “Sim, levei a minha filha à escola de manhã, e tomei o pequeno almoço já tarde, não tenho muita fome”. Não dispensa ainda assim um belo bife de vaca, com ovo a cavalo. “Gosto de comer bem, escolho o restaurante de acordo com o que me apetece naquele dia. Cozinhar? Não tenho muito jeito nem paciência, prefiro andar por aí!”.
Não é raro que os olhares se desloquem para ele, não se incomoda com isso. “Tenho histórias engraçadas, normalmente dizem-me coisas boas. Ainda no outro dia um senhor me abordou na rua, para me contar que tinha uma filha chamada Nini!”, graceja.

Do Amor
"Mais do que cantor sou músico, toco voz". A frase não lhe soa nova, mas sente-a como verdadeira. “Não sou um artista, não tenho feitio nem paciência. Serei sempre e só um músico!”.
Escritor de mais de trezentas canções distribuídas por quase meio século de carreira, Paulo de Carvalho tornou-se incontornável nas memórias da música portuguesa das últimas décadas. Lisboa Menina e Moça, o Homem das Castanhas, os Putos, os Meninos do Huambo, Mãe Negra e tantas, tantas outras. “Não gosto de me vangloriar do que fiz, não sou assim, cada um tem o lugar que merece! Talvez tenha sido um pouco esquecido sim, sempre disse a verdade, o que penso. Se me arrependo? Sei que sou uma figura polémica mas eu sou assim e não vou mudar”. Um café, outro café, para compensar o cigarro que não fuma há mais de vinte anos.
Fundador dos Sheiks, mais popular banda da década de sessenta, retornados em formato de musical no ano passado e regresso anunciado para os próximos meses, chegou a jogar futebol no Sport Lisboa e Benfica. “Nos juvenis sim! Tenho ainda hoje lugar vitalício no Estádio da Luz, mas para mim bola é só no campo, quando acaba não sigo mais o fenómeno mediático que hoje em dia o rodeia”, conta.
Desde sempre compôs para muitos outros músicos, de Carlos do Carmo a Simone de Oliveira, de Sara Tavares a Lena D’Água, até Mariza. “O fado vai bem, muito bem! O importante é que cada fadista tem de encontrar o seu próprio fado. A Mariza? Ultrapassou o patamar das fronteiras, é do mundo já, mantendo as raízes, o que é muito importante mas, estando fora já das muitas pequenices que ainda há por cá”.
Paulo de Carvalho regressa agora, oito anos depois de Dagama, o seu último álbum, editado em 2000, com ”Do Amor” (a tournée começa a 20 de Setembro no Olga Cadaval em Sintra), um disco de afectos, “num tempo em que nem sempre há disposição para gostar das pessoas. Talvez por isso seja o tema que os compositores mais perseguem, porventura o mais complicado de todos, aquele que mais me faz pensar, reflectir, que mais me dificulta a vida, que mais me preenche”.
Para além da fadista, Ivan Lins, Tito Paris, Agir e Mafalda Sacchetti (dois dos seus filhos) participam nas canções com que marcou este regresso. “Este disco nasce sobretudo da minha amizade com os músicos que tocam comigo até porque todos eles abdicaram da sua agenda para se concentrarem neste trabalho que acabámos por gravar muito depressa, em cerca de vinte dias. Estamos a tentar encaminhá-lo para um circuito de jazz e world music no resto da Europa, há boas perspectivas”.
Quanto às primeiras impressões... “Já estou habituado a ouvir pouca música portuguesa na rádio, mas às vezes acontece, não percebo bem como isto funciona, vamos ver! Acho que o verdadeiro problema é de base e é simples, gostamos pouco do que se faz em nossa casa, é isto”.

Regresso ao Casino
Parece por vezes um pouco desiludido com tudo o que o rodeia. “Repara... Penso que hoje se vive de uma forma muito ligeira, pouco aprofundada, andamos muito ocupados, esquecemo-nos um bocadinho do que é mais importante, apegamo-nos a modas e a conceitos mais ou menos estéreis... Pessoalmente estou numa boa fase, estou feliz, mas isso não me impede de ser crítico do que nos rodeia, reflectir sobre isso não é ser pessimista! Já agora sabes o que é um pessimista?”. A pergunta é retórica porque a resposta já lhe vem anexada. “É um optimista com muita experiência!”. Dá uma gargalhada que se generaliza ao longo do dia, umas vezes carregada de ironia, noutras apenas de vontade de sorrir, porque apetece.
Cinema, conversa, viagens, comida, vinho, futebol, livros e música, claro. Prazeres desordenados na ordem natural das prioridades? “Sim, todos indispensáveis no meu dia a dia. Ao contrário do que se costuma dizer, gostos discutem-se, devem debater-se, mais que não seja para se terem conversas interessantes”, humoriza.
“O que ando a ouvir agora?” Vai ao porta luvas buscar os discos que o costumam acompanhar quando anda de carro. “Tenho aqui muita coisa, a maioria da música que oiço é instrumental, desde St Gernain a Gotan Project, Vicente Amigo... olha o Pat Metheny! É o meu ídolo sabias?!”.
O fim de tarde começa a cair no relógio, apesar dos dias serem ainda longos. O Tejo acompanha-nos ao longo do caminho, em direcção ao Estoril. Um cacilheiro ao fundo, lento, sobre as águas. “Por vezes gosto de ir até ao outro lado, atravessar o rio...”, solta, enquanto o seu olhar permanece solto, na outra margem.
Já conhece os cantos ao Casino. Lá dentro, no salão Preto e Prata, António Chaínho, Rão Kyao e Isabel Noronha já preparam o espectáculo de angariação de fundos para as vítimas do terramoto que devastou Sichuan, na China. As afinações entrecruzam-se nas conversas trocadas que preenchem o ambiente e lhe dão um toque quase familiar. Um, outro, e outro abraço. “Olha o meu amigo, como vais?”.
Terá participado já em centenas de eventos de solidariedade, desde campanhas de angariação de fundos ou chamadas públicas de atenção ao longo dos anos, sendo este apenas mais um daqueles aos quais não poderia deixar de comparecer. “Não gosto do estado chinês, mas aqui trata-se de pessoas e o valor humano está acima da política”, explica. Chega a sua vez, anunciada pelo mote da guitarra portuguesa. O alvoroço de empregados que preparam a sala, abranda por momentos. Canta como sempre, percebe-se quem é, na primeira respiração vocal, que faz o tempo passar depressa. Correu. “Já está”. Sorri, despede-se dos colegas, um aceno cúmplice, até à hora de jantar.

E depois...
Na rua, no supermercado, no café, por onde anda durante o dia, não é pouco usual pedirem-lhe uma canção. “Normalmente os músicos nunca podem dizer que não a nada! Por exemplo se eu fosse um engenheiro ninguém me dizia para construir aqui uma casa ou uma ponte! Mas isto é um bocado como o futebol, toda a gente acha que é capaz, que é fácil, que nem é um trabalho!”, ironiza com um sorriso.
Hora das compras, um dos seus hobbies...”Quer dizer, é preciso, tem de se fazer”, interrompe, enquanto vai observando os anos de colheita dos vários vinhos em exposição, pensando na melhor escolha para acompanhar determinado momento que não deixa no entanto escapar para a conversa. “Não olho muito a preços, gosto de um bom vinho de facto! Talvez seja como a música e outras coisas boas da vida. Não sou um grande perito, só comecei a beber aos quarenta! Mas sei saborear, apreciar, acompanhado da minha mulher, de uma conversa solta, de uma boa comida, sabe melhor não é?!”.
E depois do adeus? “Voltem amanhã!”,estende a mão e sorri. “Ainda cá espero andar mais uns anos, até breve”.

Pública: Um dia com... João Garcia

Dias planos

Foi o primeiro português a conquistar o Evereste. Quando não está nas montanhas veste o fato para os dias de treino intenso, sempre a pensar em regressar aos tectos do mundo, a sua verdadeira casa, “a minha vida”.

Texto
Pedro Cativelos
Fotografia
Patrícia de Melo Moreira


Parque do Monsanto. Lisboa vê-se ao fundo, embrulhada numa névoa típica de grande malha urbana, com o Tejo sereno, sempre a seu lado. Sente-se o contraste deste lado, ouvem-se os pássaros, pressente-se o verde envolvente, respira-se fundo, expira-se melhor. Velhos e novos correm para cima e para baixo com o sol a queimar já. Outros, andam de bicicleta nos mesmos sentidos, com esforço idêntico replicado nos rostos de cada um. “Bom dia João, então aqui é melhor que lá em cima não, é mais quentinho”. João Garcia acena, sorri, baixa a cabeça e continua a correr. É assim a forma de ser do mais afamado alpinista português. “Na montanha também acontece isto, falamos sempre por quem passa por nós... Isto aqui é fenomenal para quem gosta de desporto e há pessoas que já conheço só de andar a treinar! Sinto-me bem com esse reconhecimento, é sinal de que faço bem o meu trabalho”.
Passa normalmente seis meses por ano a subir montanhas. Quando está em casa, na outra metade do seu tempo anual, a sua rotina é menos arriscada, nem por isso mais serena. Levanta-se normalmente às seis e meia da manhã. Da sua casa em Alfragide costuma partir, em corrida para Monsanto onde “dá umas quantas voltas” ao Parque. Nos dias de bom tempo, o trajecto é diferente e prefere as duas rodas da bicicleta. “Costumo fazer cem quilómetros dia sim, dia não, vou até ao Guincho, passo por Sintra e regresso. Se custa muito?! Tem de ser, para me aguentar lá em cima, para as pernas não fraquejarem, para não morrer de cansaço, e digo-o literalmente, tenho de fazer este trabalho diariamente”.


Ensinar o corpo a subir

Tudo começou quando pegou na bicicleta aos 15 anos e, de Lisboa, pedalou até à Serra da Estrela para escalar pela primeira vez. Aos 17 já tinha conquistado o Monte Branco... Descobria assim, na prática, o espírito aventureiro que o haveria de empurrar para sempre montanha acima. Entretanto, ainda chegou a prestar serviço militar na Bélgica, para a NATO. “Pagavam bem, mas aquilo não era para mim”, recorda. De então para cá, nunca mais parou de subir, foi guia de alpinistas em todos os continentes, aproveitava os tempos livres para fazer as suas próprias excursões, “sempre com o objectivo de um dia viver só disto”, conta.
Aos 39 anos, João Garcia propõe-se, até 2010, a ser a 12ª pessoa do mundo a escalar as 14 montanhas mais altas do planeta. Dez desses cumes já lhe ficaram gravados no currículo e na memória, entre os quais o Evereste, em 1999, a mais alta de todas as montanhas, que o tornou no primeiro português a atingir de tão perto o céu, e uma das raras dezenas a fazê-lo sem recurso a garrafa de oxigénio. “É uma questão de princípio, porque a dificuldade está nesse pormenor simplesmente decisivo quando estás lá em cima, porque há menos ar para respirar, é completamente seco e o frio é inacreditável”.
A ironia de um destino que procura nos seus próprios limites, traçou-lhe no caminho que a escalada que o tornaria famoso para todos os portugueses, haveria de ser aquela que lhe ficou cicatrizada na lembrança, e no corpo, como a menos memorável de todas. “Estranho não é?! Foi a pior de todas as excursões”, lamenta. Nesse dia perdeu o amigo Pascal Debrouwer, que o acompanhou ao cume. Depois de uma caminhada de quase vinte horas, caiu numa ravina durante a descida e morreu, já quando regressavam ao acampamento base. “O topo do mundo estava ali tão perto que decidimos tentar”. Silêncio. Também João Garcia quase perdeu a vida nesses momentos. “Ficaram-me estas marcas para a vida... Nunca mais lá voltei, nem voltarei. Já está, já foi”, deixa escapar, por entre um baixar do olhar, para apressar o momento. “Passei os três meses seguintes no hospital a recuperar sem saber bem o que iria fazer da minha vida”. Depois, uma espécie de despoletar interno, trouxe-o de volta às origens e conduziu-o ao que mais gosta de fazer. “Voltei outra vez à montanha, regressei à Serra da Estrela, depois aos Alpes e dois anos mais tarde já estava noutro cume com mais de 8 mil metros. Provei a mim próprio que podia continuar a ser o mesmo e voltar a ser feliz”. Conseguiu superar mais um limite. “Sim, se vires as coisas por aí, sim!”.


Na cozinha com...
Quase meio dia. “Bem, por hoje, já chega de exercício”, exclama com a respiração acelerada do cansaço a que já se habituou, por entre mais alguns cumprimentos a “colegas” de exercício físico ocasionais que se vão aproximando. É quase hora de almoço, o sol está a pique e a fome “já aperta” o estômago.
Normalmente dedica-se ele próprio aos seus cozinhados, aproveita para repor massa muscular que perde nas missões, para se “tratar bem”, complementa. Antes disso, ainda vai passear a cadela, uma Rotweiller de dez anos de idade que toda a vizinhança já conhece. “Não faz mal a ninguém, é velhota já”, sorri, enquanto uma das vizinhas brinca com a Jimy.
Depois do banho tomado, o avental, a colher de pau, os temperos sobre a bancada de mármore. Depois, o refogado, o molho de tomate, a carne picada e”voilá”, um petisco à moda da montanha... “Esparguete à bolonhesa?! À moda do montanhista!”, humoriza.
“É um dos meus pratos favoritos, quase todos os dias como isto!”, deixa escapar com humor, enquanto observa o tempo da fervura da pasta. Antes, uma sopa de cenoura, “a melhor do mundo, aliás como a bolonhesa também”, graceja. “Sabes que lá em cima, praticamente só comemos sopas, alguns enlatados, e muita água, por isso temos de recuperar quando nos estamos em fase de preparação”.
João chegou há pouco mais de um mês da sua última expedição ao Makalu, montanha chinesa que é a quinta mais alta do mundo. Seguirá para o Broad Peek, no Paquistão, dentro de alguns dias, iniciando assim a escalada de dois meses que o levará até ao décimo primeiro dos catorze tectos do mundo que se propôs a “conquistar”. Apesar da proximidade da data de partida, a tensão já não se faz sentir como nas primeiras subidas. “Não penso muito nisso já... Lembro-me que antigamente lia e pesquisava imenso sobre a próxima viagem, agora vou simplesmente descobrindo as adversidades pelo caminho, vou conhecendo no dia a dia, a aventura é maior, dá mais gozo. Gosto de objectivos difíceis, tornam a aventura ainda mais saborosa”.

Escritor, realizador e... empregado de escritório
Durante a sessão de autógrafos onde promovia "Mais Além", a sua segunda obra de experiências feita, na Feira do Livro de Lisboa, não faltavam curiosos, procurando explorar o que os seus olhos alcançaram ao longo dos anos. João Garcia é de sorriso fácil, trato directo, silêncio penetrante, por vezes. Depois regressa.
Da janela da sua sala vê-se Lisboa ao fundo, com o Monsanto pelo meio. “É bonita a vista daqui não é?!”. Hora de ir para o escritório. “Passo grande parte do meu dia aqui, recebo dezenas de emails, tenho de tratar dos preparativos da próxima missão, responder a solicitações várias que me fazem, falar com amigos que estão por aí, espalhados pelo mundo, contabilidade, de tudo um pouco, uma espécie de bastidores daquilo que sou enquanto alpinista”.
Dois computadores, um telefone por satélite, um localizador GPS, a camera digital e o portátil preparado para baixas temperaturas, até um Ipod que resiste às baixas temperaturas, com a sua música, instrumentos indispensáveis à condição de alpinista profissional, espalhados pela sala transformada em lugar de trabalho. “Tudo material essencial para quando estamos lá em cima, para fazer os directos para a SIC, para os documentários, para me para não me perder! Gosto do silêncio quando estou sozinho, de estar comigo, com a minha música a ver o horizonte... Posso ouvir de Génesis, até Mozart, dependo do momento, do estado de espírito”, sorri.
Para além de alpinista, João Garcia é escritor, os seus dois livros em conjunto atingiram os cem mil exemplares vendidos, realiza documentários, é requisitado por empresas para palestras de autoconfiança e superação de objectivos, marca as suas próprias entrevistas e trata da maioria dos pormenores relativos a cada expedição. “Para continuar a fazer o que gosto tenho de me tornar num veículo publicitário, ter outras preocupações. Por exemplo, havendo apenas 11 pessoas no mundo que conseguiram este feito, eu, ao propor-me, acabo por conseguir traduzir o que vou conseguindo para algo que o público consegue perceber e que me permite continuar no fundo a fazer aquilo que mais gosto”.
Apesar do instinto apelar incessantemente à descoberta, à superação, o medo continua a não o atemorizar, utiliza-o até como elemento para despertar os sentidos. “Personifico aquele gajo que não quer desistir, como o ditado que diz que o magnífico não está em nunca cairmos mas em sabermo-nos levantar sempre depois da queda. Sei que posso não regressar um dia... Medo? Sim, faz parte! Faço isto para me superar, para eliminar as barreiras que tenho em mim. A existência é como uma montanha e eu estou no auge da minha. Todos temos um Evereste, este é o meu, é a minha vida”.