agosto 22, 2007

Serra d’Ossa renasce das cinzas





Há um ano, o Verão foi escaldante. As suas encostas que se elevam a norte com vista para as Serras Beirãs e para oeste, para a Arrábida e Montejunto foram inundadas pela ira do fogo. Doze meses depois, o regresso ao local para ouvir os intervenientes e estabelecer um ponto de situação no processo de recuperação da Serra d´Ossa. Alguns dos projectos estão já em marcha. As máquinas estão em movimento, os acessos terrestres foram melhorados, as árvores assassinadas foram cortadas e a seu lado, nascem agora novos rebentos de esperança num futuro que não pode esperar.

Por,
Pedro Cativelos


Faltam ainda alguns anos e muito trabalho e esforço político e social para que tudo volte a ser como dantes. Mas hoje, no seu mais alto cume, S. Gens a mais de 600 metros de altitude, parece vislumbrar-se um novo começo num ainda ténue respirar do pulmão de vários concelhos alentejanos… Por entre Estremoz, Borba, Vila Viçosa, Alandroal e Redondo, reergue-se de novo, majestosa na paisagem alentejana, a Serra d’Ossa.
Durante um quarto de século a Serra d’Ossa não sentiu o calor do fogo. Mas aquela que se ergue no coração do Alentejo, de origem e nome recuperado na ancestral história da geologia humana, carregada de mistério e misticismo, provaria o sabor da penumbra negra, encharcada em cinza nos primeiros dias do mês de Agosto de 2006, quando se tornou combustível para o gigantesco incêndio que lhe fez perigar a existência milenar. Populações, animais e haveres pereceram. A paisagem ficou mais pobre, calcula-se que em cerca de 5 mil hectares de fauna e floresta que terão sido consumidos sem perdão. As chamas, lavraram sem descanso ao longo de vários dias, atingindo áreas florestais integradas nos concelhos de Alandroal, Borba, Estremoz e Redondo.
A catástrofe desencadeou o Plano Distrital de Emergência e o envolvimento das diversas corporações de bombeiros e autarquias do Distrito de Évora. Muitos homens combateram ali um destino que muito dificilmente poderia deixar de ser… negro.
Mas a vontade humana, e a força do carácter de bombeiros, autarcas e fiéis amigos da natureza decidiram alterar esse ensejo, transformar ideias tantas vezes esvaziadas de acção em concretizações práticas para combater a tendência das coisas más. O Inverno prolongado também deu a sua ajuda. A "obra", essa, já está à vista.

"Reconquistar tudo o que se perdeu"

Em todo este processo de revitalização da Serra foram preponderantes as acções desencadeadas pela governadora civil de Évora, Fernanda Ramos. Desde o momento em que tomou conhecimento da tragédia, garantiu ser "fundamental continuar a preservar o património e reconquistar tudo aquilo que se perdeu", disse, há um ano atrás.
Desde então, o Governo Civil do distrito de Évora em conjunção com outras forças vivas da região tem vindo assim a promover um conjunto de encontros de trabalho entre os agentes envolvidos na problemática dos incêndios e as autarquias do perímetro afectado. Durante um ano avaliaram-se os estragos, perspectivaram-se soluções, iniciaram-se os trabalhos.
A recuperação deste recinto natural de excelência foi precisamente um dos objectivos que baseou a aprovação do projecto da Associação de Produtores Florestais (AFLOPS) que agora se apresta para avançar. A sua concretização conta já com algumas intervenções em curso (limpeza das matas, abertura de corredores de segurança, reflorestação localizada) e surge depois da candidatura da associação ter sido aprovada no final de Junho, pelo Ministério da Agricultura. Em declarações ao Diário do Sul, Nuno Santos Fernandes, vice-presidente da AFLOPS considera este como um "projecto renovador e inovador simultaneamente".
Todavia, para o responsável da AFLOPS, este representa apenas "um indispensável primeiro passo para a criação de um Plano Integrado de Recuperação da Serra d´Ossa, cuja reflorestação tem de ser feita de forma a que se acautelem os previsíveis riscos de outros grandes incêndios", reitera.
O Plano de Controlo de Erosão na Área Ardida da Serra d´Ossa, apresentado em Junho último, prevê assim uma comparticipação de 80 por cento por parte da União Europeia e do Estado português. A candidatura, única para toda a área atingida pelos incêndios, assentou num estudo desenvolvido pela Aliança Florestal (Grupo Portucel-Soporcel, detentor de parte substancial do eucaliptal ardido) com um único objectivo: "Afastar uma área sensível como esta dos potenciais fenómenos erosivos em área ardida", os quais, segundo a AFLOPS, "têm inúmeras consequências nefastas. As mais evidentes? Posso dar-lhe o exemplo da destruição de caminhos e passagens hidráulicas e a contaminação de águas… A mais longo prazo, a perda de solo produtivo pode ser um obstáculo terrível e atingir proporções assustadoras sendo praticamente irreversível", esclarece. Por isso, assevera, "temos de actuar com celeridade e espírito de sacrifício, até porque, ainda há um longo caminho para percorrer", alerta o dirigente da AFLOPS.
Hoje, a encosta Norte permanece manchada pela devastação, numa paisagem enegrecida ainda em alguns dos seus horizontes. Mas na terra, os troncos parcialmente ardidos já foram cortados. Renasce vida à sua volta. Em determinados locais crescem mesmo novos eucaliptos (que na década de 50 transformaram a serra no maior eucaliptal de Portugal), irrompem jovens plantas, regressam os bichos com a verdejante vegetação que já assimilou a terra queimada, transformando-a agora, em flores.
Não cheira mais a morte, e este Verão traz consigo um odor diferente daquele que por aqui passou há quase doze meses. Cheira a vida, outra vez.

Julho, 2007
Diário do Sul

agosto 21, 2007

“Sou inconsequente em tudo”



Iniciou-se na escrita em 1990 com o romance “O Nó na Garganta”. Inaugurou um novo estilo literário, dedicado às pequenas coisas que perfazem o mundo do quotidiano. Sensível, intimista, geracional, estrondosa no número de livros vendidos, quase tão imenso como a inusitada avalancha de seguidores. Mordaz, cativante, diferente, Rita Ferro apresenta-se em “O Sexo na Desportiva”, mutável como as suas palavras, ousada, natural como a vida que absorve “com intensidade absoluta”.

Por,
Pedro Cativelos
Fotos,
Patrícia B. Moreira


Com o livro nas mãos, como se sente ao olhar para ele?
Estou cada vez menos entusiasta na recepção de um livro. Já não sinto aquele sobressalto das primeiras obras…

Um novo estilo na sua escrita, agora mais condimentado…
É a primeira vez que escrevo sobre coisas mais picantes, misturando uma série de crónicas que fiz para a “A Bola” e para o “Correio da Manhã”. Tive algum pudor, confesso, mas são apenas histórias malandrecas e sempre redimidas pelo humor.

Onde se foi inspirar para “penetrar” neste universo do desporto e do erotismo?
Baseei-me num livro de desporto que tenho aqui e que fantasiava sobre isso, resultando daí diversas histórias de aproximação entre pessoas.

É uma mulher inconstante?
Vivo com uma intensidade absoluta, mas… normalmente nada é tão interessante quanto o imagino previamente, farto-me das pessoas, dos amigos, de mim própria, por vezes…

E da escrita, ainda não se fartou?
Sou inconsequente em tudo, mas não no sentido renunciante... Mudo a página! Na escrita, sei que não morria se não escrevesse, mas gosto de o fazer!

Criou um estilo, ou simplesmente o inaugurou entre nós?
Tenho a noção que não faço grande literatura. Mas sei que fui a primeira a trazer para Portugal um certo tipo de escrita que até aquele momento não existia no nosso país.

Mas mudou a face da literatura portuguesa. Para melhor, ou pior?
Isso trouxe consequências, e muitas, é verdade! Algumas boas, outras nem tanto…

Maio, 2007

As melhores praias do Alentejo




O Alentejo é feito de costas abruptas e encostas suaves, erguido nos montes, nascido nas plantações, renascido no turismo, alimentado na boa mesa, retemperado nas praias, muitas, das melhores que o nosso país tem a oferecer. De Tróia a Odeceixe, na fronteira com o Algarve, as finas areias brancas, diluem-se na paisagem do mar infinito, azul, contagiante, contrastante, como esta terra moldada nas ondulações enraivecidas do vento invernoso, mas emoldurada na memória da brisa cálida das Primaveras que se sucedem. Fomos conhecer as costas do Alentejo, muitas vezes esquecidas, outras tantas simplesmenete abandonadas, mas cada vez mais visitadas e traçamos-lhe um roteiro da outra face de um Alentejo que nunca é grande de mais para ser descoberto.

Texto e Fotos
Pedro Cativelos


Secularmente estas são terras de camponeses, pescadores e apanhadores de marisco… Agora, chegam turistas, curiosos visitantes, foragidos ao stress, surfistas… Mas a vida segue. Impávida, serena, como se quer. Os Alentejanos do Sudoeste, habitantes da Costa Vicentina convidativa ao descanso nos campos forrados de flores até às falésias, a pique sobre o mar em revolta sabem, mesmo sem darem por isso que, por aqui, o “Algarve” ainda está muito longe, e as mega-urbanizações e as auto-estradas são ainda projectos que não passaram do plano de papel. Estão degradados, a maioria dos acessos que conduzem a praias onde por enquanto ainda só é possível chegar de jipe, ou com muito espírito aventureiro, por entre cabeços cobertos de estevas agressivas. Mas a cada praia, mais ou menos recôndita que se avista, a sensação é impressionante e o ar, carregado de iodo, chega a arder quando se respira fundo. Cheira a descoberta, cheira a liberdade.

Beleza sem fim
Praias, dunas, falésias, charnecas, estuários e vales fluviais são alguns dos habitats onde vivem plantas e animais que constituem património natural desta região. É o caso de algumas espécies de plantas, como a Silene Rothmaleri e a Plantago Almogravensis, que tinham já sido consideradas extintas quando, nos anos 90, foram encontradas pequenas populações de ambas as espécies. Existem ainda as quase desconhecidas famílias de lontras que se estabeleceram nesta costa rochosa. Estes e outros motivos são mais do que suficientes para que zonas como o estuário da Carrapateira e a Praia do Castelejo, por exemplo, sejam visitadas por botânicos e zoólogos provenientes de todo o mundo.
A paisagem é alta e escarpada escondendo minúsculas praias abrigadas por entre as arribas esculpidas. Há momentos, de maré vazia, em que o mar se retira e faz descobrir uma areia plana onde a água se revela inspiradora para um belo mergulho de Verão.
No Sudoeste Alentejano, o tempo consolidou e modelou as encostas areníticas, ora rosa, ora ocre, ora encarniçadas... Cores com vida, num bem preenchido mapa dos sentidos, onde sobressaem os aromas do campo, das ervas de cheiro que por aqui servem de tempero e conserva aos frutos do mar. Se o Alentejo vive ao sabor da terra, deve acrescentar-se que também sabe sobreviver à sombra do Atlântico.

Tróia, Comporta, Melides… sempre à beira mar
Do Estuário do Sado pode observar-se uma grande diversidade de elementos naturais, que produzem uma paisagem verdadeiramente única. Começa aqui o Alentejo, apresentando-se hoje como um dos melhores exemplos de um litoral ainda pouco intervencionado, mantendo praticamente em toda a sua extensão a maioria das suas características naturais.
Entre o Oceano Atlântico e a planície alentejana, numa extensão de 45 km, desde o extremo da península de Tróia até à praia de Melides, a costa do concelho de Grândola, é a maior extensão de praia do país, uma mancha contínua de areal que se perde na vista do horizonte. Ainda antes, os martelos pneumáticos ocultam o ruído das gaivotas que pairam sobre as ondas, enevoadas pelo pó que anda no ar. Tróia está a mudar… e a crescer com o turismo.
Poucos quilómetros à frente, a praia da Comporta, que deve o seu nome ao sistema de canais de irrigação do vale de arrozais que se estende até ao Carvalhal. Situado no extremo sul da Península de Tróia, o seu enorme areal é chamariz para muitos veraneantes de ocasião.
Estando nos limites da Reserva Natural do Estuário do Sado, esta praia é um espaço natural preservado, onde se conserva a vegetação dunar original, rodeada por abundância de pinhal. Seguindo para Sul, Melides, onde a história falada relembra o naufrágio de Fernão Mendes Pinto, provocado por corsários franceses em busca de fama e fortuna. Naquela enseada terá conseguido a protecção de que necessitava… Hoje, por lá param mais de duas centenas de espécies de aves identificadas e protegidas, como o pato de bico amarelo, o galeirão de crista e a águia pesqueira.



S. Torpes e S. Tropez…
Mais a Sul, S. Torpes é a primeira praia que se nos depara após o complexo industrial de Sines marcando igualmente o início do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e a Costa Vicentina. Este extenso areal, encontrou o seu baptismo no destino da cabeça de um oficial romano morto por Nero, chamado Torpes, que por aqui, há muito, muito tempo terá dado à costa. O resto do corpo aportou em Saint Tropez (estância balnear no Sul de França), bem longe daqui, mas para sempre próxima. Pelo nome e pela histórica rocambolesca. Porventura para o livrarem do peso do castigo e do nome colocaram-lhe, tanto aqui, como em França, o São, para assim repousar, em eterno descanso.
Para trás, Sines, a mais industrializada localidade do Alentejo, com o seu Porto de abrigo a romper as águas até bem longe da costa e a gigantesca central termo-eléctrica de S. Torpes a descaracterizar a paisagem. O dourado da areia, mistura-se com a escuridão da fuligem libertada pelos muitos navios que ali passam e pelos fluidos escoados pela Central. Metros à frente, e se não olharmos o retrovisor, o cenário volta a ser edílico.
Para lá da lenda, e da crua realidade, ali começa a estrada alcatroada que, sobre dunas e falésias conduz até Porto Covo. A vista é única. O recorte da costa deixa mostrar as inúmeras baías de onde sobressaem as praias de Morgavel, da Oliveirinha, e as arribas da Samouqueira. Apetece mergulhar.




Aqui, no lugar de Porto Covo…
Hoje, a velha vila de pescadores que um dia Rui Veloso imortalizou em cantiga, já se estende para Norte, enchendo-se de pequenos aglomerados de casas muito recentes, geminadas, mas sem a traça das que permanecem no centro. Vale a pena ir até à praça Marquês de Pombal, setecentista, quadrangular à maneira das praças pombalinas. Tem uma igreja e fiadas de casinhas de uma porta e uma janela e barra azul, antigas casas de pescadores, transformadas em restaurantes, bares, artesanatos, cafés. Integrada no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e com o mar como cenário de fundo, Porto Covo é ainda uma pequena vila piscatória que se desenvolveu bastante nas últimas décadas. Mesmo junto à aldeia, a Praia Grande tem as características de uma praia urbana, com bons acessos e infra-estruturas de apoio. Rodeada de grandes rochedos que a tornam mais abrigada, é banhada por um mar de águas límpidas que, por vezes, tem uma ondulação forte apreciada, bastante pelos surfistas.
Ali bem à vista, a Ilha do Pessegueiro, para sul, com as suas falésias mais bem delineadas, com a praia em forma de concha a mirar a Ilha. Para lá se pode nadar ou navegar. Nela jazem os restos de um forte do tempo dos Filipes e o forte do Pessegueiro, do século XVI. A caminho de Vila Nova de Milfontes, as praias de Aivados e do Malhão estendem-se ao longo de sete quilómetros, cheios de recantos alheios à civilização popular.




Vila Nova de Milfontes
A costa começa a elevar-se a partir de Porto Covo e as falésias chegam até ao Cabo de S. Vicente. São 26 quilómetros de falésias que chegam a ter 45 metros de altura no Cabo Sardão, enraizadas nos verdejantes pinhais, que tão bem se familiarizam com os solos arenosos e com a brisa do mar. No centro de tudo isto a Vila Nova das Milfontes é apenas surpresa para quem já não a conhece. Sobretudo se se fizer a aproximação pela estrada que passa pelo Cercal. Vila Nova, no estuário do rio Mira, alva e caiada para o turismo de Verão, sempre cuidada. Na marginal, sobressaem os largos milhares de pessoas, acompanhadas pelas demasiadas centenas de carros que viajaram de todo o país para aqui repousar por uns dias. Ao lado de uma fila de trânsito e de uma outra para o Multibanco, a muralha do velho forte, construído em 1620, como está escrito no chão, na pedra da calçada. A água é fria, é de rio. Mas do outro lado, na curva do estuário as ondas já são salgadas pelo mar Atlântico. Apesar das muitas gentes que aqui vêm todos os anos, sente-se aqui Alentejo ainda. Basta levantar o olhar e reparar na outra margem do Mira. Fala-se numa mega urbanização que Luís Figo anda a tentar aí construir mas para já… Praias desertas, vegetação impenetrável, verdadeiro hino à Natureza…




Almograve
Para lá do rio, o areal estende-se por mais alguns quilómetros até Almograve, um dos mais bonitos percursos dunares que se pode observar… Por ali, as ondas são de mar e de areia esculpida pelo vento. A vegetação prende as suas raízes para escapar à fúria devastadora da hora de almoço de uma… manada de vacas que dali faz pasto e repasto.
As dunas alongam-se, com as suas encostas de areia avermelhada, ferruginosa até à Zambujeira, passando pelo Cabo Sardão, outro local que ainda conserva a essência do Alentejo litoral. A praia, rochosa, mas com bastante espaço para o mergulho livre de adultos e crianças, tem uma cor azul, especial, retemperadora, serena, acolhedora.
Zambujeira do Mar, um festival, a sudoeste…
Integrada no Parque Natural da Costa Vicentina e Sudoeste Alentejano, a Praia da Zambujeira do Mar está rodeada por falésias altas, de onde se pode apreciar um deslumbrante panorama sobre o Atlântico. Banhada por um mar de ondulação forte, com boas condições para a prática de surf e bodyboard, a praia está situada junto a uma povoação que se viu lançada na fama com o festival Sudoeste. Todos os anos milhares de jovens a visitam na primeira semana de Agosto, transformando-a numa espécie de Woodstock perdido no tempo e no sentido. Há papéis nas janelas. “Alugam-se quartos, chambres, zimmers…”. Para quem não quer acampar e tem dinheiro vivo no bolso, porque aqui, os preços disparam durante uma semana em cada ano. Depois, bem, regressa a tranquilidade.

Amália na praia e Odeceixe…
Já perto da fronteira com o Algarve, descobre-se, a praia da Amália, precisamente, o local onde passava largas temporadas e onde ainda existe a casa de Amália Rodrigues. Fazia-lhe bem o mar, costumava dizer, aquele pequeno sitio, de pescadores a navegar ao longe, em pequenos botes de madeira azul e branca com nome de mulher, numa estranha forma de vida, sem destino e com saudade. Antes, chamavam-na a praia dos girassóis… Faz sentido, porque também o sol é uma estrela que nunca deixa de iluminar.
A praia de Odeceixe é aqui tão perto. A terra é seca, e curta na distância que separa as duas margens da Ribeira de Seixe, a linha geográfica que separa as duas regiões.
O Alentejo está perto do fim. Pelo menos por aqui. Mas há ainda tanto por descobrir, tem de haver, pressente-se, por entre as lágrimas das ondas que se despenham de encontro à rocha milenar, no voar das garças do final de tarde, no corrupio das gaivotas perseguindo os homens que regressam da faina, no estrépito das folhas de pinheiros enleados pela agitação provocada pela mudança das marés. Tanto para perceber ainda nos sorrisos que se recebem com simplicidade, cúmplices deste território que ainda é tão selvagem e simultaneamente, tão humano.


Onde Dormir

Herdade da Matinha, Cercal do Alentejo, tel.: 962 944 285 (www.herdadedamatinha.com). Um monte alentejano com quatro quartos com cama de casal e cama extra. Em época alta, este turismo rural funciona em regime de meia-pensão, com pequeno-almoço com pão cozido em forno de lenha e jantares gourmet, usando só produtos da região e da horta biológica da herdade. Duplos a partir de € 70, em época baixa, e € 90, em época alta. Fica entre Odemira e Vila Nova de Milfontes.

Herdade Monte Velho, na estrada que vai da Carrapateira para Vila de Bispo. Reservas pelo tel.: 282 973 207/ 966 007 950 ou Fax: 217 938 086; www.montevelhoresort.com. Hotel rural com sete suites e dois quartos duplos, todas elas com decoração personalizada. Charmoso e com muito bom gosto. Preços a partir de € 90 em regime de APA, neste preço estão incluídos, passeios de BTT e de burro.

Monte do Papa-Léguas, Zambujeira do Mar, tel.: 283 961 470; www.montedopapaleguas.com; montedopapa@sapo.pt. Um monte tradicional alentejano, acolhedor, numa propriedade com cinco mil hectares, dentro do Parque Natural. Organiza vários tipos de percursos, passeios a cavalo, de BTT, a pé ou de canoa. Possui 5 quartos duplos. Preços a partir de € 52,38. Os preços de equitação rondam os € 22,45 por hora, a canoagem inclui 6 horas de viagem com almoço à beira-rio e visita às cascatas, este passeio custa cerca de € 30 por pessoa (mínimo 6 participantes).

Corte Pero Jaques, em Aljezur, tel.: 282 687 893/966 318 436; www.corteperojaques.pt. Turismo rural no alto de um monte em Espinhaço de Cão. Possui uma casa independente com nove quartos duplos, sala e cozinha, Preços a partir de € 109,74. Fazem também passeios de jipe na zona com prova de vinhos e jantar por € 29,93/pessoa.

Quinta de Pêro Vicente, a cerca de três quilómetros de Regil, entre Odeceixe e Aljezur. Tel.: 282 995 192; www.terrasdemouros.pt; E-mail: geral@terrasdemouros.pt. É constituído por três quartos duplos a partir de € 65, em regime de APA, tem também actividades artesanais, passeios de natureza, BTT, pesca desportiva, férias infantis.


Onde comer

Trinca Espinhas, Praia de S. Torpes, Sines, tel.: 269 636 379. Um restaurante de praia com esplanada muito agradável e decoração a condizer, oferece uma ementa constituída por sandes, saladas, hambúrgueres, cachorros, pregos no pão, tostas e petiscos como camarões fritos no alho, ostras, amêijoas, mexilhões, massinha do mar, picanha, conquilhas e uma cataplana à Trinca Espinhas. O preço de refeição custa cerca de € 17,46. Aberto das 12h às 00h.

O Sacas, Zambujeira do Mar, tel.: 283 961 151. Fica no porto de pesca. Especialidade: feijoada de búzios, chocos. O horário de abertura é das 8h às 2h da manhã. O preço por refeição ronda os € 17,46.

O Sítio do Forno, Situa-se na Praia do Amado, Carrapateira, tel.: 966 567 825/ 963 558 404. A especialidade da casa é peixe fresco grelhado, está aberto das 12h às 22h. Preço médio de refeição: € 15.



Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina
Estendendo-se ao longo de mais de 100 quilómetros de costa, desde Porto Covo no Alentejo, até ao Burgau no Algarve, o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina é o troço de litoral europeu melhor conservado, com várias espécies de fauna e flora únicas, sendo por isso visitado por muitos zoólogos e botânicos, oriundos de todas as partes do mundo.
O Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina estende- -se por toda a zona litoral compreendida entre S. Torpes e o Burgau. Abrange uma área com aproximadamente 70 mil hectares, expandindo-se por uma mancha de mar aberto com dois quilómetros de largura paralela à costa. Com um importantíssimo património do ponto de vista geológico, como da flora e fauna, possui cerca de 200 espécies de aves referenciadas (como é o caso da Águia Pesqueira, da Águia Bonelli, da Cegonha-Branca, Gralha-de-Bico-Vermelho e Falcão-Peregrino), 750 plantas, 48 das quais que apenas existem em Portugal e importantes colónias de raposas, ginetos, gatos-bravos e lontras.

Agosto de 2007,
Diário do Sul

“O meu mundo ainda não acabou”




Ruy de Carvalho, tem 60 anos de palco, outros tantos de casamento, mais alguns de idade, e muitos outros de experiências e sensações que dariam para preencher várias outras vidas, cheias, plenas… Contracenou com os maiores do teatro português, como Laura Alves, João Villaret ou Eunice Muñoz. Deu corpo às palavras dos melhores escritores e dramaturgos e emprestou a sua figura e voz à película de muitos filmes.
Para lá de carreira que já esgotou todos os prémios, sobram as memórias de toda uma vida, ainda a ser vivida, intensa, incessante como as pancadas de Moliére que lhe pautaram o destino e o trouxeram, emoção após emoção, até nós.

Por,
Pedro Cativelos

Foto,
Patrícia Moreira


Como é o seu dia a dia?
Normalmente, deito-me às 4 da manhã. Às vezes tenho muito sono. Tenho que estudar, tenho que preparar o trabalho para o dia seguinte e deito-me tarde. Se posso dormir um pouquinho de manhã, durmo, senão levanto-me. Não tenho nada contra o trabalho e gosto de estar sempre pontualmente nas coisas.

Ainda fuma?
Não tive nada, deixei de fumar. Não tinha realmente grande prazer engolir o fumo, era um prazer de mãos, talvez…. Na minha vida profissional de vez em quando acontece, acontece o cachimbo, acontece o charuto, acontece muita coisa, mas…

É conhecido o seu carinho pelos animais… A sua cadela tem observado atentamente a nossa conversa…
Sempre tive animais. Gosto de cavalos, leões, os tigres, logo que me respeitem… Há animais que tenho mais respeito, mas tenho interesse em saber como é que vivem, como é que andam pelo mundo. Porque vivi em Angola, passei a minha infância e adolescência muito próximo da Natureza.

É português de berço, mas cidadão do mundo, pela Viagem…
Nasci abaixo do Castelo de S. Jorge em 1927 e fui para África com 2 anos por causa do meu pai, mas depois vivi no Norte, em Évora, em tantos sítios.

Sempre viajou muito…
Devido à vida profissional do meu pai éramos todos obrigados a muitas movimentações. Tinha que mudar, como o carrossel do exército, portanto ele mudava e eu também mudava! Mudava de escola, de amigos (por isso arranjei amigos em toda a parte)… Tenho sempre saudades daquele mundo em que vivi.





Foi e é amigo de grandes personalidades da cultura portuguesa…
Por exemplo, na Covilhã, tive um companheiro de carteira que vocês conhecem e que eu muito estimo, o Alçada Baptista. É uma grande honra para mim ter um colega destes não é?! Por esta altura o meu pai passou à reserva e mudámos para Lisboa que é a minha terra de nascença. Nasci logo ali, por debaixo do Castelo de S. Jorge, já lá vão 80 anos!


Quando vê os Óscares não tem pena de não ter emigrado?
Talvez sim… mas acho que nunca o faria! Acredito que é cá que tenho de cumprir a minha missão.

O Portugal pós-revolucionário é ainda um sonho por concretizar?
Há situações que me entristecem… A nossa tão bela revolução não estar totalmente concluída. O povo nunca chegou a senhor quem mais ordena… Não ordena nada! Mas este é um país que eu adoro! Cada vez que vou lá fora gosto mais da minha terra, só que… às vezes não sabemos aproveitar o que temos, a beleza natural, a arquitectura, até as pessoas! O que me entristece é que muitas vezes não saibamos amar o Pais como ele é e que não consigamos ou queiramos cumprir plenamente perante o mundo o nosso papel social e histórico.

Por falar em Revolução, onde é que estava no 25 de Abril?
Olhe, estava numa garagem com uma avaria no cano de escape do carro e tinha de ir para fora filmar um realizador com o já falecido Manuel Guimarães. Estava de caminho para a Serra da Estrela, mas acabei por não ir! Felizmente! E depois fui confirmar porque estava tudo eufórico, era a revolução dizia-se na rua e já não houve trabalho para ninguém.

Pensa muito sobre o verdadeiro sentido da vida?
Não sei se viverei muitos mais anos, vamos lá ver…

Então?
Não tenho tempo para pensar nessas coisas!

O que lhe dá mais prazer?
O meu trabalho, a minha família, a minha música…

E no pouco tempo que não está a trabalhar, esse pensamento invade-o?
Mesmo quando não trabalho, tenho muita coisa para fazer, gosto de ler, de viajar, de ser um cidadão vivo, não adormecido.

Ainda trabalha muito, não está cansado?
Gosto de ter alguma comodidade, por isso trabalho muito! Acho que todos deveriam ter essa comodidade mas precisava de ter uma reforma melhor para não trabalhar tanto, mas como me deram uma reforma “caca” eu tenho que trabalhar mesmo! Tenho despesas que me obrigam, como a doença da minha mulher, a casa…

Só com a reforma era difícil…
Se eu tivesse só a reforma, morria vestido… Vestido e com pouca roupa!
Já estou reformado, desde os 65 anos, por isso é que eu digo que tenho uma reforma que não presta porque não me dá para fazer todas as coisas de que realmente gosto!


Ainda tem muitos sonhos por concretizar?
Acho que o homem que deixa de sonhar, deixa de viver, não é verdade? É preciso sonhar sempre, quando um homem sonha o mundo pula e avança, portanto o meu mundo ainda não acabou! Entretanto vou vivendo a vida, vivendo o mais possível, com intensidade, com algum prazer, com alguns desgostos, mas vivo, com as coisas de que me rodeio e de que mais gosto.

Junho de 2007,

setembro 28, 2006

Homens sem passado



Angola ocupa a maior parte das suas palavras, até na forma como as traduz para o mundo, com aquele sorriso que lhes coloca, mesmo antes de as imprimir na realidade, como habita nos seus livros… Angola democrática, Angola desenvolvida, Angola desigual, filha de uma África ferida, de uma colónia já longínqua, sobrevivente, persistente nos resquícios da guerra, mas onde também já se soltam, naquele horizonte que nunca acaba, as primeiras centelhas de esperança.
Predadores, ou os homens sem passado usurpadores do futuro, na nova obra de Pepetela.


Por,
Pedro Cativelos



Conte-me a história destes Predadores!

Eu tenho tentado registar um pouco do percurso de Angola, e este livro surge como a tentativa de retratar um grupo social que só apareceu depois da independência, e ao qual podemos chamar de uma nova burguesia, que se vai enriquecendo através de negócios mais ou menos ligados ao aparelho de Estado. Fundamentalmente é isso. O facto que é novo aqui, é que esta nova classe social, é de facto recente na nossa sociedade, e tem pouco a ver com a burguesia colonial, porque esta é eminentemente constituída por cidadãos angolanos.

E a corrupção acaba por ter um papel principal, numa máquina, chamemos-lhe assim, que tem como participantes não só os angolanos?
Esta burguesia angolana, e neste conceito cabem também muitos estrangeiros, incluindo portugueses, tem a ver com a ideia de que hoje, Angola é um sitio onde um certo tipo de pessoas pode enriquecer facilmente, se estiver nos sitio certo com as pessoas certas.
O livro aborda no fundo a ascensão de uma personagem-tipo, alguém que representa um grupo social emergente da independência. São os últimos 30 anos da vida de Vladimiro Caposso, uma história, um pretexto para contar a história de Angola.

Mas este quadro que descreve no livro, este panorama, não é alheio ao seu MPLA?
Já deixei o MPLA há muitos anos. Provavelmente haveria um modelo de desenvolvimento mais justo para o país, gerador de uma sociedade mais equilibrada do que aquela do tempo colonial. Por isso lutámos pela independência, mas houveram tantas interferências externas, muitas contingências resultantes de muitos poderes envolvidos, e muitos erros que nos fazem ser um país independente sim, mas com uma sociedade extremamente polarizada onde há um pequeno grupo muito rico e um grande número de pessoas a viver miseravelmente.

Todavia, e à distância de um continente, chegam os ventos que trazem notícias de esperança no desenvolvimento de Angola, havendo agora uma ideia generalizada de que aquele gigante africano começa agora a erguer-se…
Ultimamente, e especialmente depois da paz, e lamento que só depois de tantas mortes, ela tenha sido efectiva morrendo uma das duas pessoas que faziam a guerra…. Mas é o que se costuma dizer, que por vezes há mortes que vêm por bem! Obviamente que isto é uma ironia, mas o que é facto é que a guerra acabou logo. No entanto, nesse momento em que a paz se concretizou, as pessoas começaram a acreditar mais, e a visão de uma Angola como uma terra de oportunidade aumentou e solidificou-se.
Tornou-se fácil constituir e implementar empresas, o que fez com que verificasse um massivo investimento estrangeiro, que se traduziu também no regresso de muitos angolanos, principalmente jovens que tinham ido para o estrangeiro estudar ou trabalhar.


Mas apesar de tudo, verifica-se uma mudança, ou pelo menos, pressentem-se os primeiros sinais de uma melhoria social…

Do ponto de vista financeiro, económico, está tudo a andar muito depressa. O PIB cresceu 15% o ano passado! É um recorde mundial, este ano vai aumentar ainda mais, a inflação está perfeitamente dominada e há muito investimento estrangeiro! Estas são as boas notícias.
Mas com 13 anos de paz, julgo que já se poderiam ter feito mais coisas. Acho que está a haver um atraso enorme em determinados aspectos, como as vias de comunicação, por exemplo, para unir o país e desenvolver a agricultura.
Mas há indicadores, que aqui em Portugal se chama de macroeconómicos, palavra bonita esta, que são optimistas. Creio que daqui a alguns anos já se poderão ver os primeiros sinais de todo este desenvolvimento.

Todavia não me parece ainda satisfeito, longe disso até…
Mas de tudo isto não se sente ainda qualquer influência na sociedade, aí é que está! Continuam a haver as mesmas diferenças sociais, a mesma miséria, os mesmos ricos, a gastarem compulsivamente enquanto o resto da população vive mal, os cuidados de saúde, péssimos, o ensino continua fraco. Estamos a partir de tão baixo, que qualquer desenvolvimento é um salto grande.
No entanto também não vejo razões para ser pessimista… Sinto que o país está a caminhar agora com um certo ritmo de crescimento! O próximo ano é muito importante, por causa das eleições. São decisivas mesmo para o nosso futuro enquanto angolanos. Ganhe quem ganhar, é importante que corram bem, que sejam limpas e que não haja contestação! Sabe que há uma parte da população que tem medo de votar, porque acha que depois das eleições vai haver guerra!

O MPLA acaba por ser o único partido com dimensão governativa, por assim dizer?
Em Luanda podem haver surpresas, talvez o MPLA não venha a ter as maiorias que pensa ter, mas no resto do país ganhará esmagadoramente.
Até porque a oposição é muito fraca! É assim como a mangueira, a árvore que dá mangas. A folhagem é tanta e tão espessa, que o sol não passa. Em baixo de uma mangueira não cresce nada! O MPLA é um bocado assim! Os outros partidos da são ínfimos e mal organizados, a UNITA continua a ser o grande partido de oposição, mas perdeu muita influência.

Há ainda uma enorme diferença entre Luanda e o resto do país?
É verdade. Basta dizer que consome mais de 50% do orçamento geral do estado! Luanda tem quase um terço da população de Angola. Metade dos angolanos vivem na faixa litoral. No fundo temos um país quase vazio por dentro.

Como é que Angola o lê?
Os meus livros são bem recebidos. Acredito que algumas pessoas ligadas ao poder possam porventura não gostar de algumas personagens que fui criando! Mas acho que ao nível da população são bem recebidos.
È preciso não esquecer que os livros são um luxo extremamente caro em relação ao salário médio! Só uma minoria pode comprar e ler livros! E em relação ao limite legal do salário mínimo, ninguém se preocupa, é formal, é para a função pública…

Então e fora da função pública?
Paga-se menos que isso ainda! (esboça a ironia com um sorriso)

Luanda continua sendo uma das cidades do mundo onde o custo de vida é mais elevado…
As Nações Unidas fizeram um estudo sobre as capitais mais caras do mundo e Luanda era a segunda, atrás de Tóquio! Para um país onde a população é miserável, e os que têm tempo não o podem desviar dos negócios, porque tempo é dinheiro, ninguém pode comprar livros!

E esses, logo os que tinham dinheiro, são os visados pela ironia frontal deste novo livro!
Ainda por cima! Mas como acham que isso é sempre a falar do vizinho do lado… (lança uma sonora gargalhada!).
Falando um pouco mais a sério, é este o problema dos livros, são sobretudo os jovens que os procuram, mas são esses mesmos jovens que não têm dinheiro, nem sequer bibliotecas onde possam ler! Isto reflecte um pouco um dos nossos dramas, de uma juventude com poucos hábitos de leitura.

Prossegue na sua aventura de professor?
Sou professor de sociologia para arquitectos urbanísticos. Normalmente uma parte deles, quando se formam, conseguem ser arquitectos, uma minoria, a maior parte não o consegue e acaba por entrar no aparelho de estado. O meu curso é uma espécie de anti-política urbana actual! E é interessante que eles depois vão para o estado e começam a autorizar construções e a promover isto e aquilo, e eu nunca estou de acordo com aquilo! Então, quando os encontro digo-lhes, “ eu não te formei para isso que andas aí a fazer!”.
É esta ligação que me prende ao que faço. Fico a conhecer os jovens, mantenho-me perto das suas experiências, das suas frustrações, das suas lutas, que utilizo como material para mim, como pessoa, e como escritor também obviamente.


Regressando um pouco ao campo das letras… Esta aparente mudança de estilo, de Jaime Bunda para os Predadores, como a explica?

O Jaime Bunda no fundo era mais humorado, funcionando como sátira. De vez em quando gosto de fazer outras coisas, diferentes! No fundo preciso de ir mudando, para evitar a repetição! Apesar do tom ser diferente, sou capaz de encontrar uma sequência entre o Mayombo a Geração da Utopia e este…é mais ou menos o mesmo tipo de narrativa, e embora diferentes, funcionam como o registo da evolução de uma sociedade durante uma certa época.

Essa incursão nos policiais foi assumida como uma forma de tentar captar novos leitores. Resultou?
Parece-me que sim, muitos jovens leram esses livros e interessaram-se depois por outros que eu tinha escrito.

Como funciona a sua rotina de escritor?
Quando começo um livro, trabalho-o até o acabar, sem interrupções. Normalmente escrevo de manhã, até ao meio-dia, nalguns caso, raros, continuo à tarde. À noite é que nunca… o que até é estranho porque os primeiros livros foram sempre escritos à noite. Mas depois, a partir do momento em que ganhei uma certa independência, comecei a dispor das manhãs para mim e para os meus livros.
Escrevo todos os dias, excepto ao Domingo. Domingo é dia de praia! Para ser verdadeiro, às vezes Sábado também é dia de praia, que já não fica a 5 minutos de casa, como dantes, por causa do trânsito…

E o Verão é quase uma constante…
No Inverno as praias estão cheias de estrangeiros… A água está aí a uns 20 graus, o que para nós é frio! Quando os russos entram na água até sai fumo (um grande sorriso!).


Angola é um pedaço de chão, conde cabem todos os pedaços do mundo?
Temos desde a floresta equatorial até ao deserto! Todas as paisagens do mundo, grandes planaltos, grande parte do país está a mais de mil metros de altitude ou mais, montanhas, rios, tantos, floresta… Neste aspecto é brilhante! Quanto ao clima, temos o calor do norte e do litoral, e o frio do interior, que chega mesmo a ser muito, muito frio. Há uma grande diversidade, em tudo, por exemplo nos tipos de agricultura, da tropical à mediterrânica.

Sei que, ao contrário da opinião da esmagadora maioria dos angolanos, não lhe agrada muito a ideia de ver Angola no mundial de futebol. Porquê?
Os dias que se seguirão ao jogo que decidiu o apuramento da nossa selecção, foram de facto fantásticos! Gerou-se um espírito de enorme unidade nacional, de alegria, foi uma festa colectiva e nesse aspecto foi muito bom.
Quando faltavam poucos segundos para acabar o jogo saí de casa para ir festejar. No momento do apito do final do jogo, e isto de que lhe falo não é uma imagem literária, ouvi a cidade a gritar! Fiquei arrepiado, e por segundos achei que valia a pena.
No entanto os aspectos negativos vêm agora. Eu sei que isto é politicamente incorrecto, mas o que é verdade é que Angola joga mal, não tem grandes jogadores, e vai gastar-se muito dinheiro com tudo isto! Até porque à margem surge toda uma gente a aproveitar-se deste dinheiro, para viajar e viver bem à custa do Estado!


Da última vez que havíamos conversado, há cerca de dois anos, referia-me que observava os portugueses um pouco tristes, em relação a visitas anteriores que havia feito ao nosso país. E agora, como nos encontra?
Se dantes estavam tristes, agora estão deprimidos! Mas em princípio, como já se bateu no fundo, e como se diz em Angola, é sempre a subir! (sorri)
Mas um pouco mais a sério, se vier de Espanha para aqui nota-se a diferença. Os espanhóis riem-se com muito mais gargalhadas, falam alto, estão muito mais bem dispostos que os portugueses. È um aspecto da cultura dos povos, e aliás é uma tremenda defesa psicológica ser capaz de rir em qualquer sitio, em qualquer circunstância, mesmo da morte. Aliás no caso de Angola, uma das armas que tivemos para resistir ao longo dos tempos foi a capacidade de rir de nós próprios.
Nós dançamos e cantamos nos funerais! E agora levam umas colunas de não sei quantos décibeis, que barulheira…!
Continuo a notar uma diferença na sociedade portuguesa em relação há 6, 7 anos atrás, altura em que os portugueses me pareciam um pouco mais exuberantes, devido à integração europeia. Isso notava-se no metro, falava-se mais alto…há dois anos pressenti uma certa tristeza no ar, e agora também…

Estando quase a terminar a nossa conversa, não posso deixar de lhe perguntar como se sente hoje, nos dias que correm, Feliz?
Estou bem! Com o país… (engelha a face) Esperamos sempre mais! Mas também temos de arranjar uma maneira de refilar, sempre! A indignação é saudável, sabe?! De um modo geral acho que as coisas irão melhorar!
Mas posso dizer que estou razoavelmente Feliz, sim. Não com aqueles dramas existenciais, não muito preocupado com o mundo… O que é verdade é que já não tenho grandes ilusões sobre o mundo! As pessoas são como são, a sua natureza é como é…


Predadores
Pepetela
Dom Quixote

Homem, Jesus, Deus e Igreja



Os Segredos de um Código Da Vinci que nos mostra Jesus “como nunca havíamos imaginado”


Por
Pedro Cativelos


Dan Burstein é um jornalista premiado e autor de vários best-sellers sobre assuntos que atravessam o oriente tecnológico, focando os mistérios e as complexidades do futuro. “Segredos do Código” é assim o seu primeiro livro cuja temática recai sobre a relação entre os mistérios e as lendas, por oposição à realidade de um passado histórico, por isso, real.

O Código da Vinci, de Dan Brown, despertou um amplo interesse pelas pesquisas que serviram de fonte ao seu autor. Em todo o mundo, os leitores querem saber o que são factos e o que é ficção, e isso tem sido matéria-prima de muitas controvérsias. “O Código Da Vinci, teve o mérito de nos mostrar Jesus como nunca o havíamos imaginado! Um revolucionário, como Fidel, Lenine, Che Guevara, todos casados, todos com família… São assim levantadas uma série de hipóteses. Quem seria então, porque não teria sido casado, até porque era um profeta, e na altura, eram quase todos casados, teve filhos, como reagiu a Igreja, no decorrer da história dos séculos, a estas hipóteses?”

Existem já cerca de 24 livros dedicados à teorização da verdade em torno da verdade sobre a existência de Jesus, publicados na sequência do best-seller de Dan Brown.
Para o escritor norte-americano, a sua obra “tem a diferença, em relação a todas as outras que se debruçaram sobre o problema colocado pelo Código Da Vinci, de exibir todos os pontos de vista sobre o tema. Desde os teólogos da Igreja, aos cientistas, aos historiadores, às feministas, e todos os mais credíveis peritos estudiosos da matéria. No fundo reúno as teorias existentes e estabeleço uma conclusão com base nos cerca de mil livros que li sobre o assunto, e no que agora se sabe ser absoluta e cientificamente a verdade”.

Em Segredos do Código, Burstein tenta distinguir o que são realmente factos, o que se construiu a partir de especulações baseadas em dados relevantes e o que é pura ficção romanceada. “Depois de investigar cheguei à conclusão de que o livro de Brown é em grande parte folclore! A outra parte é… romance!”. No entanto o investigador norte-americano identifica uma das virtudes do Código Da Vinci, “que como obra que todos leram, em casa, nos transportes, na praia, proporcionou à opinião pública dos quatro cantos do mundo, a possibilidade de partilhar uma visão básica da vida de Cristo. Isto acarreta que muitos pensamentos, e avaliações que nunca foram feitas a esta escala global, por tanta gente dos mais variados estratos sociais, nos sejam agora familiares. No fundo, abriu-nos os olhos para muito que nunca víramos ou sequer pensáramos”, explica. Ainda na apreciação à obra de Dan Brown, desdramatiza o facto do conteúdo conter incorrecções históricas, preferindo relevar “ as reflexões que nos impõe, quanto ao papel da mulher na Igreja, da espiritualidade na nossa vida e do que realmente Jesus representa para nós. A este nível considero o Código Da Vinci uma obra muito importante, não em termos de precisão factual.”

Os factos e as imprecisões do Código

A primeira e porventura maior falsidade apontada por Burstein ao Código Da Vinci tem concretiza-se precisamente no nome. “Leonardo não pintou o que se quis fazer parecer! Era um homem brilhante, multidisciplinar, que se interessava por todo o tipo de conhecimentos. Questionava o papel da mulher em toda a estrutura social e religiosa, desenvolvia a leitura de livros heréticos e construiu ideias que explanava em alguns dos seus quadros, e que nada tinham a ver com a época, mas também com algum tipo de verdade relacionada com a vida de Jesus”.

E esta certeza apresentada pelo autor americano, baseia-se na “completa fraude intencional que é o Priorado do Sião”, sociedade secreta de laivos maçónicos de que teriam feito parte, ao longo do tempos, o próprio Da Vinci, mas também Newton e outros nomes grandes do pensamento europeu. A esta agremiação incumbiria perpetuar o grande segredo da história da humanidade, o de que Jesus teria sido casado com Maria Madalena, que ela seria mesmo a principal dos seus discípulos, e que dessa união havia nascido uma filha, Sara, que ainda pequena viajaria para o ostracismo do sul de França na companhia da sua mãe, Maria, mãe da filha de um Cristo assassinado.

Há também a misteriosa e súbita ascensão da ordem dos templários, explicada no livro de Dan Brown como resultante da descoberta de provas relacionadas com este acontecimento. No entanto Burstein não acredita nesta versão apresentada por Brown.

“Creio que o enriquecimento dos templários se deveu sobretudo aos conhecimentos trazidos de uma região que estava mais desenvolvida que os antigos povos europeus, possuindo alguns saberes e práticas relacionadas com alquimia e misticismo, apreciados na Europa daquela época e sobretudo pela Igreja. Acredito que os templários negociaram com Roma, tornando-se sem saberem na primeira grande empresa da história humana”.

Jesus era um revolucionário
Numa noite de insónias. Dedicou-se à leitura de um dos livros mais vendidos de sempre, sem qualquer intenção que não a de perceber o porquê de “tanto alarido em redor desta obra. Percebi porquê na manhã seguinte quando o terminei!”. Daí, até ao começo da sua investigação pessoal, obedecendo à mera curiosidade, distaram horas, até à conclusão de uma obra, vários meses. “Pegando nos livros, nas fontes referidas por Dan Brown, fiz a minha própria investigação, mas houve pensamentos que nunca foram alterados. Sempre tive a ideia, reforçada através da pesquisa que ia desenvolvendo, de que Jesus era um idealista, em verdadeiro revolucionário, descontente pela ocupação romana do seu território, e ainda mais pela permissividade corrupta dos líderes judeus a esta situação. Pelo seu carisma e poder de liderança natural, Jesus da Galileia assustava os líderes políticos da sua região, o que acabou por ditar a sua morte”.

Mas a imensa distância que se atravessa entre esta interpretação, e o significado que ao longo dos séculos foi atribuído à vida, e ao seu legado, é algo que segundo Burstein se explica pela “sede de poder que é natural da condição humana, e que em determinados períodos se agudizou atingindo patamares completamente desumanos.

A Igreja é a maior e mais lucrativa instituição construída na história, e foi, é e será dirigida por homens, com tudo o que isso implica de virtudes e defeito. Os escritos seleccionados para a Bíblia, a base dogmática desta gigantesca organização, e estou ciente do que a palavra seleccionados significa neste contexto, foram-no de acordo com uma realidade que queria ser primeiramente construída utilizando por base a vida de um grande Homem, depois composta com influências culturais e místicas gregas, hebraicas, persas, romanas, e tantas outras. Temos de reconsiderar tudo o que tínhamos como absolutamente verdadeiro, e isso só pode ser bom!”.

Segredos do Código
Dan Burstein
DIFEL

dezembro 20, 2005

Alive and Kicking



Jim Kerr, highlander vocalista compositor dos Simple Minds, filhos dos 70´s, progenitores dos 80´s, em conjunto com os U2, Duran Duran, Tears For Fears, Depeche Mode e alguns outros, mas também intérprete dos seus problemas, das suas dúvidas, sobrevivendo de prazeres simples, numa história que já toca quase os trinta anos.
Por entre as sombras, por entre as luzes deste Black and white 050505, é fácil reconhecê-los, afinal porque ninguém se esqueceu deles!

Já viveu em Portugal, agora, escolhe a Sicília para lar, e para laboratório de um regresso às origens…

É verdade sim, vivi em Portugal durante algum tempo, no Algarve, em Monchique, uma localidade aliás lindíssima, que me trazia calma, e paz.

Depois descobri a Sicília, que não é assim tão diferente… Não sei ao certo onde está a minha verdadeira casa! Acho que esse sentimento tem por objectivo sobreviver dentro do nosso coração, e nunca de lá sai. É até irónico que Sicília faça parte do retorno aos palcos da música!

Porquê irónico?

Pelo repouso, pelos sentimentos que me traz, pelo conforto que me oferece, pela sensação de acolhimento tão idêntica à que sinto que na minha Escócia, tão fria e chuvosa. A aparente contradição advém disto mesmo. Toda esta harmonia influencia-me a escrita, os pensamentos, fundindo-os com o meu mais profundo Eu, e acaba por me conduzir de novo à estrada com os meus companheiros, e a uma vida que já não esperava.

Mente simples, em corpo são…

Pode-se dizer isso, sim… Todos os dias me levanto bem cedo, por volta das 6 horas, tomo o meu café, e um bom pequeno-almoço, e sento-me a escrever, a compor. Até ao final da manhã faço apenas isto. Depois sei lá… vou para a praia, vou jogar à bola com os meus amigos, vou passear, conhecer tanto que ainda não conheço! Tenho 50 anos, não fumo, não bebo, mesmo sendo escocês! , e sempre que acordo sinto uma energia enorme em saborear um dia mais, em alimentar a minha alma o melhor que conseguir.

Pode ser este considerado um capítulo, ou melhor, uma estação de uma longa viagem que iniciou ainda jovem?

Só o poderei dizer se um dia virar a página, ou prosseguir para outro destino, mas agora não penso nisso.

Mas sempre foi um viajante…

Sempre fui bastante agitado. Eu e o Charlie Burchill (guitarrista e compositor) fomos à boleia quando tínhamos aí uns 16 anos, e acabámos por conhecer toda a Europa. Nesse tempo a vida em Glasgow era miseravelmente dura, cinzenta. Felizmente que agora atravessa um renascimento, uma nova fase! Mas voltando um pouco atrás, este trajecto, ainda bastante cedo na minha existência, ensinar-me-ia a observar o mundo, ou uma parte importante dele, de uma outra forma, de perceber a pequenez de uma ilha, de um continente, e construir a percepção de conjunto, por oposição à ideia de isolamento social, cultural e humano.

Quando se conhece uma língua diferente, todo o seu universo, a nossa mentalidade altera-se para sempre…

Dos roteiros sem destino, ao regresso às partituras em folhas de papel canção…

Muitas vezes um tema nasce de algo tão pequeno! É curiosa, e muito misteriosa essa evolução, sabe?! Existe por vezes uma tal concentração de ideias, que se torna essencial o respeito pelo espaço, para que a mensagem não se esbata. È importante o contraste, as sombras e as luzes, essa relação, esse equilíbrio é essencial.

Black and White 050505, é um regressar a esse jogo de equilíbrios…

Mais que um desafio é um reanimar, um reavivar de velhos fantasmas… Queremos provar neste trabalho que podemos fazer um pouco de tudo, encarnando várias facetas, umas mais intimistas, outras mais vastas, no fundo reactivar a nossa expressão de banda de clube.

Um renascimento também pessoal?

Houve períodos em que me distanciei da música, em que estava cansado, muito mesmo. Estive 4 anos sem criar nada, sem sequer sentir falta disso, creio eu…

Até que…

Um amigo, me desfia para tocar algumas coisas para ele, e acabo por reencontrar a música. Sabe que quando se faz uma coisa durante tanto tempo, deixa de ser profissão ou carreira, ou mesmo dinheiro, e passa a ser uma forma de vida. Não poderia ter outra. Não seria eu de outra forma.

O último impulso estava assim dado?

Depois peguei no telefone falei com eles, juntámo-nos e tudo começou outra vez! Queríamos no entanto fazer um álbum com um som contemporâneo, mas onde se pudessem reconhecer as maiores marcas dos Simple Minds.

Parece reflectir-se na composição deste novo álbum, a inconstância da vida, dos altos e baixos que todos atravessam... É difícil encarar a mudança, como pessoa, tanto quanto banda?

Não há manuais, apenas o instinto, que saindo um pouco do âmbito da música todos possuímos, e utilizamos para lidar com as situações difíceis que a vida nos coloca. Como conjunto de músicos, já tocámos para milhares de pessoas, para estádios cheios, mas isso não pode afectar a nossa disposição actual. Considero uma sorte poder fazer o que faço, há muita gente que não pode viver o seu sonho, concretizá-lo.
Acima de tudo sou pragmático, tento viver cada momento no palco como se ele fosse essencial para cada pessoa que está lá do outro lado, e gosto de pensar que consigo transmitir algo a quem me está a ver, nem que seja só uma pessoa!

Pode o sucesso actual de bandas contemporâneas dos Simple Minds, como o são os U2, os New Order ou os Depeche Mode ser inspiradores?

Sim, e vejo-o em tantos outros casos, como Bob Dylan, Neil Young, Lou Reed ou David Bowie, que além de serem referências para as pessoas o são também para as editoras.

Como observa o mercado musical de hoje, em comparação com o de há quase trinta anos, quando abandonaram os pubs de Glasgow, partindo para os discos de vinil?

Quando o showbusiness nos entra pela porta, quer-me você dizer?! A minha atitude mantém-se a mesma, desde esses tempos. Continuo a querer fazer o que então fazia, com a mesma humildade, com a mesma dignidade. Continuo a querer ser brilhante!

E a primeira digressão em tantos anos?

Temos ainda um dos primeiros espectáculos pré-tournée digamos assim, aqui em Portugal, (no Outlet de Alcochete) que espero que corra bem. Depois estaremos parados e só em Janeiro partimos de facto para a estrada. Como me sinto? Normalmente estou em melhor condição no final do que no início, é tudo uma questão de ritmo. Mais que tudo estamos muito entusiasmados por poder de novo viajar juntos, de levar os nossos velhos clássicos, assim como as nossas novas ideias, aos públicos que existem por esse mundo fora.


As Faixas de Black and White 050505
Recordando os ecos do clássico “New Gold Dream (81-82-83-84)”, a sugestão do nome do mais recente trabalho dos Simple Minds tem precisa relação com o último dia de gravações.


Stay Visible

Sobreviver

Home

O primeiro single. Foi escrita na Sicília, um dos locais que me faz regressar, não sei bem ao quê, nem aonde, mas que me faz sentir humano.

Strangers

Creio que é uma metáfora, caracterizadora daquilo que sentimos quando queremos afirmar uma posição, mas não conseguimos ultrapassar o nosso próprio medo.

Different World

Numa dinâmica global em que impera a mediatização e os seus efeitos, a evocação dos mundos que ainda existem, como espelho, dentro de nós próprios.

Underneath the Ice

Quando sabemos, mas receamos. Quando devemos, mas sem perceber porquê, não concretizamos.

The Jeweller, Part 2

O processo miraculoso que conjuga a realidade, tornando-a fantasia.

A life shoot´in Black & White

Representa o início de toda uma nova fase, pois foi a primeira música que idealizei após um período em que estive longe da música.

Kiss the Ground

A proximidade, a intimidade que considero essencial, entre o Homem e a Terra.

Dolphins

Imagino-os como um ser carinhoso, amigável e pacificador. A canção fala de um homem que se sente desligado de tudo, esquecido, ou perdido, nas profundezas da vida, mas que encontra esperança, quando observa este maravilhoso ser emergir das águas escuras.


Pedro Cativelos, Outubro de 2005

outubro 26, 2005

Eternidade do Efémero


Escreve quando sente que tem de o fazer, à mão, como sempre. Foi jornalista, professor, e gosta de nadar desde que aprendeu no rio Ardila do seu Alentejo, ainda criança.
Após meio século debruçado sobre o papel, libertando a tinta nas palavras, e as ideias, os sonhos, em cada letra, Urbano sobrevive semeador de sensações, comunista sem ilusões, insubmisso desenhador de brisas fátuas, nas Máscaras Finais de uma Terra Ocupada só por si. Apesar da Hora de Incertezas, Nunca Diremos Quem Sois, mas nesta Estação Doirada que é a vida, reconhecemos quem É.

Onde escreveu pela primeira vez?
Foi precisamente em Moura, vila alentejana onde nasci, e que é para mim uma das mais belas terras do mundo, com o castelo, a mouraria…marcou a minha vida… lá escrevi a pela primeira vez, uma história de índios e cowboys, que acabei por deitar fora!
Aos 12 anos, vim para Lisboa, embora continuasse a ir para lá durante as férias de Natal e da Páscoa, e foi aliás num destes períodos que escrevi Bastardos do Sol, o meu primeiro romance, curioso…Lembro-me perfeitamente, era princípio de Verão, demorei 20 dias a escreve-lo, comecei em Moura e acabei em Sines, já noutro Alentejo.

E quando deixou de deitar para o lixo o que escrevia?
Por volta dos 17 anos, comecei a escrever coisas que guardei, mas também tive a sorte de encontrar um fantástico professor, que se tornou depois meu amigo, Jacinto do Prado Coelho, que me aconselhou e encaminhou e publicou o meu primeiro livro. Precisava desse estímulo, de alguém que me dissesse: “Você tem talento. Ainda está verde, ainda tem de descobrir tanta coisa, mas continue, que o seu caminho é esse!”. Devo-lhe muito.

Provavelmente, essa visão do mais nobre dos espíritos da docência tê-lo-á também encaminhado para vir a ser professor anos mais tarde, e porventura cumprir esse papel de “tutor literário” com alguns dos seus alunos?
Certamente que sim. Comecei como assistente do Vitorino Nemésio em Literatura Portuguesa. Depois ele foi para o Brasil e eu fiquei como regente dessa disciplina, o que me dava um bom ordenado para a época.
Há antigos alunos meus, como o João Rui Freire, a Joana Gorjão Henriques, hoje redactora do Público, e alguns outros que eu gosto de pensar que ajudei a revelar, sim.

Mas, por questões políticas, essa fase durou pouco tempo…
Com a campanha de Humberto Delgado, fui afastado, e acabei mesmo por ser proibido de ensinar, e só regressei à actividade com o 25 de Abril.

E depois dessa longa e negra cortina de repressão, como recebeu o 25 de Abril, como O Dia Último e o Primeiro, história que publicou em A Estação Dourada?
Esse era uma espécie de conto, que falava do fim de um romance de dois jovens enamorados, precisamente no dia 25 de Abril. Na realidade, esse foi um dia lindíssimo. Não só o vivi com uma grande alegria mas com um grande empenhamento. Recuando um pouco, trabalhava em dois jornais, no Diário de Lisboa e no Século, onde era o redactor da noite, o que fez com que estivesse muito próximo de tudo o que aconteceu. Eram três da manhã, fiz a barba à pressa e fui a correr para o Rádio Clube, e depois para a Rua do Arsenal, onde estive com as tropas, e depois para o Carmo, onde abracei tanta gente que não conhecia, e onde esperávamos todos pela transformação de que precisávamos.

Imaginou, nessas horas, o que seríamos hoje?
O que vejo, é que chegámos a um ponto em que estamos completamente dependentes da Europa. Hoje seria impossível uma coisa como o 25 de Abril em qualquer país da União Europeia.
Atravessamos uma situação preocupante… Não sou nenhuma Padeira de Aljubarrota, mas não consigo aceitar de animo leve a simples sugestão que por aí se vai configurando, de um estado Ibérico. Há uma insurreição dentro de mim quando penso nisto. Mas a verdade é que economicamente dominam Portugal…

E a Esquerda, em concreto o seu Partido Comunista, onde se encontra?
Julgo ser necessário um relacionamento profundo entre intelectuais, sindicalistas e trabalhadores, para que se caminhe para a Europa dos Cidadãos e não para a Europa das transnacionais.
Não gosto de sectarismos, e não gostei de algumas coisas que se passaram no meu partido e contra as quais me opus e me oponho. Com o caldeamento de proveniências que sempre foi Portugal, com grandes benefícios para o nosso desenvolvimento enquanto nação pluri-cultural, torna-se urgente observar que os mais excluídos não são hoje os operários mas sim os imigrantes que sobrevivem em condições deploráveis, desumanas mesmo. Se o PC souber acompanhar estas novas realidades, como me parece que está acontecer, poderá sem dúvida crescer, e fazer acreditar ser possível atingir uma democracia a caminho do socialismo, com crítica, com vigilância, com vontade de fazer melhor. Acredito numa leitura Marxista da história.

Ainda no campo das revoluções, das manifestações humanas, das mais simples às mais complexas, pressente-se a falta de espontaneidade nas sociedades modernas. Há ainda espaço para a liberdade individual?
Somos cada vez mais controlados por uma espécie de Big Brother, que é o próprio mundo da imagem, da informação, dos ficheiros, onde cada vez mais se nota a perda da autonomia, do gosto pela vida. Estamos hoje, e sem nos darmos conta disso, culturalmente colonizados, e não só nós, como toda a Europa. Este tipo de sociedade, do ´salve-se quem puder` aprisiona precisamente a espontaneidade, de sermos e existiremos como indivíduos. As desigualdades sociais, a falta de emprego, e tantos outros problemas, levaram a que se tenha perdido muito em originalidade, efectividade e intervenção.

Sobrevivemos num mundo de homens imperfeitos, de oprimidos e opressores?
Sim, um mundo de guerras. Na minha juventude sonhava num mundo diferente, que os homens aprenderiam a viver de uma outra maneira. Isso ainda não é verdade... e não sei se algum dia será...

Mas é um optimista desiludido, ou apenas um crente na esperança…?!
Até certo ponto sinto-me desiludido, sim, mas não deixo de acreditar que é possível conseguir melhor do que aquilo que temos. Existem ainda alguns movimentos de orgulho colectivos como os festejos do Europeu de futebol, ou a grande corrente de solidariedade por Timor, em que de facto, tal como em Abril, fomos ouvidos em todo o mundo, e com resultados práticos na vida daquelas pessoas que ali agora vivem, apesar de todas as dificuldades, a democracia.

Nota-se em Portugal um certo cinzentismo, um certo silêncio entre as pessoas, na rua, nos transportes públicos… Como ilustrador de personagens, como observa as personalidades da vida quotidiana, as pessoas que fazem o nosso país?
Os portugueses são por natureza hospitaleiros, mas a nossa vida é tão cinzenta e difícil que nos tornámos todos mais recolhidos e defensivos, porventura um pouco tristes.

Retomando os caminhos da literatura, depois de 50 anos de vida de escritor, o que lhe vai na alma?
É verdade, é muito tempo, uma vida... de outras coisas também, mas sobretudo de escrita. Quando penso nisso olho para trás e vejo vários períodos da minha existência, da minha produção literária e…, mas nenhum escritor está contente com aquilo que fez. Gostaria de ter composto o grande livro da minha vida e nunca o fiz. Por vezes, ao escrever um romance, penso que “este sim, será o meu grande romance!”, mas depois resulto sempre insatisfeito, não consigo sentir-me feliz com o que escrevi.
O Eça, que foi muito maior escritor do que eu, considerava-se um vencido da vida. Creio que normalmente somos todos vencidos da vida e da obra.

Consegue definir as diversas fases da sua vida literária?
Aquela a que chamaram existencialista foi a primeira. Uma visão do mundo influenciada pela filosofia da existência, de Sartre, de Camus, de André Malreaux e de outros autores que eu tinha lido muito, mas também pela minha própria experiência.
No regresso de França, uma fase diferente, tornando-se a minha literatura mais acentuadamente de resistência, à luz da consciência de que o escritor deveria contribuir para o derrube do fascismo através da revelação crítica da realidade.
Mas como no fundo eu sou mais um escritor do desvendamento da alma, das profundidades do ser humano, do que de inquéritos sociais, as duas coisas misturavam-se.
E então o entusiasmo de Abril, e uma literatura de esperança, muito acentuada neste tão breve, quanto a Revolução, terceiro período.
Chego depois a um certo tempo de inquietação e de luto, observando o fracasso de uma forma de socialismo, o chamado socialismo real. Eu tinha consciência de que as coisas estavam mal na União Soviética e noutros países socialistas...

Quais os livros que recorda e que estiveram presentes na composição da sua vasta obra, e porventura da sua vida?
Quando era miúdo lia os livros da biblioteca do meu pai. Por volta dos 10, 11 anos, A Ilha Misteriosa do Júlio Verne, Os Três Mosqueteiros, A Rainha Margot… Mais tarde descobri os autores portugueses, o Aquilino Ribeiro, o Eça de Queiroz, o Pessoa, o David Mourão Ferreira, a minha amiga Sophia, Eugénio de Andrade, o Alexandre Herculano, o Teixeira Gomes, que foi amigo do meu pai.
Como vivia perto da fronteira, falava espanhol desde cedo, descobri o Cervantes e outros escritores castelhanos que nos eram trazidos pelos homens de barba negra, comprida, desgrenhada, refugiados do exército republicano derrotado por Franco, que ficavam escondidos no monte onde vivíamos.
Já em Lisboa, o Dostoievski já o conhecia, mas depois li tudo, o Gorki, o Tolstoy, Pushkin, mas por outro lado comprava os romancistas norte-americanos, o Hemingway, o Faulkner…

Ainda se recorda de todos os seus livros, que são tantos…?
Não, lembro-me mais dos de ficção É curioso, quanto mais imagino e me afasto de mim, mais vou fundo na compreensão do Ser Humano, porque me liberto, até de mim, e então torna-se mais universal aquilo que se escreve, como em Nunca Diremos Quem Sois, ou mesmo o próprio Bastardos do Sol. Há livros que estão muito mais perto de mim, sem serem autobiográficos, como A Hora da Incerteza, Exílio Perturbado.

O que procura nas palavras?
Aquilo que sempre me preocupou mais foi a compreensão do Ser Humano, na tentativa de descer ao mais profundo dos seus significados, e ao mesmo tempo da sua relação com os outros.
E como sofri uma grande influência na minha juventude, da filosofia existencialista, acontece que os meus livros estão quase todos marcados pela suspeita, pela dúvida, pela própria incerteza, que no fundo caracterizam o ser humano, nas suas contradições, e nas suas perplexidades, mas também pela esperança, o desejo e a convicção de que atingiremos um grau de civilização superior, onde haverá maior fraternidade e conciliação entre liberdade e justiça social.

Procurar a essência da Humanidade através do quase infinito universo das letras…
Há sempre em todos os comportamentos humanos a procura da autenticidade, e a dúvida sobre quando se é verdadeiramente autêntico ou não. Tenho ainda outra preocupação, o amor da palavra, uma certa vontade de explorar todos os seus sentidos, e ainda de os subverter, numa linha estética, não no sentido surrealista, de seguir o ditado do inconsciente, mas ainda assim permanecer ligado ao onírico.

Como descreveria o escritor Urbano, na urbanidade do seu dia-a-dia?
Por um lado, profundamente subjectivo, por outro, muito ligado ao mundo dos outros. Parece contraditório, mas bem no fundo possuo essas duas direcções.
Não posso escrever ao computador por um problema de olhos, faço-o à mão, principalmente de manhã, mas só quando o sinto… Hoje por exemplo fui nadar para a piscina aqui perto de minha casa. Aprendi pequeno, no rio Ardila, fiz parte da equipa da Faculdade de Letras, mas hoje a saúde já não mo deixa fazer quando quero.

Urbano existiria apenas como escritor, ou pode imaginar-se numa outra qualquer forma de vida?
Como falávamos, fui professor, jornalista, redactor de publicidade, mas tudo relacionado com as palavra, pois era aquilo que sabia fazer. Mas quando era muito jovem tinha vocação para a matemática, e as notas do colégio equilibravam-na inclusivamente com as disciplinas de literatura, língua portuguesa…Até o meu primeiro exame para aferir a vocação profissional indicava a matemática como a minha principal inclinação! Mas, porque gostava muito de ler, sabia que não era! E fui para Letras.

Não podem ser dissociáveis a leitura e a escrita, ou haverá algum escritor que não goste de ler?
Ambas estão ligadas à palavra, são coisas interdependentes. Preocupo-me quando dou aulas, a ensinar os meus alunos a lerem melhor, para se puderem expressar melhor no domínio da escrita, e é assim que por vezes me deparo com autênticos talentos.

É bom ou mau para a escrita, que os vastíssimos recursos que a língua proporciona sejam por vezes tão parcamente utilizados?
Nós temos uma linguagem que é de todos. Creio que é assim que se começa, e a pouco e pouco, quando se é escritor, quando se sente isso, vai-se procurando escrever de uma maneira que seja mais rica, original e por fim, que seja nossa. A literatura a que se chama fácil, tem o mérito de ser muito lida, o que é bom, mas não perdura na memória, não permanece.
Quando abrimos uma página da Maria Velho da Costa, sabemos que é dela, e quando falamos dela falamos do Miguel Torga e de tantos, tantos outros que atingiram esse patamar.

Uma forma de assinatura…
È a individualidade artística da pessoa.

Por,
Pedro Cativelos