dezembro 10, 2008

Notícias Sábado: Portugueses procuram cada vez mais armas ilegais

Desde que a nova Lei das Armas entrou em vigor, há cerca de dois anos, ainda não foi passada uma única licença de porte de arma para civis, situação que tem provocado o pânico entre os armeiros portugueses, com uma quebra de vendas estimada na ordem dos 70 por cento. Por outro lado, no mercado ilegal, a insegurança e a dificuldade em obter uma arma através de meios legais, faz a procura aumentar e os preços descerem. Em poucos minutos, com os conhecimentos adequados, pode comprar-se uma arma ilegal na rua ou até pela Internet.

Texto
Pedro Cativelos
Fotografia
Patrícia de Melo Moreira


Existem actualmente cerca de 1,4 milhões de armas oficialmente declaradas em Portugal, entre armamento destinado à caça, ao tiro desportivo e à defesa pessoal.
Em relação ao número de armas ilegais em circulação, várias são as estatísticas que têm vindo a público nos últimos tempos que aventam a possibilidade de existência de um número idêntico ou aproximado, mas tanto o Ministério da Administração Interna como a PSP rejeitam liminarmente esse cenário. “Desconheço o número ao certo de armas ilegais, justamente por serem ilegais”, afirma o ministro Rui Pereira, apontando então para valores menos alarmantes, “na ordem das dezenas de milhar”, assegura.
Também a Direcção Nacional da PSP se apressou a desmentir os números divulgados na imprensa, negando por completo essa possibilidade. O director do Departamento de Armas e Explosivos da PSP. Luís Farinha garante mesmo que “não existe qualquer estudo, nem dados científicos que apontem para a existência de tal número de armas ilegais”, considerando até “impossível que o mercado ilegal tenha mais armas do que as legalizadas. A polícia não tem nem faz estimativas de armas ilegais pois se as conhecêssemos, apreendíamo-las e aí conseguiríamos fazer uma estimativa”, argumenta.
“Se pensarmos que entre as cerca de 1,4 milhões de armas legais se incluem as armas já abatidas, as armas furtadas, as armas exportadas, incluindo as armas produzidas em Portugal e exportadas para outros países, é susceptível de ser praticamente impossível a existência de um mercado paralelo armas ilegais superior ao das legalizadas”, argumenta.

Sem certezas quanto aos números reais, a verdade é que uma quantidade indefinida de armas ilegais, dos mais variados modelos e calibres, continuam a ser transaccionadas um pouco por todo o lado onde se possa imaginar. Entre as armas ilegais mais comummente encontradas no nosso país encontram-se pistolas de alarme (cuja venda oficial é proibida) transformadas em serralharias clandestinas que podem custar 75 euros, mas também metralhadoras soviéticas, Uzi israelitas e as Remington 1100, mais conhecidas por Shotguns, utilizadas em vários assaltos ao longo dos últimos meses.
Qualquer destas peças pode ser encontrada em muitos dos mais de trinta bairros problemáticos situados na orla urbana da Grande Lisboa, de Santa Filomena à Cova da Moura, da Fonte à Quinta do Mocho, por exemplo, onde se encontram traficantes de armas com recursos necessários para comprar armas de guerra em mercados clandestinos e de imigrantes oriundos da antiga União Soviética como a Ucrânia e a Bielo-Rússia.
O Bairro da Apelação, em Lisboa, é um dos locais onde se podem encontrar armas ilegais, com maior ou menor dificuldade. Fala-se mais de balas, do que de bolas a rolar pela rua, em brincadeiras de miúdos que mesmo assim, se vão mantendo por ali.
Valentim Gonçalves, pároco do Prior Velho explica que é preciso fazer mais do que as recentes campanhas de “dersarmamento” levadas a cabo pela PSP, para se resolverem os graves problemas de criminalidade" que assolam o bairro. “Já me chegaram a oferecer um colar feito de cartuchos de armas de caçadeira”, explica, como forma de ilustrar a realidade diária com que lidam os habitantes da Apelação.
Um dos habitantes, sem se querer identificar, não tem problemas em indicar como se podem adquirir vários tipos de armamento, os preços, quem os fornece. “Solução?”. Um sorriso e um encolher de ombros, proporcionam a resposta que nem surge inesperada, uma vez que a esperança parece já não morar por aqui há tempo demais.
“Não podemos ficar muito surpreendidos se estes fenómenos como o do tiroteio na Quinta da Fonte se repetirem, principalmente quando há tantas armas ilegais e gangs organizados”, assinalou o general Garcia Leandro, que preside ao Observatório de Segurança, aponta as dificuldades de integração das comunidades de migração interna, do campo para a cidade, quer de imigrantes do exterior, que geram exclusão.” Existem problemas sociais e económicos graves a nível dessas famílias que tornam mais provável a ocorrência de situações de criminalidade”, explica.

Circuito paralelo. Se legalmente, e com despesas de licenciamento incluídas, uma arma de defesa pessoal de baixo calibre pode custar perto de 750 euros num qualquer armeiro, e demorar quase um ano a estar disponível para o comprador, na rua o processo é imediato e custa 10 vezes menos, para além do facto compreensível de se poder adquirir um calibre mais poderoso.
Uma das armas mais comuns que se podem encontrar nas ruas é a 6.35mm, uma das permitidas por lei para os civis, para além do calibre 32 longo. Surgem como as mais baratas e acessíveis porque em muitos casos são pistolas de alarme transformadas em serralharias caseiras espalhadas um pouco por todo o país, visto ser este, um negócio rentável pela procura crescente que se verifica, surpreendentemente ou não, por parte de jovens pertencentes a gangs criminosos que as utilizam para pequenos furtos, mas também por cidadãos comuns. “Sim, dá dinheiro e não é muito difícil de fazer! Cada vez mais as pessoas procuram porque não se sentem seguras e não é só malta daqui do bairro, vem cada vez mais gente que não quer fazer mal a ninguém, só se quer sentir protegida”. Paulo Silva, nome fictício de um jovem residente na Cova da Moura, afirma ter já estado no negócio, abandonado “por causa da polícia e dos meses de prisão”, que passaram por ele, como forma de mudança de destino. “Agora estou limpo”, afiança, sem no entanto deixar de dizer que a alguns metros da sua antiga oficina artesanal no bairro, outras iniciaram funcionamento. “Isto nunca há-de parar, porque a violência traz violência e é cada vez mais difícil e mais caro comprar uma arma legalmente não é?”.
Fonte policial explica à Notícias Sábado a razão do “controlo do tráfico de armas” ser ainda uma verdadeira “meta utópica, devido à ausência de fronteiras que por via do desarmamento dos países de Leste e às máfias que controlam o mercado dos estupefacientes e de armamento faz com que aumentasse brutalmente o número de armas a circular ilicitamente no nosso país”.
Depois, uma outra forma de alimentar o mercado paralelo de armamento releva-se após a divulgação de números da PSP, assinalando que no ano passado foi reportado o desaparecimento de cerca de 31 mil armas, tendo sido recuperadas apenas 2.500, o que para a mesma fonte, significa “que existem armas que alimentam um determinado circuito ilegal”.
Há depois, a questão legislativa que, segundo vários membros das forças policiais contactados, não ajuda em nada “um combate que tem de ser vencido! Quando detemos alguém por posse de armas, para o detido, a pena acaba por ser curta e imediatamente o espaço que tinha no mercado é ocupado por outro”, alerta um inspector da Polícia Judiciária.
Leonel Carvalho, secretário-geral do Gabinete Coordenador de Segurança, corrobora as opiniões dos agentes no terreno. “O tráfico de armas é praticamente incontrolável, sendo que é muito difícil entrar no mercado negro alimentado por material fabricado na Europa, cujo acesso é muito barato e fácil”, conclui.


Armeiros alarmados.
“É uma vergonha o que se está a passar no nosso país”. É desta forma e sem meios termos que a presidente da Associação de Armeiros de Portugal, Ana Ferreira classifica o estado do sector. “Engraçado como a insegurança aumenta a cada dia que passa, mas as vendas de armas desceram a nível nacional, cerca de 70 por cento e muitos armeiros estão a fechar. E porquê? Porque a nova Lei tem coisas positivas mas outras que de facto devem ser alteradas, como o exagero em termos burocráticos, de proibições... Imagine que até os sprays e as pistolas de alarme são proibidas, quando depois se vai à Internet, ou se atravessa a fronteira e se podem adquirir esses mesmos produtos”.
Depois, para a dirigente associativa, há ainda uma outra questão relacionada com os serviços da PSP, que não estarão, segundo a própria, “preparados” para fazer cumprir todas as normas emanadas da nova legislação. “Obrigam-nos a esperar meses com o material em armazém, já pago claro, o que nos provoca prejuízos enormes, como calcula. Posso dizer-lhe que desde que entrou em vigor, ainda não foi passada nenhuma nova licença e já lá vão dois anos, devido à falta de cursos obrigatórios para a obter”, assinala.
Contactada pela NS, a Polícia garante que “esta situação ficará corrigida antes do final do ano”, confirmação que não acalma no entanto as preocupações dos armeiros nacionais. “Admito que esta burocracia e este atraso enorme na concessão das licenças leve de facto algumas pessoas a recorrer ao mercado paralelo até porque, quando existe exagero de um lado, a tendência passa por arranjar forma de fuga”, explica.
Para além das ruas, a Internet é outro meio de conseguir comprar uma arma ilegal. Serão milhares os sites que as publicitam, todos estrangeiros, uma vez que em Portugal é proibida a publicidade de artigos do género, mesmo que feita pelos próprios armeiros.
“Sim, é verdade, até tenho vários processos de lojas que tinham sites, com descrição das armas que tinham para venda e que neste momento foram processados por o fazerem, o que achamos ridículo porque se tratava apenas de uma descrição dos produtos que existiam e não de um meio de venda online”, explica Ana ferreira.
Paralelamente, numa das últimas edições da revista dedicada à caça, Calibre 12, um panfleto da Alvarez, uma empresa espanhola que comercializa vários tipos de armamento, anuncia a venda, com os modelos, os preços e até uma ficha de encomenda de vários tipos de armas de alarme, cuja venda é ilegal no nosso país. “Sim, essa situação é verdadeira, aliás já avançámos com uma queixa. Apesar de serem pistolas de alarme são ilegais no nosso país e não as podemos vender, mas no entanto surgem aqui claramente explicitadas e ninguém faz nada”, assevera.
Carlos Batista, proprietário da José Matos Gonçalves e Irmãos, o único fabricante de armas com marca portuguesa (a NOA, iniciais equivalentes à Nacional Oficina de Armeiros), e um dos mais antigos no mercado, mostra-se também preocupado com o rumo que o sector seguiu nos últimos anos. “Já antes da nova Lei as coisas estavam a piorar, mas desde então tem sido preocupante de facto, não sei mesmo, durante quanto tempo poderemos manter um negócio que já vem do meu avô, há mais de 60 anos”, assinala.

Violência. Parece uma consequência indissociável do acesso fácil às armas de fogo ilegais. Com o aumento dos índices de criminalidade violenta que se registaram desde o início de 2008 e que atingiram o auge, em termos de acontecimentos e de mediatismo, em Agosto passado o descontrolo no tráfico de armas em Portugal deixou de ser segredo mas, tão pouco é um facto recente. “Apesar do desmantelamento de pequenas redes ilegais de comercialização de armas, persiste a actuação de estruturas criminosas, de origem estrangeira, que se enformam de um elevado grau de sofisticação e apresentam uma oferta de produtos bastante diversificada”, lê-se numa das alíneas do Relatório Anual de Segurança Interna de 2006.
No entanto, os assaltos a bombas de gasolina, dependências bancárias como a do BES, em Lisboa, e o episódio de violência com armas de fogo na Quinta da Fonte, no concelho de Loures, multiplicaram-se por outros mais ou menos mediatizados, e foram ocupando as conversas de café e espalhando a sensação de insegurança que se reflecte nos números. Nos últimos meses, pelo menos oito pessoas morreram ao serem baleadas e 16 foram feridas, para além dos ainda incalculados pelas seguradoras e vários proprietários atingidos, danos causados pela recente onda de assaltos.
A PSP, mostra-se contudo, ciente dessa realidade “Haverão bairros em Lisboa certamente onde há muito maior concentração de armas e não há incidentes deste tipo, como o da Quinta da Fonte”, explica Luís Farinha, acrescentando “não haver relação com a posse das armas em si, muitas delas se calhar detidas legalmente mas sim com o comportamento humano e com a utilização que as pessoas lhes dão”, sublinha.





Números
-Existem oficialmente registos para cerca de 1,400 milhões de armas em Portugal. Mais de 80 por cento são de caça.
-Um em cada dez portugueses é possuidor de uma arma, na grande maioria, proprietários de apenas uma unidade.
-Em 2007, a PSP e a GNR apreenderam 8 mil armas.
-Em 2008, as apreensões já ascendem às 5 mil.
-31 mil armas foram declaradas como desaparecidas no ano passado. Apenas 2.500, foram recuperadas.


Como adquirir uso e porte de arma
Primeiro, e depois de saber que tipo de finalidade quer dar à arma que irá adquirir, caça, tiro desportivo ou defesa pessoal, inicia-se o processo. Segue-se o requerimento, indicando as razões profissionais ou circunstâncias imperiosas que justifiquem o uso de arma de defesa, depois a declaração do requerente, sob compromissos de honra, em como se encontra em pleno uso de todos os direitos civis e políticos e em como nunca foi condenado ou esteve envolvido em situações relacionadas com estupefacientes que, depois, complementa com o atestado de residência ou fotocópia do cartão de eleitor, identificação pessoal, certificado de registo criminal, declaração passada pela Direcção Geral de Viação onde conste que não foi condenado por qualquer infracção relacionada com a condução sob o efeito de álcool e duas fotografias, a cores, tipo passe.
Existe uma diferenciação entre as pessoas que podem ter o direito a requerer o uso e porte de arma, entre classes B, para todos os funcionários das forças militares, deputados, juízes e armeiros, que têm acesso a um número mais diversificado de calibres, e cujo processo de obtenção é mais célere, e B1, para os civis, com apenas dois calibres, 6.35 mm e 32 longo à disposição, calibres mais fracos em termos de potência.
Nos últimos dois anos, desde a entrada em vigor da nova Lei das Armas, as únicas licenças passadas foram relativas à classse B.
Todo o processo, pode custar ao requerente, para além do valor da arma, entre os 120 e os 200 euros, dependendo das várias categorias e finalidades do uso e porte da mesma.


Onda de violência provocou alteração à Lei
O Governo aprovou há algumas semanas um novo regime jurídico das armas, que prevê a aplicação da prisão preventiva em todos os casos de crimes cometidos com detenção ou com recurso a arma proibida, depois de em 2006, ter entrado em vigor uma nova Lei das Armas que substituía a antiga legislação em vigor, há várias décadas.
“A proposta de lei prevê a aplicabilidade da prisão preventiva em todos os casos de crimes de detenção de arma proibida e de crimes com recurso a arma”, anunciava Pedro Silva Pereira, ministro da Presidência, no final do Conselho de Ministros em que a medida foi tomada.

Notícias Sábado, Novembro de 2008

Notícias Magazine: André Sardet

“Este trabalho é a maior aventura da minha carreira. Precisava disto!”

Do imaginário que agora deixa soltar-se em “Mundo de Cartão”, André Sardet regressa à música com tons diferentes, feitos de memórias de criança, coloridos, alegres, soltos. Da sua infância recorda as brincadeiras de rua na Coimbra dos anos 80, os carros de rolamentos, a bola para a qual não tinha muito jeito, o que lhe valeu a alcunha de “Câmara lenta”, e a música, “sempre”, desde que lembra de começar a sonhar.
Dedica o seu mais recente trabalho “a todos os que gostaram de ser criança”, mas também aos que já se esqueceram, para que voltem a ser emotivas as “viagens ao sabor da imaginação dos nossos filhos”. Sente-se “feliz”, mas não esquece os tempos em que não o foi, conta como quase desistiu de tudo, o passado em que ninguém acreditava no presente que hoje vive, e anseia pelo destino, com um sorriso no rosto.


Texto
Pedro Cativelos
Fotografia
Patrícia de Melo Moreira


Neste “Mundo de Cartão” em que agora se lança, reaparece porventura diferente do André Sardet dos últimos anos...
Sim, tudo começou pela música que fecha o álbum, uma versão de “Anjo da Guarda”, do António Variações, com que costumava adormecer a minha filha. Depois fiz o “Mundo de Cartão”, que dá nome ao álbum, que me deu muito gozo cantar com ela, porque eu começava as frases e ela terminava-as! Achei graça a essa interacção e então comecei a compor mais coisas, dentro deste imaginário dela, dos bonecos, dos brinquedos...


E como surgem as personagens em tudo isto?

Este universo foi crescendo e ganhando uma identidade que não é mais do que o espelho de uma fase muito feliz da minha vida. Quanto às personagens, foram ganhando vida através das músicas... O Palhaço Gargalhadas que era um boneco que lá tinha em casa, a Joana, uma boneca preta que mora na montra de uma loja, a Maria bailarina que a escolhe por ser diferente... e diz: ´Quero aquela boneca de cabelo em pé, que tem olhos de gata e cor de café...`. Quis mostrar isso, como pode ser simples e tão belo, o mundo através do olhar de uma criança.

Foi complicado imaginar, criar e dar vida a todo este contexto partindo de uma base musical?
Tudo isto deu dez vezes mais trabalho que o normal! Sempre fui muito fotográfico a compor, para cada frase associa-se uma imagem e neste trabalho era difícil transmitir tudo o que ia na minha cabeça só com música. Por isso há um universo de comunicação muito maior, das histórias aos personagens que ganharam vida em animação nos telediscos, as histórias, o site criado especificamente para este trabalho...


Porque decide inverter o rumo da sua carreira no seu ponto mais alto?

Este trabalho não é de facto para comparar com tudo o que tenho feito até agora, assumo que é de facto uma fuga para a frente porque tinha em cima de mim a nuvem de um grande êxito, a pressão... Fiz isto sem ligar ao que já tinha feito, sem pensar muito, apenas para compor de ma forma mais livre, mais irresponsável, que é uma coisa que vamos esquecendo ao longo da vida. Acho que com o tempo vamos perdendo o sentido de humor...

Parece quase como que uma pequena fuga artística... é?
Sem dúvida, quis encetar de facto essa fuga, com maior liberdade, mais cor...
Precisava disto artisticamente! Os anteriores trabalhos reflectem um lado mais melancólico, mais nostálgico, mas não sou só isso, tenho sentido de humor, sou brincalhão e quis mostrar este lado de mim agora.

E escolheu o Portugal dos Pequenitos para dar a sua primeira entrevista...
Quero dar a conhecer às pessoas que estou numa fase diferente, e por isso gosto de mostrar um espaço que nos mora na memória colectiva, como os acordes do “Verão Azul”, ou do “Dartacão” que também incluí no disco. Por isso digo que não o fiz para as crianças apenas, mas para todos os que gostaram de o ser, e também para quem já se esqueceu do que é verdadeiramente ser criança!


Como lhe foi surgindo a ideia de elaborar um trabalho deste género?

Foi sendo escrita em vários locais, ao longo dos anos que acompanham as diferentes fases do crescimento da minha filha. Foi ela, sem dúvida, a grande fonte de inspiração de tudo isto que considero o maior desafio musical da minha carreira.

E canta muito para ela ainda?
Canto para ela desde a barriga da mãe!


Mudou-o, o facto de ser pai?

Acho que o filho desperta um lado de imaginação, criatividade... Temos de estar sempre a criar brincadeiras novas porque eles são muito exigentes e cansam-se das novidades em uma hora! Foi fantástico, não quis deixar de escrever sobre isso, sou hoje muito mais feliz e completo!

Nota-se muito de si, nas suas canções, aceita este facto?
Sempre fui auto-biográfico a compor, há fases da minha vida reflectidas em todos os meus trabalhos, mas também histórias que me contam, coisas que observo noutras pessoas... Muitas das minhas musicas são segredos bem guardados!

Como funciona quando está a compor?
Não gosto de fazer as coisas à pressão... Ando sempre com o gravador, porque quando componho não memorizo o que faço, e por vezes sai uma musica do principio ao fim. O “Adivinha Quanto Gosto de Ti” foi assim, composto num hotel em Évora, antes da primeira eco-tour que fiz.


É um dos artistas em Portugal que mais referências faz ao meio ambiente. Tem de facto essa preocupação pessoal?

Tento estar atento àquilo que se passa à minha volta e não ficaria satisfeito se não agisse. Se estou numa fase de carreira em que tenho atenção das pessoas aproveito isso para fazer alguma coisa, e não o faço para cavalgar a onda. Este álbum tem pela primeira vez em Portugal uma embalagem produzida através de árvores com abate controlado e tintas e vernizes feitos com base aquosa, sem solvente numa embalagem da Sony, sem plástico.

Foi Feitiço?

Parece-me uma pessoa bastante exigente, é assim?
Comigo sou exigente, perfeccionista, tento sempre estar atento a tudo, dar o máximo. Confesso que posso ser um bocadinho controlador e chato nesse aspecto porque não acho possível nem lógico que depois de uma entrega tão grande na composição de um álbum não se tenha o mesmo empenho na produção, na gravação, na promoção. Deve-se tudo a uma questão de coerência.

Como se explica o grande sucesso do álbum “Acústico” que acaba por marcar a sua carreira e, quase que por feitiço, ironicamente lhe altera o destino?
Acreditava na altura que tinha um repertório válido mas que não tinha tido grande sucesso e por isso, custava-me fazer mais originais sem ter tido tempo de expor aqueles trabalhos, fruto de uma carreira de dez anos. Acreditei que devia dar uma segunda oportunidade ao meu trabalho..

Acabou por ser esse, um espectáculo para recordar...
Os Coliseus também, sem dúvida, em Fevereiro de 2007. Foi muito intenso tocar naquelas salas, esgotaram duas vezes sem colar um único cartaz, foi mágico. Mas já vieram depois. A gravação do Acústico é onde tudo começa de facto, e aí tenho de te dizer que não foi só a minha entrega total, foi a de toda a equipa que tinha aquela única oportunidade para gravarmos...

E essa noite é decisiva na sua vida... É verdade que já se tinha decidido a abandonar a música?
Foram anos complicados, senti-me muito sozinho, achava que era o único a acreditar naquilo que fazia para além daquela meia dúzia de pessoas que me estava mais próxima.
Não havia já segunda oportunidade, já tinha decidido comigo mesmo que se não acontecesse nada iria desistir, arrumar as botas! Marquei então esse concerto em Coimbra, paguei-o do meu bolso, não houve dobragens, não fui para estúdio corrigir coisas, foi o que foi, e ficou bem.

E se não tivesse corrido bem, chegou a pensar no que faria?
Provavelmente continuaria com a minha empresa de espectáculos que me deu a independência financeira, ao mesmo tempo que tinha uma carreira artística que só me dava prejuízo.


Essa noite, calculo, ficar-lhe-á na memória então...

A partir daí as coisas mudaram na minha vida!

Ainda se lembra da primeira sensação que o invade quando abandona o palco, numa noite que poderia definir toda a sua carreira, e afastá-lo do seu sonho?
Quando saí do palco, estava ansioso por ouvir a gravação, o que fiz no dia seguinte. Era aquilo que queria, o objectivo estava cumprido mas ainda hesitei muito sabe? Gravei-o em 2004 mas só o lancei dois anos depois, porque tinha dentro de mim que era de facto a ultima oportunidade e pensei, pensei... Deixei amadurecer a ideia e só quando estavam reunidas todas as condições para apresentar o trabalho às pessoas é que decidi avançar.

Foi um risco...
Sim, mais a mais, porque nenhuma editora acreditou na minha ideia, e paguei a gravação do meu bolso também! Mas a vida é uma jogada de risco... Temos de estar sempre dispostos a arriscar, e há muitos factores que condicionam o sucesso dos álbuns, a predisposição das pessoas, a própria comunicação...

Ainda para mais, Foi Feitiço até nem era uma canção inédita, mas só da segunda vez é que teve aquele êxito brutal. Como o explica?
Acho que em 2002, quando a música saiu, não foi bem comunicado. Em 2006 já não foi assim, a campanha de televisão mostrou às pessoas que aquelas musicas eram minhas e a partir dai os meios de comunicação perceberam o que o publico queria. Tenho esse orgulho, não foram os meios de comunicação que me impuseram, pelo contrário!

Como se sente nessa altura, depois de dez anos complicados para si?
A minha vida mudou muito em dois anos, muito e demasiado depressa. Tive anos com um único espectáculo e de repente passei a ter 90, dá para imaginar a diferença.
Nesse momento, admito, senti uma pontinha de vingança talvez... Sempre tive a mesma postura, podia ser mais imaturo se calhar, mas quis trabalhar para atingir o que achava que merecia.


Há muitos artistas que se queixam do país ser ingrato...

Essa palavra pode ser perigosa, e o publico nunca o foi comigo! Há pessoas que são cruéis, que não gostam da musica, mas isso é normal. Acho que durante alguns anos sofri foi do estigma de algum preconceito em relação à minha musica.


Por ser considerado um cantor romântico?

Irrita-me essa história de querer rotular as pessoas, sou aquilo que sou, tenho a minha identidade musical. Os rótulos para os músicos são absurdos, é a mesma coisa que dizer que todas as pessoas de uma cidade são boas ou más por exemplo. Cantor romântico é o Júlio Iglésias, não sou eu!

Muitas das suas canções são entoadas por milhares de pessoas, ilustram pensamentos, ajudam porventura em momentos mais complicados... Como retrata o país, para alem da música?
Acho que vivemos numa sociedade que a certa altura promove que estejamos a ser escravos de uma casa que andamos a pagar durante quarenta anos, não colocamos nada em causa, nem pensamos que se estivéssemos noutro local seríamos mais felizes, com outras oportunidades, outra visão da vida... Faz-me confusão isto, a certa altura andamos a empurrar a vida, não a vivê-la! Creio que temos de encontrar o ponto de equilíbrio, entre o que é e não é a felicidade.

É hoje, um homem feliz?
Sou! Mas também sou sincero ao ponto de dizer que nunca se é feliz a cem por cento, falta-nos sempre uma pessoa que já partiu, ou qualquer outra coisa, mas é preciso dar valor ao que de bom se tem! Costumo colaborar com o IPO de Lisboa, e quando algumas pessoas me dizem que estão muito mal, às vezes por razões insignificantes, costumo perguntar-lhes se querem ir comigo ver as crianças que lá estão internadas, para perceberem que mesmo nas piores circunstâncias é possível sorrir!


O sucesso

Os 160 mil discos vendidos, a fama, o sucesso e tudo o que de bom e mau lhes está adjacente assustaram-no quando começou a perceber que estava a chegar a sua vez?
Sim, assustou-me, claro! E preocupou-me também, porque é sempre perigoso subir e descer com tanta rapidez. Não era isso que estava na minha cabeça, mas tentei gerir tudo com profissionalismo e consistência. Era a única forma de não desiludir as pessoas... trabalhei, trabalhei, trabalhei...

Lida bem com a exposição pública?
Sinto que o público me impôs, tenho essa dívida de gratidão com as pessoas, não é um frete para mim falar com quem para falar comigo! Tenho tido boas reacções na maioria dos casos, lembro-me até de uma engraçada, uma senhora no outro dia que me disse que as minhas músicas lhe davam sono, por exemplo! Mas tenho sentido de humor!

Acha que teria todo esse à vontade se tivesse alcançado o êxito, logo no início da sua carreira?
Ainda bem que não! Provei o sucesso com dez anos de insucessos. E como tenho boa memória não me subiu à cabeça, lembro-me de ter feito o caminho das pedras e tenho noção de que há um risco de isso voltar a acontecer.


Regressando um pouco aos palcos, como é que se sai de um concerto com milhares de pessoas, se vai de carro para casa provavelmente sem conseguir evitar ouvir a própria música, que passava dezenas de vezes por dia na rádio e se retoma um quotidiano feito de pequenas rotinas?

Não tenho uma profissão, tenho uma coisa que me dá um prazer enorme e que sempre foi o que quis fazer! Não me considero mais importante do que qualquer pessoa, faço as coisas normais do dia a dia, à noite estou no espectáculo, vou dormir a casa e ao outro dia já me estou a levantar cedo para ir levar a minha filha à escola, ir ao café, comprar o jornal, como toda a gente!

Tem algum ícone musical, algum ídolo com quem gostasse de partilhar um palco?
Gostava de cantar com o Sting! Em termos internacionais é o meu ídolo, tem-se mantido coerente ao longo dos anos, tenho em relação a ele um respeito brutal.

Para acabarmos como começámos, e regressando um pouco a si, à sua infância, imaginou algum dia realizar-se desta forma, através da música?
Ser músico sempre foi o meu sonho! Só me comecei a levar mais a sério quando comecei a compor de facto, na adolescência. Costumo dizer que a musica é o meu Xanax, passou a ser uma necessidade absoluta que não dispenso e, quando se descobre esse lado, é difícil pô-lo de parte. Mesmo que tivesse acabado o meu curso de engenharia mecânica, ou seguido por outros caminhos, acredito que a música estaria sempre presente na minha vida.



Biografia
Aos 32 anos, natural de Coimbra, André Sardet gravou o seu primeiro trabalho ainda jovem, em 1996. "Imagens" incluía canções como "Frágil", "Não Mexas no Tempo" e "Um Minuto de Prazer" que recuperaria anos mais tarde.
Veio depois "Agitar Antes de Usar". Sem muitos concertos agendados, e apesar de trabalhar na sua própria empresa de produção de espectáculos, aproveitou o tempo livre para estudar, viajar e... regressar com o autobiográfico trabalho, que baptizou com o seu próprio nome, e onde acaba por desvelar nas letras e nas melodias, alguns dos mais íntimos momentos da sua vida, com a colaboração de Rui Veloso, Luís Represas e Mafalda Veiga.
Sem grande sucesso comercial na primeira década da sua carreira, grava “Acústico" para assinalar o momento, num registo que inclui 15 das suas músicas já editadas, gravadas ao vivo no Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra. “Foi Feitiço” tornou-se então genérico de telenovela e canção obrigatória nas playlists de todo o país. Mais de 160 mil discos vendidos depois, a confirmação de que a música seria mesmo o destino que sonhava desde pequeno.

Notícias Magazine, Outubro de 2008

outubro 13, 2008

Pública: Um dia com... Marta Rebelo

Dias plenários

A alguns dias de regressar ao Parlamento, a mais jovem deputada do PS preenche os seus dias de trabalho entre o Ministério da Administração Interna, os sons do seu Ipod e os livros cujas palavras a acompanham para todo o lado.

Texto
Pedro Cativelos
Fotografia
Patrícia de Melo Moreira


Largo do Rato. O edifício sede histórico do Partido Socialista pontifica, para lá do trânsito caótico, num regresso à normalidade rotineira típica dos dias seguintes aos finais da época estival. Marta Rebelo espera-nos, na entrada do Metropolitano. Vê-se, e percebe-se ao longe.“Olá!”. Um sorriso, e mais outro. As pessoas observam-na, sempre que está, e independentemente da circunstância, porque não passa despercebida. “Porque sou bonita ou porque sou deputada? Não sei, nem penso muito nisso sinceramente”.
Não gosta nada que lhe falem disso constantemente, da estética, mas não é por esse ou por outro qualquer motivo que a esconde ou se envergonha dela, pelo contrário. “Para se ser competente tem de se andar mal vestida e ter um aspecto horrível? Isso é apenas mais um preconceito que infelizmente ainda existe, e ao qual me fui habituando com o tempo. Podia ter sido florista, jornalista, gerente de hotel, sei lá... mas olha, limitar-me-ia a ser sempre eu própria, fiel aos meus princípios e àquilo em que acredito”.


Mulher por direito

Marta Rebelo entrou para a Juventude Socialista aos 15 anos. “Sempre me atraiu a política. Porquê? Pode ser um cliché, mas é tão simples como querer mudar alguma coisa”. Ao longo dos cinco anos do curso de Direito que concluiu na Clássica, com 15 valores, acabou por descobrir o que haveria de ser, ou pelo menos o que o destino lhe preparava, enquanto trajecto profissional. Experimentou o jornalismo no extinto Euronotícias, estagiou no gabinete de Sousa Franco, chegou a assistente universitária logo aos 24 anos. “Ainda sou jovem, mas não costumo pensar muito no futuro! Não ando aqui a divagar ao sabor do vento, claro, mas deixo-me ir... Não tenho, ao contrário do que as pessoas acham de quem anda na política, uma agenda secreta tipo mapa do tesouro, de para onde vou e como lá hei-de chegar”.
Sempre gostou de escrever, “uma paixão” que ainda cultiva no seu diário, “mas esses pensamentos ficam apenas para mim”, e no blog que mantém activo há alguns anos. Depois, exercita os pensamentos e agiliza as palavras nas crónicas que preenche em vários jornais, entre os quais, o do Benfica. “Ah, essa é outra das minhas paixões, o futebol, e o meu clube. Sou fanática”.
Marta sabe as épocas, os títulos, os nomes de jogadores dos anos oitenta, mesmo os de bigode, os melhores marcadores de cada época, e é perfeitamente capaz de manter qualquer conversa de café sobre o assunto. Desfia memórias passadas no Estádio da Luz, que frequenta desde pequena, recorda grandes jogos e utiliza sempre o “nós”, quando fala da “sua” equipa. “Sou fanática, até leio a Bola todos os dias! Insultos ao árbitro? Depende de com quem estou, alguns são mentais apenas, outros... não!”, diz com verdade temperada em humor.
Aos trinta anos, e para além do campo desportivo, na política e depois de ter entrado na Assembleia da República em substituição de Vera Jardim como uma das deputadas mais jovens no Parlamento, por lá permaneceu durante seis meses. Recorda agora essa experiência como “positiva”, e prepara um regresso mais ou menos anunciado. “Provavelmente, ainda esta semana, sim! É um lugar de privilégio para alguém que quer servir o país, ajudar a uma mudança de que precisamos enquanto povo que ainda tem alguns complexos e precisa de ser mais optimista”.


Política e não só...
Hora de almoço. “Não tenho nos meus hábitos cumprir esta refeição, mas bebo um sumo de laranja! Por causa da dieta?! Não, nada disso, tem a ver com o meu próprio ritmo diário”. Trabalho, trabalho e mais trabalho...? “Sim, mas não apenas. Aprendi cedo que a vida não é apenas isso. Pertenço a uma geração muito competitiva, mas não me sinto feliz apenas a trabalhar, preciso de pelo menos falar com alguém amigo ao final do dia, nem que seja ao telefone, de sair de casa um pouco, de ter tempo para aquilo que gosto, de ouvir música, aliás ando sempre com o meu Ipod cheio, de ler... Ando a ler Os Maias outra vez, para aí pela vigésima vez, mas nunca me canso”.
Na esplanada do Hotel Regency, a vista sobre a baixa Pombalina, com o rio em plano de fundo, e as sombras recortadas pelos telhados é maior do que as palavras podem descrever. “Lindo, não é?!”.
Está quase na hora de regressar ao Terreiro do Paço, ao Ministério, onde trabalha. “O dia ainda vai ser longo, mas por ali, ao contrário de outros ministérios, bom é quando não se passa nada de grande, e corre tudo dentro da normalidade”.
A cadência da conversa tem agora mais pausas, porque o contexto pede, e a personagem pública vai começando a dar lugar à personalidade mais real. “Sou feliz, mas tenho ainda tanto para aprender, para amadurecer. Sempre lidei bem com o facto de ser mulher neste mundo. Engraçado, antes de estar aqui na política e apesar de ter o costume de dizer que sou jurista, pensava que haviam poucas diferenças entre homens e mulheres, talvez porque estivesse bem rodeada de pessoas sem complexos com isso. Mas mudei a minha opinião e por vezes tenho de reagir apenas mentalmente, outras entro mesmo em confrontação directa, quando sinto que estou a ser insultada enquanto mulher e ser humano”.

Ser ou não ser... bonita
“Tenho cuidado comigo, por dentro e por fora. Tenho um amigo que me diz que as mulheres na política só deviam ser aceites depois dos cinquenta anos! Claro que não estou de acordo com isso, mas espero que o tempo ajude a que as mentalidades mudem, que se diluam os preconceitos, porque se pode tornar cansativo, apesar de estar já habituada, eu como tantas outras mulheres, a ter de provar sempre tudo, pelo menos duas vezes”. Mas não perde o sorriso. “Isso nem por sombras. Há alturas para tudo, em todas as idades, para ter juízo e para o perder de vez em quando...”.
Ao final da tarde, o Centro Cultural de Belém está cheio das maiores figuras do Partido Socialista para a apresentação da Fundação Res Pública. Marta senta-se na primeira fila, cumprimenta os colegas de partido, cumpre os requisitos e mantém a postura serena, de estado, apenas de espírito por enquanto. “Perguntam-se sempre se um dia gostaria de ser presidente da República, primeira-ministra... Não penso nisso para já”. Troca algumas palavras com José Sócrates. “De que falámos?!”. Um sorriso. “Segredo de Estado!”, graceja.
Gosta de se considerar uma mulher de esquerda. “É difícil explicá-lo sem entrar em grandes dissertações, mas simplificando, acho que acaba por ter a ver com princípios como a Igualdade, a Liberdade de atingir um plano em que se tornem plenas, até na felicidade de cada um”.
A sua, onde fica? Um sorriso mais do que facial, que diz tanto quanto carrega sensações que ficam apenas perceptíveis na ortografia daquele pequeno momento. “Sou teimosa, persistente... Ainda não escrevi um livro, não plantei uma árvore, não tive um filho, falta-me viver mais ainda, mas lá chegarei”.
Marta Rebelo gosta de ir ao cinema, depois de um dia cheio. Acompanhada de Filipe Barreiros, um amigo ainda dos tempos de faculdade, escolhe o filme do serão. “Este parece-me bom, tem o Ethan Hawke! Não é o George Clooney mas...”, humoriza. Não sabe muito ainda sobre o que irá ver, mas de vez em quando gosta de ser levada pelo acaso do momento. “Nisto, como em muitas outras coisas! Se há coisa que a vida tem de bom é a capacidade de nos surpreender e eu preciso disso para estar bem comigo e com o que me rodeia”. Luzes, câmara, acção, silêncio.

Pública: Um dia com... António Marinho Pinto

Dias com Ordem

Levanta-se de madrugada, gosta de passear pela blogosfera, adora um excesso alimentar “de vez em quando”, e confessa sentir-se ainda “um estrangeiro” em Lisboa.



Texto
Pedro Cativelos
Fotografia
Patrícia de Melo Moreira


Praça do Rossio, Lisboa. As cores das roupas, as tonalidades das peles que se passeiam, ou se deixam ficar embaladas nas conversas que se vão trocando naturais pelos passeios em calçada do centro da capital, desnudam as diferenças mais visíveis entre esta e as demais cidades portuguesas. “Ainda me sinto um estrangeiro aqui, de facto”, começa por assumir, nas primeiras palavras de um dia passado na primeira pessoa, enquanto espreita pela janela, olhando o mundo que escapa para além das vidraças da Ordem.
Na sala de reuniões do edifício sede da Ordem dos Advogados, emoldurada no seu perímetro por uma biblioteca que conta os numerosos capítulos da história da Justiça portuguesa, a mesa das reuniões, ao centro, começa a fazer decair os primeiros sinais do que já se conhece de António Marinho Pinto. Directo, frontal, um homem “mais próximo do povo”, bastante mais até, do que o povo está habituado. “Sabe que para além de advogado fui professor, e devido ao facto de a minha história profissional ter passado também pelo jornalismo, aprendi que temos de explicar às pessoas estas coisas da Justiça, dos tribunais... Ser simples é muito complicado sabe?! E sempre achei que quando uma pessoa se escuda demasiado numa linguagem técnica e imperceptível isso apenas serve para disfarçar a incompetência”. Sorri. Algo que se torna comum, ao longo do dia, sem nunca ser associado no entanto a alguma leveza, pelo menos aparente. “Levo isto a sério, é um trabalho que me ocupa o dia inteiro, bastante mais complicado e trabalhoso do que esperava, pois esta é uma estrutura muito pesada, burocrática, pouco agilizada.... Há muito a fazer ainda, mas quem não gosta de calor não trabalha na cozinha e eu não estou nada arrependido de cá estar. Quanto a mim? Tenho saudades dos tribunais, mas acho que não o devo fazer, pelo cargo que ocupo e esta regra só tem excepção para mim em casos que tenham a ver com violações de direitos humanos. Faltam ainda mais de dois anos de mandato, logo se vê se continuo ou não...”.


Por Direito próprio...

Filho de um alfaiate e de uma camponesa doméstica, aos 58 anos, o advogado de Coimbra com a naturalidade de Amarante impressa no bilhete de identidade, foi eleito para bastonário da Ordem dos Advogados depois de começar a aparecer aos olhos do público mais frequentemente nas manhãs da SIC, no programa Fátima. “Sempre gostei de me dirigir às pessoas que estão para além do circuito judicial mas que no fundo são a razão da sua existência, e muitas vezes acabam por ser deixadas à margem por causa do discurso que impera nesta área”, explica, enquanto vai apresentando os seus colaboradores, e o próprio espaço, onde passa “mais tempo do que em casa”, humoriza.
“É quase hora de almoço... Se sou um bom garfo?! Não sou homem de muitos vícios mas gosto de comer um bom bife mergulhado em molho, com um ovo a cavalo e umas batatas fritas cheias de sal a condizer... Mas só uma vez por mês”, lança numa advertência bem intencionada ao seu próprio apetite. Excessivo e controlado ao mesmo tempo são dois traços de carácter que apesar de quase conflituosos entre si na etimologia, parece gostar de conciliar... “Tenho para mim que quando se gosta realmente de alguma coisa, se deve aproveitar isso ao máximo. Como a maioria dos prazeres, o da boa comida não faz muito bem á saúde, por isso tenho de me controlar um pouco, é verdade, até porque não tenho tempo nem feitio para muito exercício físico”.


Noites breves
Levanta-se normalmente de madrugada, pelas cinco da manhã. “Sim, é um ritual que já cumpro há muitos anos. Acordo, por vezes até vejo um filme, mas por norma faço o meu jogging matinal pela blogosfera, esse sim, um desporto que gosto de praticar! Depois preparo-me para mais um dia de trabalho”.
Enquanto nos dirigimos para o restaurante Regional, numa transversal da rua Augusta, abandona um pouco a postura de bastonário, que, a bem da verdade nunca lhe tolda completamente a personalidade nem o faz distanciar-se demasiado de si próprio. Caminha e conversa sobre o que lhe apetece almoçar, sobre o seu Benfica, sobre as pessoas nas ruas, “gente, sempre muita gente”, sobre o tempo. “Sei que a minha postura me valeu muitos amigos e inimigos ao longo da vida. Mas valorizo mais os primeiros!”. Sorri, como aliás costuma fazer sempre que o assunto se torna mais incómodo, mas não abandona o pensamento. “Sabe que quanto mais uma pessoa se expõe maiores são as hipóteses que tem de arranjar uns e outros. Há certas coisas que não previ, os ataques pessoais de tanta gente que não se conforma com o facto de querer cumprir o meu programa por exemplo mas isso pessoalmente não me afecta nada”.
Deixou de beber e de fumar há mais de vinte cinco anos... “só uma ou duas imperiais uma vez por mês, outra vez a questão do controlo dos prazeres e do gosto pela saúde”, deixa escapar com humor, enquanto lê a ementa e se decide por cherne à moda da casa, com água fresca a servir de acompanhamento. Antes, uma sopa, e um leve fio de azeite, num desenho gastronómico que lhe “recorda” a infância.


Ir, exercer, fazer
Ler é um dos seus fascínios mais rotineiros, e as palavras que consome distanciam-se entre si quase que meta-fisicamente, do Código Civil à poesia que o “encanta”, e sem a qual não pode deixar de debruçar a vista e a imaginação, por um dia que seja. “Todos os dias leio poesia, de Camões a Pessoa, passando pelo Jorge de Sena, pelo Baudelaire, pelo Rimbaud... Em relação a este, costumo dizer que se devem temer os políticos que escreveram apenas um livro, mas que em relação aos escritores, normalmente essa única obra é uma obra prima que fica para sempre”. O gosto pela leitura, e o abandono da poesia na conversa, acontece com o nome de Carl Sagan, que sempre gostou de ler. Astrónomo “amador”, como faz questão de mencionar, descobriu o espaço para além do mundo quotidiano ainda criança, e fala do tempo, da sua relatividade, do seu excesso e da sua falta, como uma das causas desta sua paixão. “Fascina-me isso, esta ideia de que quando olhamos o céu passeamos no tempo. Vida extraterrestre?! É tão provável que exista como improvável que tente contactar connosco”:
A música também pertence ao seu ritmo diário, no escritório e nas viagens semanais de regresso a casa, em Coimbra, também elas um outro ritual que não dispensa, normalmente à sexta-feira.“Está quse na hora de regressar, mas de facto não posso fazer a viagem sem música. Posso dizer-lhe que gosto um bocadinho de tudo, mas ando sempre no carro com o Dark Side of the Moon dos Pink Floyd, com a Bethânia com o Elvis... adoro o Elvis! Se danço?! Não tenho jeito!”.

Notícias Magazine: Terapias Alternativas, Segunda opção ou a derradeira resposta interior?


A maioria provém de conhecimentos milenares que, fundamentam até grande parte dos conhecimentos adquiridos pela medicina convencional. Para o corpo e para o espírito, acupunctura, reiki, shiatsu, terapia de som, são as curas da moda em Portugal.



Na última década, a procura de medicinas alternativas tem crescido consideravelmente entre os portugueses. Num momento em que se definem os quadros legais para enquadrar apenas algumas das dezenas de terapias disponibilizadas no nosso país, as razões para o crescimento da procura não surpreendem. Desiludidas com a medicina convencional, encharcadas em medicamentos, cansadas das listas de espera, porventura órfãs de uma crescente obsessão pela saúde do corpo, pelo bem-estar interior, cada vez mais pessoas vão procurando novos caminhos para readquirir ou conquistar o bem-estar.

Texto
Pedro Cativelos
Fotografia
Patricia Moreira



“Relaxe… Isso... Esvazie a cabeça, deixe-se ir”. A atmosfera preenche-se de aromas tranquilizadores, flores de artemísia incensadas em fios que rumam sem lugar marcado na ligeira corrente de ar, dissipando-se nas ondas sonoras, serenas, que tranquilizam o ambiente e as primeiras dores de quem por ali passa, procurando afastar o sofrimento.
No terceiro andar do Atheneu de Lisboa funciona, desde 1992, a Escola Superior de Medicina Tradicional Chinesa, a primeira do país. Funcionando segundo o modelo da Universidade de Medicina Chinesa de Nanjing, com a qual mantém também uma colaboração estreita, nomeadamente no estágio de final de curso de cinco anos que é feito naquela instituição, uma das mais conceituadas na área, dedica-se ao ensino e à prática da cura. Pelas mãos dos mais de oitocentos alunos que por aqui passaram ao longo dos anos, largos milhares de pacientes de todas as idades e proveniências sociais já chegaram, partiram e... regressaram também. “Logo desde o primeiro ano os alunos começam a lidar com pacientes, devidamente acompanhados por profissionais mais experientes, claro! Mas temos de tudo, de professores a juízes, de desempregados a cirurgiões... Muitos destes que vêm cá como doentes, depois voltam, com curiosidade de ficar a conhecer a medicina que os conseguiu curar”, explica o anfitrião e fundador da Escola, José Faro.
“Tranquila... Sente-se melhor?”. Acena que sim. “Nem isso conseguia fazer quando cá cheguei, e nem tinha muita vontade, para ser sincera... Andava completamente desanimada”. Maria Salgado tem 47 anos. Experimentou a acupunctura há pouco mais de dois. Como na maioria dos casos que se encontram pelas marquesas da sala de tratamentos, depois de passar pela medicina convencional sem grande sucesso, e com o agravamento dos problemas na cervical, acabou por ser aconselhada a experimentar uma da últimas saídas que se lhe avistavam para se ver livre da dor que já quase a impedia de sair à rua. “Como sempre, acabamos por ouvir alguém dizer que resultou e estamos tão desesperados que acabamos por pensar: ´E por que não?!`. Resultou e hoje confessa sem dificuldade que a sua experiência com as agulhas foi simplesmente “a concretização de um sonho, voltar a ter a minha vida de volta. Agora, faço o mesmo que fizeram comigo e recomendo isto a toda a gente”.
José Faro, sorri. “É o nosso maior objectivo, fazer com que saiam daqui melhor que quando entraram, é para isso que trabalhamos e damos formação. Mas deixe-me que lhe diga que ao contrário do que a maioria das pessoas pensam, medicina tradicional chinesa não é só acupunctura, isso deve-se ao facto de utilizar agulhas, algo que obviamente captou mais as atenções principalmente quando falamos do início do século passado, por se afastar dos padrões clínicos convencionais da época. Muita gente pensa que as agulhas têm algum poder especial, mas claro que não. A recuperação de um doente que opte pela medicina tradicional chinesa começa na consulta, quando vemos e sentimos o paciente e as melhorias muitas vezes podem ser feitas através de correcções na alimentação por exemplo, por vezes basta isso para reequilibrar o corpo energeticamente! Depois há, claro, todos os outros tratamentos baseados num conhecimento com mais de 5 mil anos de prática confirmada, e recordo-lhe que a medicina ocidental tem menos de metade”.


À boleia de novos conhecimentos
Depois de ter frequentado um curso de psicologia em Coimbra, José Manuel Correia, partiu para Oriente. A acompanhá-lo, apenas uma mochila e um bilhete de ida, carregado de ilusões. Cursou psicologia médica em Manila, descobriu as artes marciais e as medicinas orientais no Japão, onde permaneceu durante dez anos e... regressou. Fundou então a Associação Portuguesa de Ninpo Shiatsu Aikijujutsu.
Na Marinha Grande desde 1990, o seu trabalho divide-se entre as artes marciais, a prática da terapia Shiatsu e o ensino “Sou um clínico geral deste tipo de medicina”, explica.
Apesar de reconhecer não ser esta, uma técnica infalível para a resolução de todas as maleitas, e reconhecendo que muitos casos “só podem ser tratados pela medicina convencional” releva o Shiatsu como um meio de cura “extraordinário”, ressalva. “Sim, desde as dores ciáticas, ao reumatismo, passando pela miopia e diabetes, entre muitas, muitas outras”.
Victor Manuel Pereira é um caso diferente. Terapeuta com consultório aberto em Lisboa, evoluiu na prática da acupunctura e do Shiatsu ao mesmo tempo e foi sendo conquistado pelos resultados. O seu interesse pelas medicinas alternativas orientais começa a desenvolver-se através das viagens que foi fazendo pela Europa e pelos Estados Unidos. “Senti a necessidade de aprofundamento do que ia descobrindo”, começa por dizer. Foi assim conduzido à realização de estudos no âmbito destas técnicas terapêuticas “Não só as medicinas de inspiração oriental têm uma visão global do corpo, como a medicina convencional também já a tem e vai buscar algumas técnicas e conceitos alternativos, porque a visão actual é cada vez mais integrativa”, atesta. Começa assim por defender um novo paradigma para uma também ´nova saúde`. “A qualidade deve prevalecer sempre sobre a quantidade. Amo todos os meus pacientes sabe?!”.
E em sua opinião nem é difícil saber exactamente qual é o melhor método para avaliar os pacientes que lhe preenchem as consultas que dá no Centro Português de Astrologia Quiron de Lisboa. "Os princípios do Shiatsu são muito úteis na maioria dos casos, mas se após um número razoável de 4 a 6 tratamentos um doente não apresentar melhoras, encaminho-o para outra medicina porque o importante mesmo é garantir que os doentes façam uma escolha informada e adequada à sua necessidade e que afinal, se recuperem”.


Meditação, Natureza e Paz

Com uma componente filosófica, psicológica e mística mais vincada encontram-se outras disciplinas curativas como o Reikki, uma antiga arte tibetana de canalização da energia vital pela imposição das mãos, redescoberta no Japão, em meados do século passado. Este conhecimento ancestral é um dos que mais tem despertado a atenção e a curiosidade dos muitos portugueses que já vão aderindo em massa às aulas disponibilizadas em health centres e ginásios de todo o país. "Sendo o Reiki uma técnica fácil e eficaz para a reposição do equilíbrio energético e da aquisição de auto-conhecimento, procuramos que ele chegue dentro dos parâmetros e qualidade imprescindível, a todos aqueles que querem aprendê-la", refere Carlos Marques, director da Escola Portuguesa de Reikki.
Razões para tão grande aceitação da terapêutica por parte do público a tal ponto de se tar tornado quase numa moda? “Sim... Mas é um facto que só vem confirmar um dado evidenciado, por exemplo, aquando da visita de Dalai Lama a Portugal. Por muito estranho que isso possa parecer, até à própria filosofia tibetana, o Budismo está na moda ente nós. O facto de estar na moda trás muita gente de facto, mas como em todos os fenómenos de massas, no final, apenas fica quem acredita, e quem de facto acaba por se identificar com a filosofia do Reikki”.
Labsong Dorge, ou Mente Realizada nas palavras do tibetano, é precisamente um budista português, que “desde muito pequeno", influenciado pelo pai e pelo tio perfilha dos valores tradicionais da cultura do Tibete, do Nepal e da Índia. De então para cá, perdeu-se e reencontrou-se mais vezes que as que desejaria, até por fim, calcorrear o caminho certo, direcção que o levaria à tranquilidade que diz agora conhecer. “Há mais de vinte anos que me vou aperfeiçoando, actualizando, crescendo dentro disto que descobri... Até que o destino me trouxe até aqui”. Nuno, o seu outro nome, mais português, faz terapia de som. Utilizando taças tibetanas, constituídas por uma liga metálica composta por ouro, prata, cobre e diversas outras composições metálicas, posiciona-as sobre os pontos vitais do corpo do paciente, fazendo-as vibrar. As ondas sonoras emanadas pela vibração do metal, dependendo da intensidade utilizada, actuam como se de uma massagem se tratasse, esta sem a utilização das mãos e a um nível intracelular. As velas compõem a ambiência, onde o laranja suaviza a rigidez trazida do mundo exterior que, por ali, parece afastado para não mais do que uma ténue certeza de regresso inevitável.
Durante a sessão, que de pode prolongar por mais de uma hora, vai recitando mantras tibetanos, que acompanham o ritual terapêutico. “O que faço é um tratamento e não uma cura, até porque essa reside dentro de cada um! Sim, creio ser esse o meu desígnio, fazer despertar a pessoa para a sua verdadeira finalidade neste mundo, ajudá-la, partilhando o que sei, o que fui aprendendo, de forma a que se liberte dos medos e frustrações que lhe roubam energia e a tornam mais atreita à doença”.

O melhor de dois mundos
Se na China, por exemplo, a medicina ocidental conquista espaço em muitos dos hospitais, que possibilitam aos utentes a possibilidade de optarem entre a medicina ocidental e a tradicional, do lado de cá do planeta, o caminho percorre-se, com ou sem ironia, ao contrário. Em Inglaterra algumas terapias alternativas já fazem hoje parte do sistema nacional de saúde e até em Portugal, apesar de ser esse ainda um cenário que não se coloca, a Medicina convencional aproxima-se cada vez mais das suas parceiras alternativas. Exemplo prático dessa realidade torna-se facilmente observável em algumas clínicas que as emparceiram no leque de serviços a prestar aos consumidores.
Começa assim a deixar de ser estranho encontrar num mesmo local, médicos, psiquiatras, naturopatas, homeopatas e todo o tipo de terapeutas de várias disciplinas naturais. O Instituto Azul, na cidade do Porto é um bom exemplo desta nova realidade, pois entrelaça diferentes mundos das ciências humanas que até costumam andar de costas voltadas. Tudo em nome da “credibilidade” como Ana Sofia Carvalho costuma dizer. Até porque, explica a gestora do espaço, “todas as terapêuticas são abordagens diferentes mas igualmente eficazes de tratar o ser humano nas suas várias dimensões”.
Mas pode esta aproximação entre conhecimentos aparentemente tão distintos ser benéfica para os pacientes? Duarte Almeida, especialista em endocrinologia e professor da Faculdade de Medicina do Porto não tem dúvidas. "Não julgo a validade das outras práticas nem vou encaminhar os meus pacientes para disciplinas que não conheço, mas se os ajudarem psicológica ou espiritualmente, isso só pode ser benéfico", assinala o clínico. No entanto, e apesar deste caso de sucesso, outros há que levam o presidente do conselho científico da Sociedade Portuguesa de Médicos Acupunctores a colocar algumas reticências nesta súbita implementação das terapias alternativas. “O Estado deve regulamentar convenientemente e com urgência o exercício destas terapêuticas, à semelhança do que se faz noutros países, por exemplo a Inglaterra, onde várias estão já integradas no Sistema”, alerta. A regulamentação, explica, apenas trará, benefícios. “Sim, mais transparência a um mercado inundado subitamente de terapeutas sem preparação, através da definição de uma formação mais exigente e condições adequadas dos locais em que muitas vezes são praticadas”.


Caixa:

De alternativas a massificadas
A curiosidade acerca das terapias chamadas alternativas acontece pela primeira vez na década de 60, num período marcado pelo movimento hippie, pelo naturalismo e pelo vegetarianismo. É então nas reminiscências dos movimentos sociais da década de 70 com a crescente industrialização que se passam a questionar os conceitos de saúde e o sistema médico predominante. Surgem os primeiros movimentos ecológicos, acompanhados de novas preocupações nutricionais que alimentam massivas tendências urbanas, novos males e novos remédios, pelo menos nas sociedades ocidentais. Oficialmente, as terapias alternativas, milenarmente utilizadas na China, no Japão, na Índia, no Tibete e em todo o Oriente, começam então a propagar-se pelo velho mundo.
Desde então, a tendência é global. Por todo o lado tem havido um aumento da popularidade das medicinas alternativas, do Japão aos Estados Unidos da América, passando pelo norte da Europa, até à Oceânia... E também por Portugal. Exceptuando o prematuro exemplo de Garcia de Orta que viveu cerca de 34 anos em Goa, e por lá estudou plantas e tratamentos medicinais indianos, deixando uma tão vasta quanto esquecida obra sobre a matéria, apenas na última década do século passado as mais variadas terapias e cuidados corporais ultrapassaram definitivamente as barreiras da compreensão e passaram a estar na moda entre os portugueses, como o revelam diversos estudos publicados nos últimos anos sobre a matéria.


Portugal procura cada vez mais Alternativas
No nosso país, a procura por terapias naturais intensificou-se de tal forma nos últimos anos, que o Governo se viu obrigado à elaboração de uma lei que enquadrasse a actividade e o exercício dos seus profissionais. A Lei nº 45/2003 reconheceu autonomia clínica a Acupunctura, Osteopatia, Homeopatia, Naturopatia, Fitoterapia e Quiropráxia, considerando ainda a sua base filosófica diferente da medicina convencional, todavia com processos específicos de diagnóstico e terapêuticas próprias.
Feito assim o enquadramento base de algumas destas terapêuticas, estabelecendo as que são reconhecidas, bem como os parâmetros da acreditação dos seus profissionais, muitas outras acabariam no entanto à margem da legalização.
Apesar da legalização destas actividades, ainda hoje, cinco anos depois, a discussão em torno das especificidades da lei impede o seu completo funcionamento. Os cursos não possuem equivalências a bacharelatos ou licenciaturas, e muitos dos profissionais da área subsistem ainda na clandestinidade.


Caixa:

Terapias

Cerca de trinta por cento da população europeia recorre ou já recorreu a pelo menos a uma terapêutica complementar ou alternativa. Em Portugal, o número de centros onde se podem encontrar transcende largamente as duas centenas de espaços, e é bastante acessível, apesar de um pouco dispendioso (os preços são muito variáveis e podem ir dos trezentos, aos três mil euros) entrar num curso de formação dedicado a qualquer uma delas.

Acupunctura
Ramo da medicina tradicional chinesa, que utiliza a introdução de agulhas muito finas, com a finalidade terapêutica de reequilibrar o fluxo energético do organismo ou para induzir um mero efeito analgésico. Também existe uma vertente que se pratica durante o parto, sendo uma prática cada vez mais procurada para melhorar a gravidez. Em Portugal terão já havido cerca de uma centena de bebés nascidos com a ajuda da medicina chinesa.

Aromaterapia
Uso de óleos essenciais e aromas de plantas como recurso terapêutico para vários males.

Cromoterapia
Ciência que utiliza as cores para estabelecer o equilíbrio e a harmonia do corpo, da mente e das emoções.

Feng Shui
Método milenar chinês para harmonização de ambientes.

Fitoterapia
Sistema terapêutico em que as plantas medicinais são utilizadas com a finalidade de restaurar as funções do corpo humano.

Terapia Floral
Remédios à base de flores, desenvolvidos pelo médico inglês Edward Bach, para tratar males da alma, como a ansiedade, o medo e a timidez.

Liang Gong
Técnica chinesa que utiliza movimentos lentos e contínuos onde cada um interfere com uma parte específica do corpo.

Naturopatia
Terapêutica baseada no principio da auto-regeneração corporal. Através da avaliação do estado global do organismo, é utilizada a prescrição de dietas, suplementos dietéticos, exercícios físicos e outras terapias, promovendo e estimulando as defesas naturais do corpo humano.

Osteopatia
Sistema de diagnóstico e tratamento, cuja utilização principal se situa nas maleitas do sistema músculo-esquelético. Utiliza principalmente métodos de tratamento à base de manipulações suaves, para restabelecer e manter as funções biomecânicas corporais.

Quiroprática
Método de tratamento que enfatiza as disfunções vertebrais como causa primordial para o aparecimento de várias patologias, utilizando métodos de tratamento idênticos aos da Osteopatia.

Tai Chi Chuan
Movimentos de luta em câmara lenta, simulando acções de animais e fenómenos da natureza. Aguça os sentidos e aumenta a concentração e a flexibilidade.


Notícias Magazine, Outubro de 2008

Notícias Magazine: O fascínio das árvores anãs

Uma tradição milenar que se tornou moda um pouco por toda a Europa e parece estar a ganhar cada vez mais adeptos em Portugal ou, a simples procura da tranquilidade das emoções, da conquista de um espaço pessoal comum, da relatividade de todas as coisas. A NM visitou a primeira e mais antiga escola de bonsai portuguesa.


Texto
Pedro Cativelos
Fotografia
Patrícia de Melo Moreira


O ruído estridente e desencontrado do metal em alvoroço de corte transporta-nos ao imaginário cinematográfico do Eduardo Mãos de Tesoura. Todavia, por aqui, a personagem mais eloquente é bastante diversa, mitológica ainda assim, porventura pelas memórias que evoca em quase todos. O Mestre Myagi do Karaté Kid. Sim, é verdade, o êxito de bilheteira dos anos 80 é o responsável pela massificação da ideia do bonsai que até à época era relativamente desconhecido para a maioria dos que agora, o transformaram em elemento integrante da sua vida. “Acho que já está... Não está?!”. O olhar divide-se, as mãos seguram com gentileza de cristal as pequenas folhas de um verde vivo. Sobre a mesa, reminiscências caídas do crescimento evitado. “Parece que respira melhor e tudo”, ouve-se com orgulho.


Quem são?
Gramaticalmente pode até parecer incorrecta a utilização do quem, em vez do que. Para quem os conhece no entanto, a permuta faz todo o sentido. “Então, falta ainda aqui limpar estas folhas, espaçar estes ramos, colocar os arames, ainda cá vai ficar mais umas horas, ou então leva trabalho para casa”. Gargalhadas. São assim as aulas na Escola do Bonsai, em Sintra, a pioneira de entre algumas outras instituições que têm aberto as portas um pouco por todo o país nos últimos anos, em resposta ao interesse crescente de um público sobre o qual não existe ainda uma quantificação concreta.
“Hoje é dia de exame, vieram numa boa altura”, afiança Marco Rodrigues, professor e proprietário do Centro Bonsai de Sintra, onde funcionam as aulas e está instalado o Museu do Bonsai.
Para o trabalho estar concluído, todos os ramos da pequena árvore terão de estar visíveis, não se cruzarem entre si para que a luz consiga penetrar sem obstáculos, do topo à raiz do arbusto. “Trabalho para casa? Então de casa vim eu com ele!”, responde Pedro Fernandes, enquanto observa o seu ulmeiro. “Costumo trazê-lo, tratá-lo. Noutras ocasiões, cuidamos das árvores que estão aqui no hospital de bonsais (um serviço gratuito) e acabamos por praticar e aprender com árvores cá deixadas por pessoas como nós, que também têm esta paixão”. A sua mulher que o acompanha nas aulas desde que o marido lhe ofereceu um bonsai como prenda de aniversário, mantém-se atenta às forma que a tesoura vai deixando na “sua” árvore. “Acabamos por vir os dois juntos, é tempo de qualidade que passamos”. Pedro interrompe. “Sabe que queria comprar um bonsai da idade dela, mas seria muito caro. Acabei por lhe oferecer um mais baratinho que vai envelhecendo connosco”, humoriza. Ana Isabel sorri.
Na realidade o Bonsai é o resultado de um conjunto de técnicas esculturais de horticultura baseadas em princípios de arte e estética que se pode aplicar a diferentes tipos de árvore ou arbusto. O nome provém dos dois caracteres que se escrevem da mesma maneira em Chinês e Japonês, e que significam na génese, árvore em vaso, talvez o principio básico, para se poder ou não considerar um verdadeiro bonsai. Na prática e para além da definição tanto enciclopédica como milenar, resume-se por aqueles que o aceitaram na sua vida como “um hobby que se tornou prazer, que evoluiu para paixão”.
Eduardo Carvalho dedica-se àquela a que chama “a arte que mudou a sua vida” desde há seis anos. Do primeiro sobraram apenas raízes... na memória. “A minha mãe ofereceu-me um que morreu, o que é normal em quem tem um bonsai pela primeira vez e não possui experiência de como o deve cuidar. Depois, antes de ir para o segundo, li, informei-me e ainda hoje o tenho”. Mais uma tesourada, pequenos ramos e folhas espalhados sobre a mesa da sala iluminada no sol do Inverno que ainda se prolonga. Uns conversam entre sorrisos, outros lidam apenas consigo próprios e com a sua missão para hoje. A preparação para a Primavera. “Depois de ter vindo para a escola há uns dois anos, de aprender realmente a tratar de um bonsai, acabei por continuar por aqui, porque me faz bem. Trago a minha árvore, cuido dela e trato de mim também”, explica. Dedica-se agora a começar um bonsai a partir de apenas um tronco de carvalho. “De quase tudo se pode fazer um bonsai, é preciso apenas carinho e respeito por ele, e saber tratá-lo claro. Por onde se começa? Pelo princípio, a colocação no vaso”.
Se André Rosa, um jovem na casa dos trinta anos que quase apenas se ouve respirar, pelo estremecimento que provoca nas pequenas folhas que vai cuidadosamente retirando, faz deste “um vício que lhe leva cada vez mais tempo, atenção e espaço na casa porque já tenho para aí uns dez”, Marcelo Neves, já reformado da pesca, descobriu-os há apenas alguns anos mas tomou-lhes o gosto. Eles tomaram-lhe o quintal, o pátio do segundo andar e alguns outros recantos da casa. A esposa parece não gostar muito da ideia. “Não, nada disso, ela é é envergonhada!”, clama com um sorriso que não se dissipa facilmente.
Quanto aos bonsai... “Não podia ter encontrado nada melhor para mim. Sou meticuloso, tenho gosto nestas coisas”. Marcelo tem assim um verdadeiro viveiro de bonsai na Ericeira, de costas para o mar, protegidos do vento e das condições do clima. Construiu-lhes um sistema de rega automática, tem todos os instrumentos necessários, dedica-lhes largas horas do seu dia, e até lhes oferece o melhor do seu feitio “difícil”. “São muito sensíveis”, segreda enquanto segura com as mãos de quem trabalhou muito, um ramo que parece sem destino, assim a olho nu. “Parece mas não é, vai ser uma laranjeira bonsai...daqui a uns tempos”, professa.
Existem bonsai de quase todas as espécies de árvore. Da nespereira à roseira, passando por videiras, figueiras, oliveiras, macieiras... Há de tudo, ou quase tudo no pequeno grande mundo do bonsai. “O ideal é que as árvores tenham folhas pequenas para não ficarem desproporcionadas nas miniaturas, embora existam técnicas para que se mantenham todas elas esteticamente uniformes, a sua principal qualidade”, explica Marco.
A turma de vinte alunos, homens e mulheres, mais novos ou mais velhos, mais pequenos ou mais altos, com vidas mais ou menos diferentes, ouve-o, sem tirar os olhos do bonsai, “ou do que ele poderá vir a ser, algo que nos está sempre na cabeça”, acrescenta.


Lições de vida

As tesouras repousam agora na bancada de madeira, disfarçadas na folhagem, por entre emaranhados de turfa e musgo que perfuma o ar. No ambiente, apenas os sons que se alastram por todo o espaço. Ruídos da Natureza embutidos em notas que soam a oriente extremo, retiram o lugar da estrada que se encaminha para Sintra e colocam-no algures para lá da fronteira do perceptível. Sente-se a calma, pressente-se o tempo no seu real estado. “Os sons aqui são importantes, trabalhamos com isso também, para transmitir boas sensações aos nossos visitantes”.
Das largas centenas de minúsculas árvores dispostas pelos bosques recriados por aqui, as placas dos preços sobressaem, pouco é certo. “Normalmente dentro da mesma espécie e qualidade estética, quanto maior é a planta mais cara é. Porque demora mais tempo a ´construir` um Bonsai maior, mas se a qualidade estética for diferente, poderemos ter um mais pequeno e mais novo e no entanto mais caro”. Há assim formas, estéticas e preços para todos os gostos, vontades e bolsas, claro. Por aqui, desde os 50 ao 2000 mil euros. Noutros mercados, até bastante mais. “Depende disso mesmo, da beleza do bonsai”, reitera Marco Rodrigues, que desde muito novo descobriu o fascínio, primeiro pela cultura, depois por esta forma de a exteriorizar. “Tive a felicidade de estudar na Coreia do Sul, onde tomei contacto com a realidade do Oriente. Há mais de 25 anos que temos este centro de jardinagem que acabámos por adaptar e especializar no bonsai. Fomos os primeiros a fazê-lo no nosso país, e também a abrir uma escola para as pessoas aprenderem a lidar convenientemente com as suas árvores”, assinala.
Quanto à moda que, depois de ter alastrado pela Europa, parece ter chegado a Portugal, é claro. “Notámos um boom aquando do Karate Kid, depois estabilizou. Sempre tivemos muitos clientes espanhóis e holandeses por exemplo. Agora nos últimos tempos têm aparecido cada vez mais portugueses, até tivemos de duplicar as aulas, aumentar o espaço que já não chega para todos. Razões para isso? Talvez pelo stress que se sente hoje em dia, pela luta diária, pela correria urbana... Isto acalma-nos, traz-nos de volta à terra, devolve-nos a natureza”.



Caixa:

Curiosidades:

Os Bonsai surgiram na China há mais de 2000 anos. Com a expansão do império a arte alastrou-se ao Japão e a outros pontos no extremo oriente.

Por ser mais pequeno, em termos de tempo de vida, o bonsai tem uma longevidade pelo menos semelhante às suas congéneres da mesma espécie, podendo atingir mesmo as largas centenas de anos.

O valor de um Bonsai depende de vários factores, como a origem, a qualidade estética, a espécie e a idade. Normalmente, quanto mais velho é, mais valor atinge no mercado. Existem bonsai centenários que podem custar facilmente mais de 10 mil euros.

Notícias Magazine, Agosto 2008

setembro 12, 2008

Notícias Sábado:: Zé Perdigão

“O Fado nasce connosco, não se aprende”
 

Na primeira entrevista da sua ainda curta carreira, a NS levou a nova voz do Fado pelas ruas estreitas de Alfama, a cantar por alguns dos lugares mais típicos da velha Lisboa dos bairros populares, onde o fado se passeia vadio, há mais de um século.

Texto
Pedro Cativelos
Fotografia
Patrícia de Melo Moreira



Nasceu um fadista. Zé Perdigão, abreviativo artístico de José, “porque o fado é para ser do povo e para o povo”, não é de Alfama ou da Mouraria, nunca cantou em casas de fado, não conhece de cor os meandros e as ruelas do fado vadio, mas sente-o, como se fosse o seu, sem o ser, quando começa a trinar a primeira guitarra.
Tem tanta força na expressão com que canta que quase nos deixa desconfortáveis na cadeira, enquanto o silêncio que se pede, sem que se ordene por palavras, é quebrado por figuras de estilo em formas de espanto, de inquietude e olhares que se preenchem não se sabe bem do quê, mas que brilham logo a partir da primeira sílaba. E começa a murmurar-se na sala que se torna mais quente e apertada, enquanto as emoções tomam conta, primeiro do espaço e depois do interior de cada um.
As referências de Zé Perdigão remontam ao fado e à música étnica. Aos 28 anos, lança-se no mercado discográfico com “Os Fados do Rock”, onde transporta para o fado, as canções de um imaginário comum onde, à primeira vista, a guitarra portuguesa não tinha lugar marcado. Dos Gift a Jorge Palma, dos Chutos & Pontapés aos Rádio Macau... “Então e porque não?!”.
José Cid, que o descobriu por acaso, num final de tarde em Guimarães, nunca mais o perdeu de vista. “É algo raro... De vez em quando aparece gente a cantar assim que se há-de fazer!”. Zé sorri, sobe ao palco, canta.



“Fados do Rock” é pensado para passar bem na rádio...
Sim, é verdade, porque mesmo os mais consagrados têm dificuldade em fazerem-se ouvir na rádio e na televisão. Estou a ter uma boa aceitação até agora. Tenho tido uma mescla de reacções de várias faixas etárias, do miúdo de oito anos que gosta de ouvir, ao avô de oitenta, que adorou.


Tem noção de que se arrisca a ser criticado pelos mais puristas. É de Guimarães, não tem a aparência tradicional de um fadista e, inicia a sua carreira com um álbum chamado “Fados do Rock”...

Já pedi e peço desculpa aos mais tradicionalistas por esta ousadia. Mas ela parte de um produtor com 50 anos de música em Portugal, com uma tecitura musical que vai do étnico ao rock sinfónico, com provas dadas internacionalmente, o único com um disco classificado pela Billboard entre os melhores do mundo de rock sinfónico (10 Mil Anos Depois Entre Vénus e Marte). Um homem que tem todo o direito a ser ousado, para que o fado aconteça de uma forma progressiva. Chamo-lhe fado canção, sou simples, e aceito as criticas com humildade.


É em quase tudo, um fadista diferente do habitual... Até a postura é diferente, da comum, consegue explicar isso?

Se ser fadista é meter as mãos aos bolsos... Eu não sou assim, tenho necessidade de me expressar, entrego-me totalmente ao que estou a fazer, nem sei como as coisas acontecem! Faço gestos incontidos, que surgem no momento.


Como o ouvem, a sua família e aqueles que são mais próximos de si?
O meu pai morreu há alguns meses... Sentia-se orgulhoso de mim. A minha mãe é diferente, sempre achou que estas coisas da música não eram trabalho sério! Acho que acreditava no dom que eu tinha mas, também sabia que ser músico em Portugal não é profissão. Queria que fosse qualquer coisa de gabinete, funcionário de uma câmara municipal... (sorri)

Ao contrário do palco, parece-me introvertido...
Sempre lutei muito sozinho, houve alturas em que não senti o apoio de ninguém. Habituei-me a isso... No palco é diferente, não sou eu, é qualquer coisa de transcendente, que por vezes tenho receio de questionar, acontece apenas, não me pertence.


Agrada-lhe este ambiente de uma casa de fado?

Gosto de ir a casas de fado, são fontes necessárias para alimentar a alma, mas por sistema não. Ir ao fado é como o cristão ir à missa, é preciso sentir a necessidade de ir beber àquela fonte.


Lembra-se do primeiro fado que aprendeu a cantar?

Ah... Estranha Forma de Vida!

E continua a ser especial para si, calculo...
É um fado que me toca bastante, na literatura, na composição musical, no sentimento... E depois porque ser fadista é de facto uma estranha forma de vida, em todos os aspectos.

Então?
Ser fadista não é quem quer... Não se aprende a ser fadista, já está connosco desde que se nasce, não é como a matemática.

Não pensa que por ser de Guimarães, e não de Lisboa, a forma como interpreta o fado não se encontre com a matriz original da canção?
Para mim o fado é mais do que isso. Tem a ver com uma mescla cultural, que emana da nossa história ancestral, que se encontra quase misticamente nesta nossa canção. É muito mais que Lisboa ou Coimbra, é uma portugalidade maior, um reino que não se resume sequer ao nosso país, é universal.

E onde se encontra o verdadeiro Zé Perdigão?
É no fado canção que eu me acho a mim mesmo, onde me sinto bem, no melhor de mim. Foi daqui que eu parti para um primeiro trabalho de gravação, tinha de me sentir confortável a fazer o que faço, o futuro será depois.

Gostaria de interpretar os grandes poetas portugueses?
Num outro trabalho quero ir por aí sim, pelos clássicos e pelos novos poetas portugueses. Tenho uma preferência pelo Pessoa, parece quase inatingível, qualquer coisa de transcendental na nossa literatura, muito à frente do seu tempo, ainda hoje o é. Gostaria de representar algo semelhante no meio onde me encontro.


Não será colocar a fasquia um pouco elevada de mais?

Gosto de desafios, não de pisar o risco. Esse é um grande desafio de facto, tenho plena consciência disso. Não vou deixar que nada do que me agrade me passe ao lado, só se vive uma vez e eu gosto de viver.


Aplica esse principio no dia a dia e transporta-o para o palco consigo?

Sim. Amo a vida que tenho e aquilo que faço...


O que é o fado para si?

É uma forma de vida, estranha também, mas para além disso a melhor maneira de contar aquilo que somos enquanto país, enquanto pessoas. Se alguém se esquecer um dia de escrever a nossa história, o fado encarregar-se-á de dizer o que nós somos enquanto sociedade.


E o que lhe dá mais prazer nisto tudo?

Isso mesmo, cantar e contar um povo com a sua própria musicalidade!


Tem referências que lhe sejam especialmente marcantes?

Todos são importantes para que esteja aqui hoje. De Alfredo Marceneiro até à nova geração...todos. Ser sectário aqui é errado. Todos são diferentes, por exemplo, Marceneiro era alma por todo lado, Hermínia Silva era a fadista das coisas populares e alegres, Amália é a eterna de grandes poemas e de grandes fados canção, muitos quase étnicos também... Lembro-me que ela chegava a Itália e cantava canções tradicionais de lá, fazia isso em quase todos os países, recordo-me de ´Summertime` na sua voz... Pergunto-me se isto é fado? É, na voz dela era! Na voz de um português fadista, qualquer tema é fado!


Tem a noção de que quando começa a cantar, as pessoas o sentem de uma forma pouco comum, muitas começam até a chorar, até porque a maioria não o conhece...?

Sim, acontece-me frequentemente. Não sei se é a voz, se a presença... Como canto de olhos fechados, não me apercebo tanto disso, mas é verdade sim, às vezes tenho de me isolar um pouco de quem está à minha frente para a minha voz não ficar embargada. Nesse momento, concentro-me totalmente, no que estou a fazer, não estou a debitar, sinto-o de uma forma que não consigo explicar... Nunca canto o mesmo fado duas vezes, da mesma maneira. Deixo-me levar pelo momento, apenas.

É verdade que, quando aos sete anos entrou para o Orfeão de Guimarães, a missa de domingo começou a encher-se de pessoas que o iam ver cantar?
(Sorri e olha timidamente para baixo). Nunca perguntei a ninguém porque choravam quando me ouviam, não tenho essa ousadia...


O fado está na moda?

Não, nunca sequer passou de moda, é nosso e se outros estilos musicais podem passar, o fado não! Quem interpreta apenas faz isso, o guitarrista toca, o compositor compõe... Até nisso é democrático.

Começa a ser uma figura pública, já pensou como irá lidar com essa exposição, nova para si?
Há pessoas que vêm falar comigo, fazem muitas perguntas. Não as conheço, mas elas conhecem-me a mim e falo com elas, sem problema nenhum. Há uma oração que faço todos os dias de manhã... Peço a Deus que me conserve humilde, que me mantenha assim, que não me deixe estragar, que me dê paz.

É uma pessoa de fé?
Se ser praticante é cumprir os valores, sou sim.

E agora?
Tenho espectáculos marcados, estou a começar, e a gostar de toda esta nova realidade que é nova para mim. A minha vida mudou completamente, deixei Guimarães, tenho menos tempo para a família, para os amigos mas... nasci para isto!

Legendas:
No Clube de Fado canta pela primeira vez ao lado de Fontes Rocha, histórico guitarrista que acompanhou Amália.

Na Casa fermentação, no Largo de São Rafael, em Alfama. “Estranha Forma de Vida”, reinterpreta “o primeiro fado” da sua vida.

Notícias Sábado, Agosto de 2008

Notícias Sábado: Gonçalo Amaral

"Maddie morreu naquele apartamento"

Quando recebeu a primeira chamada a dizer que uma menina inglesa tinha desaparecido na Aldeia da Luz, estava “longe de imaginar” que esse telefonema lhe iria condicionar o destino, a profissão e o futuro. Tudo aconteceu em Maio, o “mês que há de vir”, como diz uma das mais antigas lendas que ainda hoje as populações de Lagos vão passando de geração em geração. A sua vida nunca mais seria a mesma a partir desse momento. Gonçalo Amaral conta tudo ou “quase tudo” no seu livro, Maddie, A Verdade da Mentira. Revela o resultados das investigações, explica as conclusões a que chegou, não tem receio em as assumir. À NS explica ainda como o poder político influenciou o decorrer do caso, confessa estranheza pelo facto da direcção da Polícia Judiciária não ter protegido a equipa de investigadores dos ataques da imprensa inglesa e recorda o que sentiu, no último dia em que foi polícia.
Apesar de tudo, não guarda “rancor” de ninguém, e tem “orgulho” do trabalho que fez. Fuma, mas não gosta de ser fotografado a fazê-lo por uma questão de exemplo, recebe chamadas de antigos companheiros que o cumprimentam pela coragem, é “amigo” de muitos dos criminosos que ajudou a prender. “São seres humanos, somos todos, merecem perdão”.
Serão estes, porventura, alguns dos traços marcantes do mais fiel retrato de Gonçalo Amaral, o homem de 48 anos, o polícia há quase trinta, agora apenas o cidadão há pouco menos de três semanas que, quer apenas contar a verdade apurada sobre os factos que descobriu durante o decorrer do mais intrigante e mediático caso de polícia de que há memória. “Para que tudo não caia no esquecimento”



Texto
Pedro Cativelos
Fotografia
Patrícia de Melo Moreira


Tem a certeza absoluta do que se passou naquela noite?
O livro não é especulativo. São factos, testemunhos, provas científicas, está lá tudo. Nisto não há certezas absolutas, tenho é a minha convicção baseada em determinados indícios e comportamentos que observei!

E qual é a sua convicção neste caso?
A Maddie nunca foi raptada e morreu naquele apartamento, naquela noite!

Em que fase da investigação chega a essa certeza?
Desde o primeiro momento que detectámos uma série de depoimentos e histórias que não batiam certo, desconfiámos disso logo desde o primeiro instante. A partir de determinada altura, quando começámos a confirmar esses indícios teve de haver um recentrar da investigação e a partir daí chegámos a conclusões baseadas em provas que nos levaram em determinado momento a concluir com elevado grau de certeza o que terá realmente acontecido.


O que fez então?
Apresentei essas conclusões à direcção nacional e vim-me embora! Comunicaram-me que cessava a comissão de serviço em Portimão, na altura em que proferi aquela declaração a um jornalista, em off e completamente fora do contexto em que saiu escrita. Mas até nisso encarei as coisas como eram, não accionei ninguém judicialmente e segui a minha vida.

Não lhe custa, até em termos pessoais, ter passado por tudo isto e agora o caso ser arquivado?
O arquivamento não é nenhuma declaração de inocência. A qualquer momento pode ser reaberta a investigação e, é por isso que lanço o livro, como um contributo para que isto não seja esquecido, porque no fundo, tudo o que está no livro faz parte dos relatórios que toda a equipa entregou à direcção.

Mas não se sentiu injustiçado com tudo isto, até pela forma como saiu?
Nunca me chateei da vida, tive sempre orgulho em trabalhar na Polícia, e o mesmo com que entrei, foi o mesmo com que saí. A vida tem destas coisas, agora tenho mais tempo para as minhas filhas, para os meus amigos! São quase trinta anos de polícia sabe, lembro-me que ao início, nos primeiro anos, sorria muito, depois fui perdendo essa capacidade ao longo dos anos...

Quantos casos teve parecidos com este, ou seja, inconclusivos...?
Que me lembre, nenhum!

E foi a investigação mais complicada em que trabalhou?
Não, deu foi muito trabalho porque houve muita gente para ouvir, muitas inquirições... Aquilo é passado num resort cheio de turistas ingleses, ouvimos centenas de pessoas, muitas até rapidamente porque havia sempre gente a chegar e a partir. Foi necessária uma estrutura enorme de operacionais para tratar disto tudo. Para responder à sua pergunta digo-lhe que já tive muitas investigações muito mais complicadas do que esta! Este é um caso simples e normal, mas com contornos que dificultam que seja tomado o passo final!

Porque foi diferente desta vez?
Porque houve mais política do que polícia! O que é que a investigação criminal tem a ver com a polícia?! O nosso objectivo é a realização da justiça, com base em factos. A política só tem de garantir o cumprimento da Justiça.

Disse há uns dias que sentiu que tinha, “levado um pontapé no rabo”. Sentiu-se traído em todo este processo?
Em situações como a que aconteceu comigo, em que ninguém vem em meu auxílio como era a sua obrigação, não basta dizer ´ele que se aguente!`. Sou um mero funcionário público, mas com quase 35 anos de função pública e se calhar merecia outro tratamento por parte de quem dirigia a polícia.

Porque e como é que a política entra aqui?
Isso escapa à investigação criminal e parece-me que já é um pouco o vosso papel da imprensa, é um tema importante que deveria ser discutido. Vão investigar, e descobrir isso, porque ganhou este caso todo este peso mediático.

Mas quando se apercebe disso no terreno?
Dou-lhe um exemplo... Há um assessor de um primeiro-ministro que abandona esse cargo de muita importância para ir defender os interesses de dois cidadãos ingleses. Com que interesses, porquê?!

Porquê?
Estava em causa o interesse de algum ministro, algum assunto de estado, a necessidade de uma política de contenção de danos?

Estava?
Não sei... Esse é um problema doméstico inglês, mas acho que não é preciso dizer mais nada!

Porque continua Robert Murat arguido?
Tem-se falado mal dessa questão. Houveram outras razões para ele ser constituído arguido e dessas nunca se fala porque estão em segredo de Justiça. Quando o processo for público pode consultar as quatro ou cinco mil páginas e descobrir-se-á tudo isso. Eu sei o que lá está e a maioria das pessoas não sabem.

Houve um fracasso da sua investigação?
A investigação criminal é uma arte que conjuga experiência, teoria, prática e uma parte mais intelectual até! Nós, que saímos nessa altura, não fracassámos e apresentámos resultados, o que aconteceu depois, terá de lhes perguntar a eles.

Como era a relação da polícia inglesa que os acompanhou durante as investigações?
A coordenação sempre foi muito boa, e trabalhámos sempre bem em conjunto, como sempre aconteceu e acontece de há anos para cá em inúmeros casos.

O pensamento dos agentes ingleses, era equivalente ao vosso, de que não haveria rapto e que os pais estariam relacionados com a morte da criança?
Posso dizer que havia um entendimento entre a policia portuguesa e a polícia portuguesa quanto à morte daquela criança, naquele apartamento naquele dia. Era um ponto assente!


Que ideia tem dos Mccan?
Tive algumas reuniões com eles. Apercebemo-nos de algumas incoerências nas histórias, coisas que não batiam certo, parecia que se andava a compor uma história, hoje era isto, amanhã aquilo...

A percepção que teve no primeiro dia, quando chega ao local e conhece os factos apresentados é a que tem hoje?
Desde início que percebemos que qualquer coisa não batia certo. Era óbvio isso. Mas a seguir a isso tivemos de seguir várias linhas de investigação, colocar todas as hipóteses, até à conclusão a que chegámos.

Gostava que Maddie aparecesse?
Claro que sim! Como cristão e ser humano ficaria muito feliz por me ter enganado, mas por tudo o que descobrimos durante a investigação, não tenho dúvidas sobre o que aconteceu naquela noite. Qualquer pessoa que olhe para os factos que recolhemos durante a investigação de forma racional e objectiva conclui da mesma forma que nós concluímos. Não há dúvida razoável, foi isto que aconteceu!

É verdade que o MI6, os serviços secretos britânicos, estiveram na Aldeia da Luz, dias depois do desaparecimento de Maddeleine?
Eu nunca vi ninguém!

Mas fala-se disso...
Pode ser natural que quando estão cidadãos ingleses com uma certa relevância isso aconteça... Mas como lhe digo, não sei de nada disso.

Se não tivesse aparecido este caso na sua carreira, ainda estaria a trabalhar...
Poderia estar ou não... Não penso nisso assim. Quando entramos numa instituição como esta, abdicamos de uma certa liberdade de expressão, e alguns ficam com essa incumbência que neste caso, falhou. As coisas aconteceram assim, mas saio de consciência tranquila.

Como foi a sua colaboração com o seu sucessor na investigação?
Não houve! Fomos jantar um dia, falámos do caso e não voltámos a falar...

E é normal isso acontecer?
Não me ponha contra o meu colega... O normal é alguém que sai de uma investigação e continua a ser ouvido, passar a informação, orientar quem vai a seguir. Isso não aconteceu neste caso apesar de me ter sempre prontificado nesse sentido.



O homem depois do polícia

Tem-se falado nos últimos anos, de algum desconforto no seio da Judiciária, como observa esta questão?
Saí na altura certa! A criminalidade evoluiu, as competências tiveram de ser repartidas, a PJ tem o seu espaço definido com as áreas de competência reservadas. Ninguém pode pensar que só a PJ pode ser dona da investigação, que é muito vasta e não pode abarcar tudo. Os operadores da Justiça têm de se respeitar e não temos de andar aqui a atacar esta ou aquela classe.

Mas como observou a evolução das coisas, desde 81, quando entrou, até aos dias de hoje, aquando da sua saída?
Antigamente um bom chefe era aquele que nos deixava trabalhar, hoje em dia é aquele que trabalha por nós. Acho que há hoje em dia esse espírito na polícia e em muitos outros sectores da nossa sociedade… Abriu-se muito o leque de investigadores. Em 81 entravam trinta, hoje entram às centenas, o que pode ser bom e mau também porque não há capacidade para integrar tanta gente assim.

Qual foi o primeiro sentimento que lhe ocorreu, no momento exacto em que atravessa pela última vez a porta da delegação de faro da Polícia Judiciária?
Um grande orgulho... No dia seguinte estava um pouco mareado como se diz aqui no Algarve, não sabia bem o que havia de fazer, os níveis de adrenalina baixaram... Agora estou bem.

Já sabe o que vai fazer daqui para a frente, depois do livro?
Saí há três semanas, ainda estou a adquirir novas rotinas. Dediquei-me ao livro, recebi algumas propostas quer têm de ser ponderadas. Pensei em voltar ao Direito, ou ir para o sector privado, consultoria, por aí, mas ainda não decidi nada. Nunca fui homem de estar a ver... Sou um homem de projectos, de decisões, em breve definirei o meu futuro.

Mas porquê o Direito?!
Ainda não tomei essa decisão, é apenas uma possibilidade, mas é uma área bonita, poder fazer Justiça, baseada no bom senso, que até é uma figura do código civil.

Não prefere reformar-se ?
Com que dinheiro?! Não penso nisso ainda!



A Verdade da Mentira


Ao olhar para o livro pela primeira vez, o que lhe passou pela cabeça?
A verdade material dos factos, que estão aqui contados.

Colocou tudo o que sabia nesta obra?
Eu sou um jurista, e como tal, deixa-se sempre alguma coisa para trás, para um segundo volume! (Sorri) Mas não! Coloquei o essencial para se perceber a história, as diligências, o que sentimos, está lá tudo, mas há coisas que não podemos de facto publicar, até para não colocar a polícia em causa.

Foi complicado escrevê-lo?
Não, deu algum trabalho sim! Sou ainda do tempo das máquinas de escrever sabe?! Mas isto não é um relatório policial, é mais complexo.

Como surge este livro?
Surgiu porque tinha de ser defendido, diziam que era incompetente, que utilizávamos métodos medievais e não podia dizer nada. Cheguei a interpor um requerimento à direcção da Polícia, para podermos falar, ou para alguém nos vir defender.

E que resposta recebeu?
Nenhuma, ainda hoje estou à espera!

Decide então abandonar a Polícia...
Tomei essa decisão de abandonar a instituição porque era a única forma de readquirir a plenitude da liberdade de expressão, e poder falar livremente, não só para me defender, ou por vingança, mas para explicar o que se passou durante os meses da investigação, para as coisas não caírem em saco roto e se continuar a procurar a verdade. O livro surge como mais um contributo, o meu e da minha equipa, para a descoberta da verdade.

Vai ficar rico?
Se a fama fosse correspondente ao dinheiro estava rico já! Mas em Portugal ninguém enriquece a vender livros. Se fosse para enriquecer tinha aceite propostas de jornais ingleses que me pagavam balúrdios para comprarem o livro para Inglaterra.

Vai ser editado em Inglaterra?
A editora irá tentar editar o livro lá, penso que sim, até porque seria quase uma censura que o livro não fosse editado num dos mais antigos países democráticos da Europa.

Como se sente no papel de figura pública?
Sempre o fui, para a minha família, para os meus amigos para quem interessava. Nunca andei à procura desta exposição toda, nem tem muito a ver comigo. Se reparar, todas as imagens que saíram minhas eram a sair da polícia, em investigação ou a entrar do restaurante, não me andava a mostrar para as máquinas fotográficas.

É que de repente falava-se mais no Gonçalo Amaral que na Maddie...
Isso tem a ver com o peso mediático que o caso ganhou...

A sua família sofreu com isso?
Tive de sair de casa para proteger a minha família porque andavam atrás de mim e dos meus colegas, foi uma altura complicada para nós...



Porque o atacaram tanto?
A partir de determinado momento alguém se apercebeu que em termos operacionais a pessoa que tinha mais responsabilidade era eu e não foi por acaso que me atacaram, para desacreditar a investigação, o que em parte aconteceu aos olhos da opinião pública, principalmente a inglesa.

Chegou até a estabelecer-se a relação com o caso da Joana, um processo de uma outra menina desaparecida, em que o Gonçalo Amaral também esteve envolvido e solucionou...
Estabeleceram essa relação porque o corpo da Joana também nunca apareceu. Mas esse caso está mais que resolvido e é óbvio que os casos não estão relacionados!

Mas a ausência do corpo não é um impedimento à conclusão da investigação?
Há situações em que não é essencial aparecer o cadáver para se saber quem é o culpado. É claro que se torna por vezes mais fácil investigar, mas nem sempre isso acontece e a investigação não se pode cingir exclusivamente a essa circunstância.

O Gonçalo esteve metido numa guerra de imprensas...
Ainda hoje alguém devia agradecer à imprensa portuguesa por ter sido a única que nos defendeu, quando não era ela que o devia fazer, mas a própria Polícia Judiciária.

O que falhou aí?
É inacreditável que a PJ não tenha um gabinete de comunicação. Neste caso faltou isso, alguém que canalizasse a informação para os media, que pudesse expor o que era verdade ou não, que prestasse um serviço aos jornalistas e a nós que estávamos no terreno.
Foi esse o problema desta investigação, não houve uma retaguarda que nos protegesse disso, nada foi feito neste aspecto.

Porquê?
A direcção da polícia assim o decidiu... As polícias, todas elas, não estão preparadas para lidar com a comunicação social e, a evolução da nossa sociedade obriga a que as polícias comecem a repensar a sua forma de comunicar e relacionarem-se com a imprensa. Tudo isso devia ser discutido e alterado.

Mas a falta dessa política de comunicação, pode influenciar o trabalho?
Obviamente que sim, ou pela menos dificulta muito!

Como é que é passar para o outro lado dos “interrogatórios”?
É gratificante, muito interessante porque finalmente posso explicar qualquer coisa, dizer a verdade sobre o que aconteceu, sem ter, como tinha, a obrigação de estar calado!

Sentiu necessidade de querer falar e não poder?
Cheguei a pedir à direcção nacional que repusesse a verdade... Mas como lhe disse, nem obtive resposta!


De que forma lidavam os seus homens com isto?
Mal, claro porque sentíamos a pressão, e somos humanos!

O que se passou com os vestígios enviados para o laboratório inglês?
Não foi de facto um processo normal, aconteceram coisas estranhas e ainda estão a acontecer...

Como acha que tudo isto vai acabar?
Tenho fé que se apure a verdade!

Uma fé cristã, ou judicial?
Há uma grande diferença entre ambas, mas tenho uma enorme fé na Justiça e espero que um dia, não sei quando, se descubra a verdade, acredito nisso.

Nunca deixou de acreditar na Justiça?
Conheci muita gente boa ao longo dos anos, bons magistrados, bons polícias, bons juízes que se preocupam com a Justiça que é uma causa muito nobre. Nunca deixei ou deixarei de acreditar nela!

Ainda se sente polícia?
Acho que esta é daquelas profissões onde não se tira a farda, apesar de nem a termos. Somos o que somos, sem horários, dia e noite, ano após ano. Não é fácil deixar tudo o que vemos, o que vivemos, as pessoas com quem lidamos, esquecer tudo à porta de casa... Acho que é humano até mas cada um lida com isso à sua maneira.

Se visse agora os Mccan, o que lhes diria?
Que estou solidário com a sua dor, mas isso não me pode inibir de tentar descobrir o que se passou. Como diz um filósofo...´Quando o coração sobe à cabeça a emoção toma o lugar da razão e explode a paixão`. É isto que temos de evitar, não cedermos às emoções e procurarmos sempre a verdade.

Isso nunca lhe aconteceu?
Já me vi várias vezes a chorar, depois de concluídos alguns casos.

Neste caso, já lhe aconteceu?
Neste caso não.

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